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Boteco do JB

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Month: October 2020

o regador azul

das 37 plantas, deve ter morrido 4 ou 5, acho eu. admito a incompetência em distinguir a diferença entre vida e morte nesse universo, mas sigo as regando religiosamente dia sim, dia não. imagino que mal não deva fazer, apesar de desconfiar que algumas delas morreram por excesso d’água. toda vida é única e merece atenção especial, mas sei que talvez elas tenham morrido pela absoluta falta de interesse provocada pelo meu nocivo egoísmo. gosto de imaginar que as sobreviventes estejam transando a natureza morta tal como se testemunhassem um estranho velório. o que me remete a madrugada de 27 de julho de 1997, quando uma boa alma familiar acendeu incensos pra mascarar o cheiro que exalava do cadáver daquele que um dia foi meu saudoso pai, no velório celebrado no cemitério da lapa, onde minha bondosa mãe também foi enterrada tantos anos depois. essas e outras lembranças me assombram enquanto rego as plantas vivas e mortas, dia sim, dia não.

após usar por um mês uma jarra de suco que tinha aqui no apartamento finalmente comprei bonito regador azul por 19,90, numa loja na alameda barros que vende produtos para plantas e cães. enciumado por não ter ganho nenhum biscoitinho, o pug petisco fez um buraco bem na ponta do objeto, o que faz com que saia água por mais lugares que o esperado durante a tarefa que acaba por molhar paredes, taco e móveis ao redor do alvo pretendido. é muito buraco pra pouca planta. entendo o lado canino e desde então não deixo mais faltar quitutes para o pequeno que inclusive se recupera de uma lamentável dermatite que a princípio pensei ter sido causada por alguma das verdes, mas os exames apontaram para outros caminhos.

é natural que o apartamento antigo peça por um outro reparo, ainda mais quando invadido por esse intruso que vos escreve. a real é que o lugar ainda não é meu, tem tempo pra tudo.

mas o tempo do portador de esclerose múltipla é outro. além de algumas lâmpadas que precisam ser trocadas, um pequeno ajuste no simpático fogão que também já tava aqui – o meu, que mais parecia uma nave espacial, foi doado a uma senhora que ficou muito feliz da vida – e mais pitoresca questão torneiral a ser resolvida, ainda não tirei os quadros do plástico bolha. todo santo dia olho pra eles e imagino os seus lugares nos cantos das paredes. sinto que só quando os pendurar me sentirei como legítimo morador desse belo apartamento em santa cecília.

bairro esse que por sua vez me comove feito o diabo. dos poucos lugares na cidade que cultivam hábitos de vila, mas ao mesmo tempo pertence ao grande centro. tenho o melhor dos dois lados ao alcance dos meus cansados pés que aos poucos voltam a pisar firme, após duas recentes quedas que se foram obviamente lamentáveis por um lado, por outro me proporcionaram conhecer pessoas deveras decentes na santa casa da misericórdia, que fica entre a morada atual e a antiga, na vizinha vila buarque. saber que estou ao lado do hospital público que tão bem me acolheu quando tanto precisava me causa um bem estar danado.

embora meus últimos trabalhos físicos tenham rendido bons frutos a saída deles não foi nenhum pouco satisfatória para o lado mais fraco – eu, no caso – e no momento tento tocar alguns projetos internéticos. a ideia de ganhar algum gerando conteúdo não é nova e, se não der certo, tenho prontinho na cuca o plano da porta de frango frito. o sangue do comércio ainda pulsa nas minhas veias e não seria problema retornar para as ruas. voltar a trabalhar pros outros, só se me identificar de maneira monstra com a probosta do suposto empregador.

por enquanto, vou trabalhando aqui de casa. uia! já tô até chamando de casa! que bom, que alívio. salve, salve o ato falho de cada dia.

acho que semana que vem pendurarei alguns quadros. tenho a impressão de que eles não se incomodarão, muito pelo contrário.

comida de verdade

claro que todos queremos comida de boa procedência e que não seja ultraprocessada. quem se opõe a isso é ignorante ou tem algum interesse envolvido, o que é muito pior.

mas infelizmente ninguém está mais interessado no cenário que a indústria alimentícia. pra entender a trajetória da evolução dos hábitos alimentares basta seguir o caminho do dinheiro.

tem que parar com essa história de que comida saudável no brasil é privilégio de poucos.

se procurar por um mero potinho de iogurte em qualquer gôndola de supermercado se prepare pra um trilhão de informações sobre lactoses e porcentagens que passam a milhas de distância do produto básico que você queria, mas dificilmente estará à disposição. quer dizer, no mínimo te dará um trampo pra achar o danado. a indústria não facilita, apenas te cobra mais e mais e cada vez mais.

país de primeiro mundo é aquele no qual a boa mesa está ao alcance de todos, o que tá longe de ocorrer por essas bandas onde é tão difícil se informar.

e onde não há informação, há confusão.

quando a militância cirandeira fala em comida de verdade ela tá falando consigo mesma, não com o grosso da população, que se ouvir isso, vai rir, pedir licença e descongelar no micro-ondas aquela bandeja de lasanha da sadia que é o que tem pra hoje e inclusive o chef recomendou na televisão.

tal atitude me remete a quem ainda insiste na expressão cerveja de verdade, como se o mar de botequins espalhados nesse pobre país de dimensão continental tivesse acesso a isso. me dê minha brahma logo e me deixe em paz, assim responderá o trabalhador se um barbudo de coque lhe oferecer uma ipa.

enquanto não entendermos que comunicação não é o que se fala, mas sim o que se ouve, a indústria alimentícia seguirá cagando na cabeça de gente bem intencionada, porém ingênua.

e hoje, mais que nunca, não é hora de ser ingênuo. cuidado! há um genocida na porta principal!

então, na próxima vez que você pensar em apresentar algo legal a alguém, certifique-se antes se sua linguagem o aproximará ou o afastará dos bons hábitos. até porque, pior das hipóteses, ele pode ficar com raiva tanto de você quanto daquela bonita batata doce roxa que não tem nada a ver com isso.

porque a vida é aquilo que ocorre fora da ecobag exposta no ombro do militante de facebook naquela feirinha orgânica tão distante de barueri.

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