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Boteco do JB

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Month: November 2020

grupo tokyo

o diagnóstico que me colocou na condição de portador de esclerose múltipla fez com que reclamasse menos da vida e também que entendesse o porque de algumas coisas terem dado tão errado. saber onde começa minha limitação faz com que o instinto de autoproteção aumente de maneira considerável.

as antenas sempre estão ligadas para toda espécie de tratamento, o que não é sinônimo de paciência para os porras dos falsos samaritanos sommelliers do mal alheio, com suas infalíveis receitas de cbd e vitamina d.

mas, como se divertir é preciso, às vezes tento uns troços estranhos, mais pela zuêra que pela provável melhora em si.

o homem é doente e não há cura para si próprio.

o sintoma mais freqüente provocado pela doença que me abate é o da fadiga e isso somado à obesidade mórbida e ao fato de respirar pela boca às vezes me causa a sensação de ser uma bomba-relógio de preguiça prestes a explodir a qualquer momento, espalhando assim pílulas de naftalina psicodélica por todo infame elevado erguido pelo dr. paulo salim maluf.

daí que nos últimos meses as pernas começaram a falhar de maneira um tanto esquisita. sem dor, apenas uma dormência que aponta para hipotética desistência do único exercício que aprecio, a caminhada. não é sempre, os sintomas pintam meio que dia sim, dia não.

então nessa semana marquei uma consulta e quero dividir a experiência com vocês, já que a primeira sessão de acupuntura a gente nunca esquece.

ao chegar, recebi um pequeno questionário, com questões sobre dores, marca-passos e outros males que não me afligem. na hora bateu aquele sentimento de dúvida. será que deveria estar ali mesmo?

logo após entregar o papel, fui encaminhado a uma pequena sala com nome de cidade japonesa que tenho muita vontade em conhecer. lá uma senhora pergunta como está meu intestino e se sinto dor na coluna cervical. se antevisse sua cara de decepção, inventaria umas lorotas. mas tentei animá-la falando sobre a em, no que ela me olhou como eu fosse um et. por fim, contei sobre o fantástico caso das sonolentas pernas rebeldes. ela perguntou como estavam naquele exato momento e disse que a normalidade reinava absoluta enquanto batíamos o frustrante papo. respirou fundo, pediu pra me deitar na maca disposta no meio da sala tokyo e me informou que já voltava, ela.

voltou armada com generosa porção de agulhas e enquanto escutava o som ambiente com uma espécie de richard clayderman executando dire straits, ela espetou diferentes membros do meu corpo, tais como pés, pança, nunca, ouvidos e a cabeça que deve ter me deixado com aspecto de figurinista de hellraiser, o que não pude conferir pelo motivo de ter ficado sem graça em pedir um espelhinho.

sai de cena a senhora e entra na sala uma simpática massagista cujo toque deixava a impressão de que queria arrancar pra fora da galáxia meus braços e pernas. também pergunta sobre intestino e coluna, ela. após decepcioná-la com a resposta, pergunto se é normal a massagem doer. sua resposta é que shiatsu é pra doer mesmo, que tira as energias ruins do corpo, que hoje não é dia de massagem relaxante, etc. me resumi à óbvia insignificância, não abri com ela que achava que shiatsu era nome de raça de gato e suportei silenciosamente as duas horas seguintes. homem não chora, assim dizia meu saudoso pai.

sai de cena a massagista e entra na tokyo um senhor alto e bem humorado que se apresenta como quiroprata, enquanto clayderman se empolga no solo de piano de interessante versão de easy lover, sucesso oitentista de phil collins. me colocou em posições em que nunca estive antes e provocou estalos que não pensei que fossem possíveis, enquanto gargalhava em voz alta, o homem. admito que essa foi a melhor hora não só da sessão, como do dia. e se vivêssemos somente das melhores horas do dia? será que daríamos seu devido valor, sem a sonolenta curva vonneguttiana que guia nossos destinos?

todo espetáculo pede por um grande final e a roteirista do consultório sabe das coisas. a senhora volta e sussurra algo que entendi como vou buscar seu chá e já volto.

ora, bolas. se tem algo que aprecio é boa bebida e nessa hora me empolguei. sentei no banquinho na frente da maca e imaginei nossa heroína na frente de um pequeno caldeirão temperando água quente com ervas orgânicas e especiarias contrabandeadas.

