fbpx

Boteco do JB

Menu Close

Month: March 2020 (page 1 of 4)

um carbonara

não é assim o fim do mundo fazer a bela gil e substituir guanciale por pancetta no carbonara. algumas regras existem pra ser quebradas, especialmente em terra tão distante da receita original. já bacon, não. aí já é dar motivo pra italia declarar guerra pro brasil, o que não é bom, se considerarmos o talento natural deles para o combate. além do mais, não se troca algo curado por um defumado.

na minha casa só faço com guanciale, clássico e mais gostoso. mas só acho a iguaria na casa do porco – cujo fechamento temporário faz uma falta danada aqui na vizinhança – e no santa luzia que, embora imagino estar aberto, consideraria um abuso ao isolamento pegar um taxi para ir lá. então fiquei na vontade.

nesses tempos de quarentena, muita gente tem aberto conteúdo pago pra livre acesso pro fim das pessoas não enlouquecerem. acontece que minha produção virtual já é aberta, então não tenho muito o que oferecer. como meu próximo livro será de receitas crônicas, compartilho a seguir um carbonara de guerra, simplão. inclusive admito que se achar pancetta aqui no açougue da general jardim eu mesmo a farei. não é hora de certos preciosismos. por fim, adianto que esse será o tom do livro, um pouco de prosa e algo pra cozinhar, além de ilustrações de um amigo muito querido e talentoso que na hora certa contarei quem é.

o último carbonara do mundo

ingredientes

100g rigatoni (prefiro ao espaguete)

50g pecorino ralado (infelizmente não fica bom com parmesão, desculpe)

100g pancetta cortada em finas tirinhas (claro que, se tiver guanciale, é melhor)

3 gemas de ovo caipira (ou o que tiver na geladeira, paciência)

pimenta do reino preta a rodo (moída na hora)

modo de fazer

ferva água com bom punhado de sal e meta o macarrão nela. agora, numa tigela, bate o ovo, adiciona o pecorino, um pouco de pimenta, mexe e bota no congelador. numa boa frigideira frita o porco e moa mais pimenta nela, reserve. a pasta está al dente? a meta na tigela de ovo com queijo e acrescente o porco. mais pimenta e mexa, jogo rápido. se necessário, permitido colocar uma ou duas colheres da água do cozimento da massa na mistura. corrija queijo e pimenta. pronto. eu gosto de comer na própria tigela pra não esfriar, mas você pode se presentear com um empratamento bonitão.

orna com que?

esse capítulo não terá no livro, porque acho que cada um come acompanhado do que quiser. além do mais, não é todo mundo que aprecia boa birita. mas, como esses dias estão mais difíceis, pra quem quiser, segue aí algumas dicas de goró pra ornar com seu carbonara.

manzanilla

tristeza sour (a cerveja que colaborei com a morada etílica)

1 negroni antes e outro depois (durante, não)

passe bem, lave as mãos, fica em casa. e, apesar de tudo, tente se divertir.

revolução

com certo alívio vi o manifesto de algumas relevantes lideranças políticas pedindo pro biroliro renunciar. embora duvide que isso de fato aconteça, é preciso se mover. o ex presidente em exercício deve ser deposto e julgado por crimes contra a humanidade.

ou o brasil acaba com bolsonaro ou bolsonaro com o brasil.

alguém deu a ideia nas redes de transformar grandes igrejas em hospitais temporários, acho uma boa. além da óbvia necessidade, já passou da hora desses crápulas devolverem ao menos um pouco de tudo que conquistaram se aproveitando da fé de gente inocente.

alguém terá coragem de fazer valer o imposto sobre grandes FORTUNAS, previsto na constituição de 1988? o mundo quebrou e a economia precisará ser reinventada de cabo a rabo. se seguirmos protegendo quem passamos o pano desde as capitanias hereditárias o ticket pra o quarto mundo já está carimbado, o que não é o cenário ideal.

a gravíssima situação não tem precedentes e talvez uma revolução seja necessária. chega de dar cada vez mais dinheiro pra quem não precisa. quando a peste passar, a hora será a de inverter essa ordem.

aqui no centro paulistano nunca o ar esteve tão puro e ontem até um sabiá pousou na minha varanda. há registros de invasões de animais silvestres nas ruas de grandes cidades. talvez tenhamos ido longe demais mesmo. que os sobreviventes da peste saibam aproveitar melhor a dádiva da vida.

por ora, cuida dos teus, lava as mãos e fica em casa.

