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Boteco do JB

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Month: September 2020

lobo guará

passei boa parte dos anos 80 do último milênio em barracas de feira livre, onde vendia frangos e miúdos de boi. as famílias eram maiores e se abasteciam pra valer nas ruas. até banca com tudo quanto tipo de feijão tinha. carioquinha não tinha vez na rua e o tipo de batata era escolhido conforme a sazonalidade. se tem uma coisa que a feira respeitava era a época das coisa tudo.

fora da feira, carne se comprava no açougue, pão na padaria e secos & molhados na quitanda. mercados municipais? existiam pra abastecer a população, num universo muito distante do atual cenário tão parecido com praças de alimentação. aliás, shopping era artigo raro. roupa se comprava na rua do arouche, doze de outubro, voluntários da pátria, teodoro sampaio, dependendo da região onde se morava.

cinema era na rua. no centro (que não era dividido como novo e velho, mas chamado pelos lapeanos de cidade), na região da paulista ou mesmo em pequenas salas espalhadas pelos bairros.

cada um com seu cada qual e tinha pra todo mundo.

aí começou a abrir as grandes redes de supermercado, uma atrás da outra. e o eixo do planeta entortou quando eles passaram a oferecer produtos dos pequenos comerciantes em bandejinhas assépticas do tamanho das novas famílias.

num piscar de olhos o cidadão médio passou a comprar pães, carnes, hortifruti, produtos de limpeza e muito mais no mesmo lugar. jogo de cama? televisão? algo ainda mais fora da curva cotidiana? o supermercado também tem. inclusive te obriga a entrar na loja pelo showroom de bugigangas que você nem imaginava comprar, tais como a máquina de espresso com cápsulas ou uma torradeira. tudo isso em 12 x sem juros. se seu cartão tiver estourado, abrem outro pra ti rapidamente, sem problemas. não precisa de dinheiro pra ser feliz, o que importa é o crédito. foda-se como vai pagar depois, o paraíso supérfluo tem seu preço. por que não levar também aquela churrasqueira moderna que você nunca aprenderá a usar, mas é a oferta do dia? tudo para seu mais completo conforto, aproveite que o carro tá próximo, numa boa vaga do estacionamento. na segunda-feira o terapeuta tenta te explicar a razão pela qual te causa tamanha excitação a proximidade entre automóvel e o portal do consumo.

enquanto isso, o pequeno comércio correu inutilmente atrás do prejuízo. as barracas de feira cederam aos cartões de crébito, abriram mão de suas especialidades para aumentar a grade de produtos oferecidos e até as tais bandejinhas tem lugar garantido no balcão. saudosas bancas de jornal tornaram-se vendedoras de tudo o quanto é tipo de treco, cinemas de rua migraram para outros segmentos comerciais e as panificadoras passaram a se comportar como pequenos graals urbanos, onde se acha quase tudo, menos a porra do bom pão.

com bares e restaurantes, a corrida foi outra. não precisou de hipermercado, a mera concorrência fez com que se a cena se destruísse sozinha, autoimplosão. o italiano médio deixou de cuidar do seu nhoque pra servir a itália inteira em uma página do cardápio. o autointitulado contemporâneo desfocou do produto final pra enfeitar as alegorias e adereços que poderiam justificar o saco de dinheiro cobrado se a comida fosse boa.

o cenário gastronômico passou por processo de parreirização. comida gostosa ganhou papel parecido com o do gol na copa de 94, mero detalhe. inclusive na maior parte dos endereços mais novos, tão arrogantes quanto ruins. aos jovens chefs, só interessa a sustentabilidade. pra que aprender a fazer pão, se pode comprar um moinho? e não precisa aprender a cozinhar cenoura, basta comprar no instituto feira livre ou naquele pequeno produtor que o sommellier gosta de chamar de seu. a bem afortunada juventude engajada compra e endossa tudo isso e muito mais. no final do jantar cirandeiro, um brinde com aquele vinho natural que estragou no navio coroa o jantar, numa cena tão parecida com os tapinhas nas costas dados pelos publicitários oitentistas. aliás, autorreferência e premiações nas quais o povo da área vota em si mesmo é outro fator em comum. com o diferencial que agora o instagramer que manja mais de trocadilhos que de comida abençoa o circo.

mas agora a quarentena zerou o jogo. temos na mão a oportunidade de fazer a coisa direito. até porque temos mais parâmetro e um vendaval de informações ao alcance da mão.

quem muito faz, nada faz direito. se atente aos pequenos lugares que começarão a pipocar pelas ruas, cada um com suas poucas especialidades.