10 minutos ela volta à sala tokyo sem nenhuma xícara à mão e pede pra eu me deitar novamente na maca. diz que agora é a hora de alinhar meus chacras. não basta não entender o que a outra parte diz, tenho que interpretar erroneamente. eu e minha incorrigível surdez de velha da praça é nossa.

com um objeto que não pude identificar em suas mãos, ela se movimentou ao meu redor de uma maneira que me remeteu a exótico curandeirismo, pelo menos foi essa a minha grosseira percepção.

tudo isso demorou um pouco mais de 3 horas. luzes acesas e a protagonista da história disse que não tenho nenhum problema físico, mas sim energético. ainda fiz papel de bandido de mim mesmo.

na saída passei por um guichê à esquerda e paguei o cachê a um senhor que falou domingo vai dar covas, como se fosse mestre bidu.

se me arrependi em ter ido? de maneira alguma. salve, salve as pequenas diversões que a vida nos proporciona. nessa semana inclusive devo procurar uma taróloga. desde que joguei cartas com plínio marcos, acho tarô o maior barato.

focaccia quentinha

acho que nunca conseguirei transferir o título de eleitor, embora a vila leopoldina da minha infância tenha deixado de existir fisicamente há décadas, para habitar apenas as memórias que levarei para o túmulo.

de maneira que sigo votando no sesi da rua carlos weber de 2 em 2 anos, sempre torcendo pela existência de segundo turno, pra vivenciar em dobro a experiência antropológica.

necessária a lembrança de que o sesi era um colégio público acessível apenas para quem tinha melhor condição financeira ou influência moral no pedaço, de maneira que as portas do colégio nunca se abriram pra mim.

a escola onde estudei não existe mais. tornou-se, veja só, um centro de treinamento militar ou algo que o valha. na eleição passada fiz questão de passar na frente, dessa vez não foi possível.

meu rolê ideal de votação inclui fazer baldeação do metrô para o trem e aportar na estação localizada na esquina da longa rua guaipá – onde meu pai teve uma fantástica fábrica de lingüiças – com a imponente avenida imperatriz leopoldina, verdadeiro ícone oitentista entre nós, os bucheiros da época.

infelizmente um surto de esclerose múltipla dificultou um bocado a locomoção, a ponto de abortar a parte da missão que se refere a condução pública. não ia rolar a caminhada sob a atual sensação de ter uma imensa pança sobre duas pernas de pau. privilegiado que sou, ainda bem que tinha verba para o taxi.

se há dois anos a impressão foi a de que a rua carlos weber moemizou, nessa semana constatei que nada pode ser tão ruim a ponto de não piorar. me senti dentro de jurerê internacional, só que sem a parte da praia. aliás, nunca respirei tão mal no pedaço.

o pipoqueiro acrescentou chips de batata ao repertório do carrinho, mas não havia interessados em nenhum de seus produtos.

a seção eleitoral tava tranqüila e ignorei silenciosamente cada olhada e sussurros debochados apontando para minhas vestimentas vermelhas, máscara inclusive. curioso que o bordado no meu boné apontava uma zoeira escrita o jeito é jango!, mas o modo de vida cotidiano se tornou o túmulo da ironia e não sou eu que vou explicar uma piada que ninguém quer escutar.

papel cumprido na festa da democracia, fui ao restaurante italiano que gosto, que embora não seja mais tão novo, sempre será jovem para minhas referências. comi lulas frescas com tomate picante, delicioso joelho de porco e o único mil folhas possível nessa grande farsa gastronômica chamada são paulo.

fui embora no fim de tarde esquecendo a bolsa preferida, que o dono do lugar – que também é meu amigo – teve a imensa gentileza de me devolver no dia seguinte, com a carinhosa companhia de uma focaccia quentinha. e embora saiba que tecnicamente o pão deve ser repousado antes de devorado, pães quentinhos me comovem feito um pobre diabo.

que a possibilidade do conforto da boa mesa nos dê energia pra enfrentar o 7 a 1 de cada dia.