quinze dias

fiz duas ótimas escolhas nos últimos anos. primeiro a de não ter mais carro e segundo a mudança domiciliar para o centro paulistano.

além da óbvia economia financeira (ipva, seguro, manutenção, combustível, desvalorização, etc), não ter automóvel faz com que eu use a cidade como um aldeão e vir pra esse pedaço da cidade me ajudou um bocado.

embora metrô na porta seja bem eficiente nos dias em que não somos abatidos por uma pandemia cuja crueldade os terraplanistas sentirão em suas próprias peles nas próximas duas semanas, o grande barato é andar à pé. caminhar, além de ser um exercício possível, permite que se veja as ruas ao meu redor com outros olhos.

lembro do meu escritor brasileiro preferido, cujas crônicas se passam do terminal luz até a estação presidente altino, sempre seguindo a linha do trem. são paulo operária e sem barrancos que abriga inúmeros botecos que recebem trabalhadores sedentos por uma dose antes de pegar o trem de volta pra casa.

no meio desse furdunço fica o mercado municipal da lapa que, ao contrário do da cantareira, conseguiu manter as características de um lugar que abastece a população. não é à toa que tem um terminal de ônibus – antigamente se chamava ponto final – na frente, além da onipresente estação de trem. ali se compra arroz, bom feijão a granel, miúdos – que já foi comida de pobre -, queijos e aquela azeitona ideal para tirar o gosto da cachaça. quando voltarmos a ser gente, visite esse patrimônio imaterial paulistano. mas vá na moral, sem pagar de foodie, pois esse tipo de comportamento não é bem vindo na lapa antiga.

foi com esse olhar que vi a carreata de rycos pedindo para trabalhar, de dentro de seus carrões importados e trajando máscaras que não tem a menor ideia pra que servem. mais casa grande & senzala, impossível.

sabe o que falta pra cair a ficha da pandemia global nesse gado bobo? brasileiro rico começar a morrer em bando. ou você acha que na hora em que o médico precisar escolher quem vai viver ele optará pelo menino enzo, que nem tão jovem é mais? o colapso hospitalar ainda não chegou, mas está bem próximo.

fique em casa, lave as mãos, cuide dos seus.

quinta b

o que você aprendeu com a peste global que abate implacavelmente o planeta?

eu aprendi que já vivia num sistema parecido com quarentena há décadas e que o toque humano não me faz a menor falta. tendo um cachorro pra cuidar, tá bom. sinto muito por aqueles que se apegam a beijos e abraços, que voltem a se amar o quanto antes.

vi também gente legal se mostrar cada vez mais humana e lazarentos se tornando cada vez mais morféticos e que infelizmente a quantidade de pessoas que compõe o segundo grupo é abissal.

que o ex presidente em exercício deixou de ser um problema nosso para se tornar um genocida de ordem internacional. o correto nem é impeachment mais, agora é caso de destituí-lo do cargo e levá-lo direto à corte de haia, para responder por seus seríssimos crimes contra a humanidade. se o gado quiser, que o acompanhe.

nunca foi tão importante manter algo parecido com rotina pra se manter com a mente sã. eu acordo, venho pra frente do computador e atualizo esse blog. durante o dia tomo banhos demorados, passeio com meu cão, cozinho e também peço comida pra prestigiar o comércio local, portas que se viram pra se manter abertas através do serviço de delivery.

já que a ajuda do (des)governo é pífia, começam a pipocar ações pra ajudar bares e restaurantes, muitas delas com boa fé, mas tantas outras visam salvar negócios de herdeiros e milionários. mais dinheiro pra quem nunca precisou de dinheiro, numa cara de pau digna de cair o cu da bunda.

em casa tenho um arsenal de boas bebidas que é difícil de achar em qualquer bar comercial no mundo, mas tenho bebido muito pouco. beber pra mim é ato de prazer e contemplação e tô com dificuldade pra entrar no clima.

livros? séries? sem paz de espírito pra aproveitar. a pandemia trouxe sintomas de burrice que harmonizam com a eterna fadiga proporcionada pela esclerose múltipla.

a sensação de impotência diante de quem está cada vez mais na merda nas ruas é quase tão grande quanto os sentimentos pouco nobres nutridos por pessoas que capitalizam em cima de uma catástrofe dessa dimensão. aprendi que devo lidar melhor com isso, se for o caso de optar por seguir vivendo no meio disso que chamam de civilização.

a real é que a pandemia acaba, mas a raça humana fica, ou o que sobrar dela. a torcida é para que aprenda a lição e se torne pelo menos um pouco mais nobre.

fiquem em casa e salve-se quem puder.