os anos 80 não foram perfeitos e jamais voltarão. mas já passou da hora de voltarmos às nossas bases.

tenha olhos de garimpeiro, prestigie quem é bom de fato. mas cuidado com os xavecos! há um lobo guará na porta principal!

obituário ambulante

até agora são 4 livros publicados e tem pelo menos mais 2 a caminho. natural que a pandemia tenha atrasado todos nossos planos e convém esperar pelo momento mais adequado para seguir com eles.

costumo brincar dizendo que lançar livros não é mais que mera desculpinha pra visitar belo horizonte, cidade detentora de botecos que tanto prezo.

soube que alguns deles passam por um aperto danado. o mais justo é que lugares como o fabuloso bar do zezé, no barreiro de baixo, frequentado por esse que vos escreve desde 2004, sejam tombados como patrimônio imaterial da cidade. mas bem sabemos que políticos tem outras prioridades, de maneira que pouco nos resta além da torcida.

torcida essa que por vezes não basta. nessa semana mesmo um dos meus lugares preferidos na cidade anunciou nas redes sociais o fim de suas atividades.

localizada na boêmia santa tereza, a bitaca da leste só não fazia chover no seu minúsculo espaço de menos de 30 metros. tinha bom chopp próprio, curava queijos, produzia os próprios picles e lingüiças deliciosas, além de um torresmo que ficará na história.

uma discreta vitrola no canto esquerdo ao lado da porta com boa seleção de vinis ornava com as paradas tudo. optar por uma das poucas mesas externas também era boa pedida, convite ao ato de contemplação que só os bebedores mais clássicos compreendem.

embora o chef citado na minha postagem anterior deixe a entender nas suas mídias que é mais inteligente e trabalhador que a maior parte dos seus colegas, o mundo real nos mostra bastante gente talentosa e empreendedora com dificuldades que vão muito além da pandemia festiva comemorada nas férias no méxico.

além da bitaca da leste, senti muito também o fechamento do el cid, em copacabana, onde tive fins de noite memoráveis, comendo batata portuguesa e bebendo uísque. aliás, espero que façam bom proveito da garrafa que sempre mantinha por lá.

a real é que a falência deixou de ser estatística para ganhar nomes. de bares periféricos até os restaurantes mais luxuosos, muitos de nós sentimos pra cacete a perda de comércios próximos que não resistiram a essa crise sem precedentes.

mas a relação afetiva resiste e sobrevive nas nossas mentes e corações. lugares como a bitaca da leste, el cid e pasv jamais sairão da minha cabeça. se morte é esquecimento, esses e outros comércios devem seguir vivões e sempre lembrados na memória boêmia de todos bebuns de todas cidades.

que fique registrado aqui meus sinceros sentimentos a todas famílias que de alguma forma perderam com tantos fechamentos espalhados por todo país. torço pra que arrumem um jeito de dar a tal volta por cima, tão sabiamente celebrada por paulo vanzolini.

agora peço licença pra voltar ao livro que ainda não desisti de publicar nesse ano. a data certa de lançamento ainda não sei, mas já sei que a volta a belo horizonte será triste pra burro sem a bitaca da leste.

e imploro para que não me tirem o zezé, plmdds.

dia de festa

ainda não pendurei o restante dos quadros, mas sigo olhando pra eles todos dias. já o som valvulado está rodando, impressionante como o volume de boa música preenche e muda o ambiente do apartamento, no melhor sentido possível.

penso em realizar pequenos jantares pra bancar meu sustento, mas o atual quadro pandêmico faz com que não me sinta seguro pra esse tipo de ação.

como perdi meus trampos, pela primeira vez na vida considero a possibilidade de levar mais a sério a ideia de viver de criação de conteúdo. canal mais atualizado, infoproduto em vista, livro novo o mais breve possível na praça, etc.

tem qui tentá u dibri luciano! – assim dizia a patada atômica ao saudoso velho locutor do canal do esporte. como minha posição sempre foi no gol, é natural que me atrapalhe um tanto, mas o primeiro aluguel da nova moradia está pago. já o próximo não sei de onde tirarei o dinheiro. baby steps, ó eu citando personagem de bill murray de novo. é na tvs que tem uma figurinista que atende pelo nome de bel murray? adoro esse trocadilho.

e assim sobrevivo, entre trapaças e tropeços sofridos. falar em felicidade seria de um exagero monumental, além da falta de empatia, mas vou levando.

enquanto isso, do outro lado da cidade, quem esbanjou felicidade numa mídia social foi o aniversariante do dia, numa euforia virtual digna de todos os santos.

