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Boteco do JB

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Month: December 2020

aos 50 chegarás?

pensamentos pouco nobres invadem minha cabeça a cada vez que me perguntam o que tirei de bom dessa pandemia. a real é que 2020 foi uma catástrofe e nos resta a impotente torcida de que 2021 não seja o desastre que vem se anunciando.

aparentemente uma camada mais rica da sociedade não parece se importar muito com com isso, dada a aglomeração vista em balneários de luxo espalhados no sul da bahia e também em outros paraísos tropicais, que são transformados em filiais de um inferno infeliz nessa época do ano. o negócio da playboyzada assintomática não é só deixar a doença para a modesta classe trabalhadora dos vilarejos sem a menor condição sanitária, mas também trazer a peste pras cidades mais urbanas, contagiando assim cozinheiras e motoristas. são os mercadores da morte da nova casa grande, fogo na senzala. se quiser conferir, tudo está ao alcance de um click no seu celular.

hoje completo 47 invernos e embora saiba que não envelheci tão bem quanto gostaria, meus problemas nunca pareceram tão pequenos.

tô cheio de bebida boa aqui em casa e já botei uma bela barriga de porco pra descongelar, com o propósito de fazer o último torresmo do ano.

meu cachorro tá lavando e logo vou buscá-lo. por razões de sarna negra, o bichinho tem que tomar um banho por semana, com um shampoo especial. espero que fique pronto antes da chuva que insiste em cair todo 31/12 desde antes do meu nascimento.

ainda não pendurei os quadros e nem todas plantas estão vivonas, mas espero que meu esforço seja suficiente para que tenham algo parecido com uma sobrevida, já que não tenho a menor ideia desde quando elas estão aqui.

a ideia inicial era a de oferecer pequenos jantares na nova residência, mas a pandemia fez com que esse plano fosse adiado. mas, como tenho bebidas espalhadas pelo apartamento inteiro, surgiu a necessidade de construir um singelo bar, o que farei, assim que possível.

fisicamente, ainda não desisti de abrir uma porta pra vender frango frito, tudo com os devidos e óbvios cuidados. plano de negócio feito, quem sabe em algum momento de 2021?

tenho 3 próximos livros bem encaminhados, mas não tenho ideia do lançamento de nenhum deles. enquanto isso, tento vender os 4 publicados, fracassos médios.

na verdade nada deu muito certo na vida. chego à meia idade com o pacote completo de problemas tais como diabetes e hipertensão com adicional de obesidade mórbida. esclerose múltipla acompanha. sobre as ocorrências financeiras desde que tive meu primeiro negócio, aos 13 anos, eu falo outra hora, quando estiver bem calmo e com bom humor.

mas não é isso que vai me derrubar. até porque a vida nas redes sociais vai quase bem e eventualmente paga alguma coisa via youtube e cursos, embora admita que ultimamente tem me faltado paciência com o amigo internauta.

então, meu amigo, minha amiga. talvez tenhamos uma meta em comum pro ano que se aproxima, a luta pela vida. de maneira que se você sobreviver a tudo isso, a grande dica pra 2021 é que não jogue essa oportunidade na lata de lixo. justifique sua existência, pelo menos para os seus.

seja a pessoa que seu cachorro acha que você é.

meu primo bruno

entre o fim dos anos 70 e começo da década seguinte do último século do milênio passado as noites de 24 de dezembro eram celebradas na casa da mãe dele, a tia zuleide, exímia cozinheira até hoje residente no agora velho sobrado erguido pelos nossos na vila ayrosa, osasco, logo depois da ponte dos remédios, um pouco antes da vila piauí, onde mora o jão do ratos.

seu aniversário era a desculpa oficial pra família se reunir. enquanto os mais velhos enchiam o caneco, os mais novos discutiam sobre o que interessa, esse tal de rock’n’roll. discussões acaloradas compensavam os presentes sem graça que ele ganhava, tais como shortinhos, meias e camisas. verdade seja dita, exatamente uma semana depois, as mesmas pessoas se reuniam na minha casa, com o pretexto de comemorar meu aniversário e ocorria o mesmíssimo constrangimento comigo. com a diferença que após a meia-noite eu ainda ouvia coisas do gênero ó, acabou! o ano acabou! seu aniversário foi no ano passado! hahahahaha! com uma entonação de voz usada tempos depois na final daquela copa lá por galvão bueno wines.