sos bradescão

vivi pra ver gente vindo no meu boteco virtual pra defender banqueiros e bilionários com indisfarçável ar de superioridade. as alegações são, em sua imensa maioria, deprimentes. coisas do tipo brincaê de isolamento meu fio que gente séria de verdade precisa trabaiá. e o que dizer de falácias como a recessão vai matar mais que essa gripezinha?

a itália assim agiu há menos de um mês e olha a merda que deu. colheremos o fruto podre do pronunciamento irresponsável do ex presidente em exercício em 15 dias e só aí veremos o tamanho da catástrofe.

enquanto um estúpido gado faz buzinaço em balneário camboriú a santa casa da misericórdia colapsa e índios com tão óbvia baixíssima imunidade são ignorados como se nem gente fossem.

a economia já entrou em colapso e deve piorar. mas se reinventará após o caos, apesar da falta de ajuda do estado, igreja e bilionários.

não caia na lorota de grandes empresários que fazem o papel de terroristas, ao alegarem que pobre perderá emprego, etc. a corda sempre arrebenta do lado mais fraco e quem é fudido se foderá ainda mais de qualquer jeito. e também já passou da hora de regulamentar imposto sobre grandes fortunas, conforme previsto na constituição de 1988. a hora é a de olhar com atenção o comportamento dos membros da câmara federal, afim de separar quem está comprometido com o povo dos pau-mandado de sempre. e vote direito nas próximas eleições, plmdds.

agora, o que fazemos com pastores evangélicos que insistem em manter seus cultos, colocando em risco a vida dos fieis, em nome de deus? os enforcamos em praça pública ou os prendemos? sou a favor da segunda opção. quem estimula que as pessoas saiam nas ruas deve ser preso por crime contra a humanidade, a começar pelo ocupante do palácio do planalto.

e você, nessa história? o que deve fazer?

cozinhe, prestigie o pequeno produtor, compre delivery, reaprenda a conviver em comunidade e, acima de tudo, fique em casa. os meninos do itaú não precisam da sua ajuda, eles não se importam com você.

amém?

entraremos numa crise econômica de ordem global sem precedentes. e morar num país de terceiro mundo descomandado por um mentecapto não ajuda em nada. até porque temos problemas mais importantes pra resolver antes. ou alguém quer dinheiro depois de morto?

o silêncio dos mais ricos é estarrecedor. até agora não tivemos manifestações relevantes de banqueiros, bilionários e igrejas.

sim, igrejas. poucos ganham mais dinheiro no brasil. se aproveitam da fé de gente inocente e são isentos de tributos, sendo que justo seria o extremo oposto. e não há hora melhor pra cobrar essa conta histórica.

a falta de vergonha na cara por parte dos governantes vem de longe, basta ver a expressiva bancada evangélica na câmara. não é de hoje que caminhamos para um estado teocrático. mas o atual ocupante do planalto capricha nas idéias erradas.

a solução pra crise não é mandar as pessoas pra rua tal como um gado suicida, mas sim sobretaxar fantasticamente as igrejas. mp taí pra isso. só ter um mínimo de bom senso.

mas o que o ocupante faz? libera cultos, como se fosse um serviço essencial. estimula mais uma vez aglomerações, contrariando o que profissionais do planeta inteiro recomendam. é como se, antes da chegada crise financeira, se buscasse por uma solução final. quanto menos gente, menos problema, assim parece pensar.

o que fazer, quando a merda tão estimulada pelo genocida em potencial chegar? empilhar os cadáveres na frente das igrejas?

sigamos fazendo barulho para não ocorrer uma catástrofe ainda maior. a anta está cada vez mais isolada. militares o criticam, governadores o desobedecem e o povo pede por sua saída de maneira cada vez menos tímida.

olha, ele é um criminoso ou um gênio de nível que foge à minha compreensão. fico com a primeira impressão, embora espere estar errado. mas, se não estiver, o meliante tem que ser deposto imediatamente e responder por todo mal que fez.

só não sei se o seu lugar é na cadeia ou no hospício.

alguém avisa ele?

comecei a história desse novo blog em 13/01/20, com a pretensiosa meta de atualiza-lo todo dia até o fim do ano, pra quem sabe reunir as crônicas num livro e publica-lo tal como um diário.

bom, atualizar diariamente ainda estou conseguindo, não sei até quando. já transformar em livro é outra batalha, também não sei se conseguirei.