bom cozinheiro e dono de uma penca de restaurantes na mesma rua, rodolfo é tido como uma espécie de walter mancini do itaim bibi. a comida servida na nave mãe é meio pesadona, mas sua endinheirada clientela ama e quer mais. ao lado, bem sucedida casa de embutidos que prepara gostosa burrata e serve um curioso varal de presunto cru.

o meu preferido é o de frutos do mar, apesar do ambiente engomado que, verdade seja dita, é a cara do bairro. na frente, uma pizzaria, em torno abriu também espanhol, parrilla, hamburgueria e até um francês. em comum entre todos esses, desleixo com serviço de bebidas (vinho, cocktail, cerveja), reflexo de uma escola de restauração que não deveria existir mais. arrogância ou mera incompetência? não importa. na famiglia nino todos são felizes, da freguesia ao chef. inclusive percorrem boatos que jantares caríssimos foram celebrados naquele salão no auge da quarentena, o que espero de coração que seja mentira.

essa crise maldita provocou alguns fechamentos e, entre eles, um lugar muito querido onde rodolfo já trabalhou. aliás, o conheci lá, quando ele servia desde uma lagosta maravilhosa até o pior carbonara da cidade. enquanto a tappo trattoria foi pra laje do bistrô dos sócios originais, rodolfo se orgulha por ter comprado o antigo ponto. felicidade em empreender tanto na maior crise sanitária dos últimos 100 anos, na qual boa parte da população não se espanta com o horror normalizado. mais de 125000 pessoas morreram porque tinham que morrer, assim diria o presidente da república.

embora seja de se admirar a manutenção e ampliação do grupo restaurador, seria interessante saber como as centenas de cozinheiros e garçons se locomovem para os locais de trabalho, já que não há ambiente mais insalubre que uma condução lotada. será que as equipes compartilham do mesmo sentimento de felicidade do chef?

bem, aqui do meu lado, com muito cuidado, comecei a sair também. não sei porque me sinto na obrigação de reportar os ocorridos nessa tão insegura reabertura comercial. aos poucos pretendo contar no blog o que vejo, mas adianto que até agora constatei um cenário de desesperança que passa há léguas e léguas de distância do condado de todos os santos.

mas pelo menos tem alguém feliz, né?

feliz aniversário e muitos anos de vida, rodolfo de santis. 125000 vidas perdidas o saúdam.

força, guerreiro!

o vale da sombra da morte

encerrei o texto anterior mostrando certa preocupação com prováveis baixas verdes provocadas pelo meu pequeno cachorro. desde então recebo mensagens diárias me informando sobre plantas tóxicas que podem se vingar cruelmente das investidas caninas. a morte é uma via de mão dupla na relação entre cães e plantas.

até onde vale a pena manter uma relação tóxica? e se as partes envolvidas não tiverem consciência do mal que podem fazer uma a outra, apenas pelo inevitável movimento de seguir sua natureza?

até o momento desse escrito não tivemos acidentes fatais, embora eu tenha derrubado um vaso e petisco outro. tem também algo que lembra um pinheirinho com pouca inclinação ao cristianismo, já que aparentemente ele não mostra a mínima vontade de se apresentar vivão no natal.

rego as plantas em dias alternados e sempre levo um lero com o dog, o alertando sobre o perigo do vale da sombra da morte que a planta pode trazer, no que ele responde com lambidas e uma ou outra latida. que saiamos todos vivos dessa.

pendurei 3 ou 4 quadros. seguindo nesse ritmo, acabarei a função em 3 ou 4 meses. e nessa semana consegui instalar a net. em vez de escrever mais, dediquei tempo a assistir cobra kai, uma espécie de malhação com caratê que traz várias referências oitentistas toscas que adoro, com direito a muito rock farofa.

meu livro de receitas? o revisei e estou bem satisfeito com o caminho tomado. e decidi que ele terá mais um capítulo, explicando o porque do atraso, com mais receitas crônicas. nessa semana trabalharei nisso e as ilustrações feitas pelo amigo binho miranda – que fez o design dos meus 2 últimos sites, o rótulo da minha cerveja e a comunicação visual da página do canal no scarfacebook – estão lindas. só pelos desenhos, o livro já vale, garanto. de brinde, as receitas crônicas, sincera homenagem à saudosa amiga nina horta.

a mesa de trabalho está pronta e tenho em meus planos não largar esse blog que, veja só, já teve atualização diária num passado não tão distante.

que você e os seus estejam bem, pois eu estou tentando me virar.

beijos e até bem logo.

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