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Boteco do JB

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Month: January 2021

os reis do iê iê iê

apesar das condições insalubres ficamos por mais de um ano naquela que ficou conhecida na família como a casa dos ratos. nem sempre a condição financeira acompanha o desejo de moradia decente.

mas acho que foi um pouco antes da copa de 86 que a banca de frangos e miúdos do meu pai caiu nas graças do povo osasquense, muito devido à escassez causada pelo plano cruzado. aconteceu que devido a uma pequena distribuidora que ele tinha acabado de abrir e batizar com o infame nome kiboi, mercadoria não era problema pra nós e ficamos quase ricos pela primeira vez. o dinheiro ganho permitiu upgrade pra subirmos da vila leopoldina até a vila hamburguesa, na rua lauro müller.

o número 192 onde morávamos era um combo de sobradão rosa com quintal de piso de caquinhos na frente e uma enorme garagem ao lado, onde minha pastora alemã melissa dividia espaço com o monza ratt 82 do vadinho, vizinho do 196 que mantinha simpática banca de bicho no bar do pinho, na rua paulo franco.

embora eu nunca mais tenha me divertido tanto em outra locação – a rua larga permitia peladas e jogos de taco todos dias e noites, já que ficava fora até as 22h, pelo menos – a questão dos bichos indesejados ainda não tinha sido resolvida por completo. a casa tinha baratas voadoras mais interessadas em espalhar o terror que em dançar iê iê iê.

como a presença não era assim tão constante e não queríamos sair da casa de jeito nenhum, procurávamos lidar com a situação nos revezando entre a família e a cadela pra matar as danadas. encarei a tarefa de boa, até a noite em que uma subiu por dentro da calça de moleton que eu trajava, o que fez com que me despisse e saísse gritando pela casa, pra aparente satisfação do meu pai, dada sua risada sádica. até ficamos mais uns anos no pedaço, mas fato é que desde então não tenho medo, mas sim pânico do inseto em questão.

muito tempo se passou, meus pais já se foram e moro há alguns meses num simpático apartamento em santa cecília com um cachorro de pequeno porte, meu companheirão.

herdei 37 plantas do morador anterior, as quais rego diariamente com bem pouca água, a maior parte delas vem respondendo a esse tratamento com positividade. os quadros ainda não pendurei na parede, o processo de pertencimento relativo a uma mudança residencial sempre foi lento e doloroso pra mim.

acho que foi mais ou menos após um mês de moradia que vi a primeira barata na cozinha. a reação foi ir pro quarto e torcer pra ela se resguardar no período diurno e de fato o plano deu certo.

acontece que ela passou a aparecer quase todas a noites e quando pintou com uma companheira de asas entendi que a situação precisaria ser resolvida, antes que a família se apossasse do imóvel.

contratei um exterminador de pragas e me mudei por um dia pra um bonito apartamento no edifício copan, aquele hotel nunca inaugurado, mas planejado por oscar niemeyer.

de volta no dia seguinte, descobri que a situação era mais perigosa que pensava, tamanha a quantidade de cadáveres.

hoje está tudo sob controle, a pressão para resolução desse problema fez com que me sentisse mais dono do pedaço. pretendo pendurar os quadros até os idos de março e já voltei a frequentar a cozinha. hoje meu almoço foi rigatoni alla gricia, precedido de bruschettas alla martinelli e finalizado com fatia do pudim perfeito da talitha.

será que é cedo demais pra arriscar um bacalhau no próximo domingo?

o bacalhau do tio waldir

nunca mais haverá uma casa térrea de paredes verdes como aquela em que morei com meus pais na rua teerã, parque da lapa, entre o fim dos anos 70 e o começo da década seguinte.

lugar de botijão de gás era na garagem, dado que o pequeno caminhão do velho era movido por esse combustível. mas claro que minha mãe tinha acesso ao estoque para sempre manter o fogão da família abastecido na linda cozinha de azulejos cor de rosa.

uma vez por mês o almoço tardio de domingo – família de feirante sempre almoça depois de todos – era bacalhau assado. na mesa da sala de jantar sem aparelho televisor eu, meus pais e um outro irmão da minha mãe nos esbaldávamos do peixe com pimentão, paio e batatas como se não houvesse amanhã.

poderia escrever um livro só com os ocorridos na casa que talvez morasse até hoje, se o dono não a requisitasse para sua família demolir e construir dois sobrados cafonérrimos em seu lugar. nós? nos mudamos para um pequeno sobrado caindo aos pedaços na rua sebastião bach, vila leopoldina, na frente da fábrica de violões da giannini e ao lado de uma casa térrea onde morava uma família que dizia ser de garça e parente do waldir peres, que nunca deu as caras no pedaço, talvez porque estivesse muito ocupado fazendo história no são paulo futebol clube.

a nova residência pertencia ao mesmo dono da morada anterior, um senhor português que prometeu mundos e fundos em planos de reforma pra compensar nossa saída repentina antes do fim de contrato de locação, como uma maneira de recompensação ao atendimento de seu pedido. claro que ele não cumpriu sua parte, e assim descobrimos que o fio de bigode do seo manuel não tinha o menor valor.