um cronista vive das histórias que capta da rua, não do isolamento em seu apartamento. mas quem poderia imaginar que uma pandemia de ordem global trancaria a todos nós em casa? aliás, alguém poderia fazer o favor de avisar o presidente que a coisa é séria? se comparado a jair bolsonaro, donald trump se torna winston churchill.

tudo isso pra dizer que tá foda caçar inspiração pra escrever todo dia, mas ainda não desisti. infelizmente é inevitável que o assunto político às vezes venha à tona, especialmente quando quem trabalha com comida pisa na bola e me entrega numa bandeja pra eu chutar.

além do mais estamos diante de uma crise sem precedentes e é natural uma reação. se o cotidiano virou um inferno, é sobre ele que vou escrever. pra quem pede que eu foque as postagens apenas em comida, agradeço a sugestão e informo que a colocarei com o devido carinho lá na caixinha de opiniões alheias.

na medida do possível, tentarei resgatar da memória histórias como a publicada há dois dias e as transformarei em crônicas. a dificuldade pra essa tarefa é que ainda não cheguei naquela fase da vida em que esqueço do presente, mas lembro com detalhes do passado. a meia-idade não faz bem pra escritor nenhum.

também conheço boas histórias políticas que eventualmente podem pintar por aqui. lembrar o passado pra não repetir os mesmos erros no futuro, enquanto se lamenta o presente.

por fim, sei que o público é pouco, mas fiel. tô bem ligado que vem gente aqui todo dia e agradeço pela honra de proporcionar uma pequena pausa diária no meio dessa merda toda.

que nossa derrota seja gloriosa.

o pior burger do mundo

sou de um tempo em que se criticava uma comida ruim apenas por sua óbvia falta de qualidade, não pelo posicionamento político do restaurador espertinho.

o problema é que o círculo sempre se fecha, taí o bostão do padeiro francês pra confirmar minha tese.

funciona assim, ó. quando o sujeito que tem uma churrascaria na beira da estrada coloca todo orgulhoso uma faixa na frente com alguma mensagem do tipo MELHOR COSTELA DO BRASIL é porque ele realmente acredita nisso, independente do ridículo da situação. assim como não se deve zoar a senhora nhoqueira do bixiga que serve massa cozidíssima com molho super ácido. deixa a velha. e o que dizer do mano do x-tudão do trailer da praça no interior paulista? sanduíches do tamanho do apetite do adolescente por um preço que ele pode pagar. todos esses negócios tem algo em comum: honestidade intelectual. o que, pra ser bem justo, não é elogio, mas sim obrigação de todos nós.

agora, quando um milionário cria uma rede de fast food com embalagem de casual diner, bolando um slogan no qual se apresenta como melhor do mundo, há de se desconfiar da boa fé da operação, especialmente se notarmos toda estrutura envolvida no negócio e os valores cobrados.

muitos me perguntam o que é gourmetização. pois é exatamente isso. se aproveitar da falta de parâmetro de um determinado segmento de público embalando produtos muito abaixo do medíocre de maneira supostamente sedutora, para assim justificar o altíssimo preço cobrado. sim, preço, não valor. porque isso não tem valor algum.

ontem o comandante dessa joça defecou pela boca, dizendo que a vida de 5 ou 7 mil pessoas não importa, diante da crise financeira que vem aí. insinuou ser contra o isolamento que o planeta inteiro tem feito, tem que ir trabalhar e pronto.

nem considerarei tal declaração como fruto de raciocínio de matemática de guerra porque ela é muito estúpida pra isso. se seguirmos a orientação desse senhor, em muito breve estaremos todos doentes, o que pode ser pior que a indigestão causada por um hambúrguer. até porque o sanduíche em questão ainda temos a opção de não comer.

mas nem que acabar o mundo ele servirá o melhor hambúrguer do mundo.

fique em casa, cozinhe, ajude o comércio local. e, quando as coisas voltarem ao normal, não vá ao madero. nem pela comida, muito menos pela figura asquerosa do dono.

bel e melissa

qual é a sua maior inspiração de trabalho?

tem que apertar o passo, júlio. assim dizia isabel andrade, sempre apressada, caminhando comigo na rua passos da pátria, no trajeto que ia do colégio luiza lopes de oliveira até a casa dela, na paulo franco, vila hamburguesa. eu, embora morasse antes, na lauro müller, a acompanhava e voltava 2 quadras. ela gostava de ser chamada de bel, coisa que não fazia. me dava bronca, dizendo que eu parecia seu pai, ao falar seu nome e sobrenome. o que poderia fazer se já nasci velho? ser agradável, sensível e educado, hoje sei a resposta.