aliás, sobre futebol, não havia discussão, já que ele era tão são-paulino quanto eu e seu pai, o saudoso tio paulinho, falecido tragicamente no banheiro daquela mesma casa, com apenas 37 anos. é raro um homem durar na família, meu pai mesmo foi nessa após só 41 rápidos invernos.

saio do bar para entrar na história.

assim escreveria na minha lápide, se tivesse alcançado maior relevância. tema esse que não era discutido entre nós, primos capricornianos blindados pela inocência da certeza de que a hora do domínio do mundo logo viria, mera questão de tempo.

na real a noite inteira girava em torno dele tentando me convencer de que the beatles era maior que deep purple, o que eu ainda acho de um exagero descabido. mas, até onde me lembro, nunca saímos na mão.

pausa para momento de contemplação observando o ferrorama circular pela sala, enquanto esperávamos pelo corte do bolo feito com esmero e carinho pela confeiteira vizinha de muro, que também fazia o meu na semana seguinte. heróis da marvel costumavam estrelar a cobertura com tal brilho que dava até dó de cortar o bichinho.

pra molhar a güéla, guaraná fazia o papel da bebida mais chique do ano, já que o goró oficial bebido no cotidiano pós futebol de rua praticado na vila leopoldina sempre era tubaína, que também descia mó gostoso.

um pouco antes da meia-noite, íamos pra rua soltar balão, travessura impensável nos dias de hoje. e não estou falando que o ato é correto, mas apenas narrando a ocorrência.

quando o bastão do protagonismo da noite passava para o aniversariante do dia seguinte é que vinha a brochada geral. missa do galo pra cá, mesa com uma comida que deveria ter sido devorada às 21h pra lá e a predominância do sono na maior parte dos convidados. quem nasceu pra ser jc jamais terá a classe de george costanza, o cabeludo nunca dominou a arte de ter a manha de sair de cena no auge.

a reflexão de tanto tempo depois me faz admitir que, de fato, sir paul mccartney é ligeiramente mais hábil que roger glover, embora seja incapaz de segurar a linha de baixo de uma melodia de hard rock e também um romântico incorrigível.

mas quem não age com romantismo nessa época do ano não tem coração.

feliz aniversário, primo!

tem alguém aí ainda?

meu maior temor é que sintamos falta de 2020 nessa mesma época no próximo ano.

porque esse bateu muitos recordes de tristeza, especialmente se você morar no brasil. sempre lembrando que quanto mais frágil sua condição financeira, pior se está.

do meu lado sei que sou privilegiado e sigo atento ao meu estado de risco.

profissionalmente livros não foram lançados e mídias seguem não sendo atualizadas como o planejado, a começar por essa mesma, que era pra ser retrato de um diário anual, mas falhou miseravelmente.

afinal, quem é que vai se interessar por um fútil diário gastronômico com centenas de milhares de cadáveres bem embaixo do nosso nariz?

bem, pro ano que vem pretendo lançar uma newsletter semanal escrevendo apenas sobre gastronomia etílica, que é o que a maioria das pessoas que acompanham meu trabalho esperam de mim.

não tenho muito mais a oferecer que uma singela dose anestésica no meio desse oceano de terror que nos atormenta.

embora há gente mais culta e competente que eu pra escrever sobre a atual conjuntura política, me perdoem se de vez em quando descer do salto. se indignar é da natureza humana.

não sei se terei forças para a tal newsletter etílico gastronômica, mas a ideia é a de NÃO abandonar esse largado balcão virtual pelo qual tenho tanto apreço, mesmo que inicie o novo projeto.

inclusive espero publicar por aqui pelo menos mais duas vezes nesse ano. essa postagem existe apenas pra dar uma satisfação etc e tal.

alguém aí anda lê blog?

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