umidade, enchentes, ratos e baratas voadoras. assim se tornou a rotina dos nossos dias, a simples lembrança não me faz assim muito bem. mas tentávamos nos divertir, na medida do possível.

superado o susto da nova acomodação, minha mãe promoveu sua tradicional bacalhoada dominical, chamando pra se juntar a mim e meu pai, dois irmãos e a vizinha, que ficou de levar o tio waldir, esse que por sua vez provavelmente nunca nem soube do convite. décadas depois, quando o recebi na minha casa na república, fiquei sem graça de perguntar sobre o improvável parentesco.

enquanto os convidados reunidos matavam as cervejas da geladeira com uma sede afegã, minha mãe fritava no tacho e servia de mão em mão deliciosos pasteis feitos por dona yoko, talentosa senhorinha japonesa que tinha enorme banca na célebre feira dominical do jardim santo antônio, osasco, ao lado da feira do rolo, onde se podia comprar de toca-fitas a trezoitão.

o cair da noite era a deixa pra por a mesa coberta por bonita toalha colorida, daquele tipo que não existe mais.

quando estávamos sentados à mesa esperando pela chegada da minha mãe com a estrela principal do almoço ouvimos seu grito gutural da cozinha. claro que nos levantamos pra checar o ocorrido no cômodo vizinho.

lá estava ela encostada na parede do canto, pálida tal como um cadáver, de frente para o forno aberto com a assadeira à vista com uma enorme ratazana repousando sobre os restos do bacalhau. enquanto a vizinha de garça a acudiu meu pai habilmente limpou a área do crime e em seguida conseguiu convencer todos a ir no grupo sergio, único rodízio de pizza possível na história da humanidade. dividimos o grupo entre o del rey do meu tio e o caminhão a gás do meu pai. eu fui com o velho.

aquele caminhãozinho era o maior barato.

maionese à parte

burger pra mim é brincadeira de fim de semana que fazia com meu velho. tanto que demorei pra conhecer o mc donald’s e quando finalmente fui à loja da doze de outubro a decepção foi inevitável, a ponto de emendar o programa com um sanduíche que gostava na lanchonete localizada no primeiro andar das lojas americanas, logo ao lado.

a partir da pré-adolescência a conexão paterna ocorria mais no trabalho que em qualquer outro lugar e as velhas tardes dos burger de domingo já tinham se transformado em meras lembranças. os amigos também mudaram um pouco, passaram do mc para burgers fininhos de chapa e aí o bairrismo predominava, cada um com seu cada qual. pessoalmente fui adicto do saudoso toninho & freitas até o começo dos anos 80. jamais esquecerei o gosto do queijo vagabundo queimado proporcionado pela chapa imunda. mas comecei a desistir do pequeno balcão quando o chapeiro mayonese faleceu. embora alguns ainda hoje garantam que o burger foi feito a partir de seus restos mortais por anos a fio, pra mim não era a mesma coisa, especialmente quando se transferiram pra limpinha esquina da frente.

algum tempo se passou e o cenário burgeiro se transformou um bocado, com discos altos que lembram, olha só, os que eu fazia com meu pai na infância, só que com bom queijo, etc.

mesmo assim amigos próximos ainda tem como seu burger preferido certa lanchonete com matriz na faria lima e filial em vinhedo, além de uma rede homônima que nem é tão boa, mas tá limpo. os sanduíches até que são bem montadinhos, especialmente se você desconsiderar que deveria se tratar de um burger.

um homem não deve esquecer de suas derrotas e não escondo de ninguém que morei por cinco tristes anos próximo à rua dos pinheiros, pré coxipsterização do pedaço.

os domingos à noite eram um tanto caídos e eu ia na unidade burgeira próxima à pedroso de moraes. ficava ali no canto do balcão entre a chapa e o banheiro, vendo os gols da rodada na tv 20 polegadas, enquanto mandava cheese salada com uma longui néti qualquer. pra derrota ser completa, só faltava a batatinha industrial que nunca pedia, porque pra tudo nessa vida tem um limite. e um dos caprichos do fracasso é te deixar com gostinho de quero mais no canto da boca suja com maionese cor de ranho.

a atual modinha de smash burgers mostra o homem como vítima de sua própria trajetória, que por sua vez pode passar a anos luz de algo parecido com evolução.

a coisa chegou ao cúmulo de termos lugares claramente inspirados no mc donalds. posso inclusive abusar de eufemismos pra falar mal de maneira peculiar: muito bom dentro do que se propõe é o meu preferido.

o milênio virou, muita coisa se passou e hoje moro em santa cecília, onde abriu um burguinho aqui na rua de cima, parecido com aquele pinheirense lá.

ainda não entrei, mas passo na frente com o cachorro pelo menos uma vez por dia. olho bem no fundo dos olhos do chapeiro, do único atendente e dos poucos clientes presentes. claro que também filmo o sanduíche, aparentemente a maionese está ok e precisam trocar o fornecedor de alface. a derrota burgeira cecilier em 2020 é contemplativa.

mas vai chegar o dia em que sentarei num dos 3 bancos em frente a chapa e encararei um cheese champignon direto do balde, vocês vão ver.

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