assim que chegava em casa, pegava minha pastora alemã capa preta melissa e a levava pra passear. feliz o tempo em que se podia andar com um bicho daquele tamanho sem coleira, nem guia. na vila hamburguesa éramos todos toscos como os gauleses do gibi, porém muito educados. vizinhos e motoristas cumprimentavam a cadela como se fosse de casa.

ela ia direto pra casa da minha andréa, que a esperava na varanda. conversávamos sobre o colégio – curiosamente chamado de segundinho, para os íntimos – e as diferentes classes sociais entre os alunos que iam desde os abastados da city lapa até os favelados do ceasa, passando pelos moradores das vilas vizinhas que não conseguiam se matricular no sesi, nosso caso.

foi ela que me apresentou o apanhador no campo de centeio e ordenou que eu o lesse uma vez por ano, pois minha visão sobre o livro mudaria a cada leitura. a obedeci e sigo o exercício até hoje, lendo o mais fraco daquele que se tornou meu autor preferido.

alta e 4 anos mais velha, de vez em quando me ajudava a dar banho na melissa. ela segurava e eu ensaboava a bichinha. demorava cerca de dez minutos até a cadela escapar de nós dois e nos molhar por inteiro com a mangueira. divertidos fracassos desses fins de tardes inesquecíveis.

nunca nos tocamos. as derrotas amorosas da minha adolescência foram previsíveis, eu sempre era muito novo pra quem me interessava de fato. claro que ela se enamorou com alguém mais interessante e o afastamento foi natural, diminuindo assim a frequência de banhos conjuntos na cadela camarada. uma pena, já que formávamos um belo trio.

mas isso me deu tempo pra ler o livro pela primeira vez. terminada a leitura, fui até sua casa com melissa, pra agradecer a indicação. infelizmente soube por um vizinho que um acidente fatal de moto levou dessa pra melhor ela e o namorado. voltamos pra casa de farol baixo, eu e melissa, que também já morreu há um tempão.

jamais superarei a perda, mas é essa figura que me inspira a escrever. sempre imagino se gostaria disso ou aquilo, etc. e quando erro o tom, o que ocorre bastante, tenho pesadelos febris na madrugada com ela me dando broncas descomunais, coisa que nunca fez em vida.

o milênio virou e o mundo está pra mudar de novo, podendo até acabar, pelo menos como ele é hoje. aproveito a possibilidade de seu cancelamento pra agradecer publicamente a inspiração e pedir desculpas por uma ou outra pisada na bola. nem sempre me dou tão bem com as letras quanto a maneira como lidávamos com melissa. aquilo nunca mais vai acontecer.

feliz apocalipse a todos.

somos todos pilatos

a rua sem saída de uma das frentes do edifício coronga faz bem o papel de parque de diversões canino. existe toda uma rotina de horários e sabemos mais os nomes dos cachorros que dos próprios cuidadores.

bichos queridos que são imunes à peste que assola o planeta e também à estupidez de alguns humaninhos.

ontem encontrei lá farofa e seu disco voador, brinquedo que o bichinho gosta tanto de buscar e trazer de volta a quem o atirou, em troca de algum carinho. o conjunto zuêra + xamêgo representa quase tudo que o cão precisa.

mas dessa vez nem deu tempo de atirar o disco. ao me ver, ele já correu em minha direção, buscando um cafuné. normal, já que o mimo desde que ele era filhote. pra minha completa surpresa fomos interceptados pelo dono, homem de palidez vinho natureba, 30 e poucos anos e seu moderno óculos de armação alckmista.

– não faz carinho nele, não. é por causa desse negócio de corona vírus.

decretou o impropério sem levantar a voz, com indisfarçável tom de superioridade vegana quarentener de porte médio. embora a vontade fosse a de dar uma voadora no seu pescoço, respondi ao ignorante insulto com um sorriso, dei uma piscadinha pro farofa (é macho, ele) e segui o passeio com petisco, o pug hiperativo que é meu melhor amigo. que cada um cuide bem do seu e pronto.

essa pressão toda que a pandemia nos trouxe funciona como uma lente de aumento no ser humano. quem é legal torna-se mais consciente e o escroto coloca as manguinhas de fora. vivemos num país do terceiro mundo sem comando algum, a situação nos próximos dias deve se agravar e máscaras cairão, mostrando caras sem a menor vergonha.

a hora é de ter calma, ficar em casa e fazer o pôncio pilatos, lavando as mãos toda hora.

dias piores virão, mas depois melhora.

© 2020 Boteco do JB. All rights reserved.

Theme by Anders Norén.