sarna negra

ainda não me acostumei direito com as plantas. é como se o local onde moro a elas pertencesse. respeitoso e cerimonioso que sou, vou aos poucos com a relação, essa que por sua vez vai bem. baby steps, como diria aquela velha personagem de bill murray. inclusive uma das que estava pra morrer começa a dar sinais de ressurreição, tal como lázaro. será que minha principal tarefa na meia idade será estudar o delicado elo entre a vida e a morte de plantas de apartamento?

quando petisco começou a apresentar certo inchaço em volta de seu olho direito alguns veterinários me alertaram sobre a possibilidade dele ter reação alérgica a alguma planta. sem a menor base técnica, usei o instinto para mudar de posição o que achava que oferecia algum risco, mas o dog não melhorou. o que fez com que o levasse ao seu veterinário, lá no emblemático edifício copan.

pomada pro lixo, remédio paliativo pra dentro e exames realizados num laboratório perto do parque da água branca, onde o dog tocou o terror.

os resultados chegaram na semana passada, após um mês de espera. as suspeitas de alergia e dermatite foram prontamente descartadas.

a sarna negra exigirá cuidado especial com o bichinho até o fim de sua vida, tomando banho com shampoo especial e também uma ou duas drogas que, dependendo da evolução da doença, podem atingir seu fígado de maneira pouco agradável.

além do óbvio cuidado clínico, é preciso carinho e atenção, já que o ideal é que o paciente em questão não passe por situações de stress, para o sua imunidade não baixar. eu estou fazendo minha parte, creio que as plantas também trabalharão de maneira positiva e eficiente.

nesse fim de semana fui a fazenda de uma amiga que realiza um trabalho lindo vendendo ervas orgânicas, flores comestíveis e mais uma par de coisas, para visitar seus pais, pugo e puga. deborah, filha do lendário john orr, amiga e dona do negócio localizado na agradável cidade de cerquilho, foi quem me deu o animal.

outro amigo, grande cozinheiro japonês, foi companheiro nessa missão. profissional estudioso, fez sushi de wagyu com boa carne de uma fazenda vizinha, chashu com porco comprado no açougue da vizinhança e um esplêndido mexilhão cozido na gordura da mesma carne do bosque belo. acompanho o trampo de tadashi shiraishi há bastante tempo e digo com segurança que ele despontará como um dos grandes representantes da boa mesa nipônica no brasil. o único risco de dar ruim, é se ele deixar se afetar pelo famigerado cenário gastronômico brazileiro, mas sinto que dessa vez ele está no caminho certo.

após 2 anos, finalmente peguei o pedigree do cãozinho. pra minha surpresa, descobri que ele, embora tenha vindo de outro criador, é primo dos falecidos shoyu e negroni. e isso me comoveu feito o diabo.

shoyu, negroni, gillan e melissa. carrego comigo a lembrança de momentos passados com meus saudosos cachorros e arrisco dizer que isso foi o ponto alto da minha vida. cuidar de um cachorro é bem legal.

hoje é dia de finados e é inevitável que também me recorde dos meus pais, mas isso é assunto pra outra hora. o que quero pontuar aqui é que celebrar uma vida de ciclo fechado pode ser mais saudável que a inevitável lamentação da morte.

e também, é claro, festejar o que ainda se está vivo. falando nisso, agora peço licença para regar as plantas e em seguida passear com petisco. talvez iremos caminhar no elevado, que abriu novamente para pedestres ontem. será que vai virar parque ou vão botar pra baixo essa aberração? bem, atualmente a melhor maneira de aproveita-lo é em caminhadas, exercício esse que tolero e faz bem para as condições clínicas tanto minha quanto de petisco.

mais tarde celebrarei a semana internacional do jerez no novo endereço da cassia campos e daniela bravin, duas sommellièrs que fazem um trampo bacana na cidade não é de hoje.

será que jerez orna com sushi? acho que sim, apostaria nesse casamento. fiz a associação porque ontem foi dia internacional do sushi.

o ideal é que celebremos a boa mesa todos os dias, na medida em que nossos espíritos e bolsos puderem alcançar.

feliz dia de finados, camaradas.

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