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Boteco do JB

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Month: August 2020

37

minha casa tinha duas varandas, de onde se avistava desde edifícios históricos até a praça da república, embora o cep entregasse que o logradouro se localizava na vila buarque.

os cinco anos morados renderam livros, festas e até um eficiente bar no quarto, onde podia beber a apenas dois passos da minha cama.

a atual crise e certa intolerância anunciaram a necessidade de me deslocar no meio da quarentena provocada pela pandemia, o que causou preocupação, já que faço parte do grupo de risco pois, entre outras coisas, sou obeso e sofro de doença degenerativa.

após muito garimpo e bem vinda generosidade de uma boa alma, me mudei para santa cecília, bairro vizinho.

como o apartamento é um pouco menor e já tinha mobília, doei quase todos meus móveis. o que foi bem bom, poucas coisas me deixam mais leve que o desapego.

embora aqui não tenha varanda, o sol da manhã bate direto na minha cama, o que faz especialmente bem pra esse portador de esclerose múltipla que vos escreve.

ou melhor, até tem uma pequena varanda, habitada por plantas. acabei de aguar essas e outras. aproveitei pra contar, no total são 37 vasos pequenos, médios e grandes. não sei o nome de nenhuma delas.

nos anos 80, quando morava na rua lauro müller, vila hamburguesa, subdistrito lapeano, cheguei a ter experiência de aproximadamente 3 anos com uma samambaia, que era regada 3 vezes por semana até o dia que, ao chegar do colégio, flagrei melissa, minha saudosa pastora alemã, com o resto da planta na boca. nunca mais cuidei de outra. agora tenho 37 plantas e um pug que as olha com cobiça destruidora, a primeira missão da mudança é administrar essa parada.

ao contrário da locação anterior, aqui estou cercado por luz e boa ventilação, o que faz um bem danado para alguém com a condição clínica que cito pela terceira vez nesse texto.

o bar no quarto já era, mas sei exatamente onde montar o novo e quando entrar algum dinheiro, assim o farei.

ainda não tenho internet, mas aprendi a usar o aparelho celular como roteador e, ainda mais importante, consegui lugar deveras agradável pra a mesa de trabalho. enquanto escrevo essas parcas linhas, atrás de mim o elevado do dr paulo grita. mais são paulo na veia, impossível.

os quadros ainda não pendurei, mas olho pra eles diariamente e fico imaginando as posições mais adequadas para as novas paredes.

trouxe também discos e som valvulado, que deve ser instalado por um amigo em algum momento nas próximas semanas.

já faz tempo que não tenho imóvel próprio e, como pode ver, tenho dificuldade em lidar com mudanças. tanto que deixei de dar a necessária atenção a esse sítio, que hoje é uma das minhas moradas preferidas.

baby steps <= assim dizia bill murray num excelente filme lançado em 1991. vamos aos poucos, digo eu. a meta de hoje é voltar a mexer na produção do livro que deveria ter sido lançado em junho, antes da pandemia adiar esse e tantos outros planos.

foi mal o sumiço, mas é um prazer estar de volta. nessa semana pelo menos mais um post terá, se forças ocultas não me impedirem.

agora preciso ir, pra tirar petisco do caminho da tentação vegana pela qual passa. não me perdoarei se for responsável por mais mortes verdes.

onze xavecos gastronômicos

a baianeira

café mocotó

corrutela

dalva e dito

dom

evvai

glouton

(não) komah

frittó

roberta sudbrack

tuju

assédio

começa já na hora da entrevista, quando o chefe faz questão absoluta de mostrar quem é que manda. se a ideia for um estágio, pior ainda. não tem direito a uniforme, nem algum pra condução. e ainda se ouve que está aprendendo sem pagar por isso, embora não exista metodologia alguma. passar por várias praças pra entender a operação? nem pensar. para o contratante, só interessa a mão de obra escrava. portanto, se você foi eleita pra trabalhar no quadradinho onde se desossa rabada, é por lá que ficará as próximas semanas. ou meses.

o ambiente também não é dos mais saudáveis, com os amigos do rei debochando de quem quer aprender e anseia por ter a recomendação do restaurante no currículo. lembra dos brucutus valentões ginasiais? pois bem. alguns deles trabalham nessas cozinhas e aqui venceram, por mais que em boa parte do mundo estejam em baixa. mas nessa cozinha profissional a civilização não tem vez.

sabe qual locação do restaurante que NÃO tem câmera filmando ambiente? vestiários, banheiros e às vezes câmaras frigoríficas. é num desses ambientes que costuma rolar o assédio sexual.

após, por necessidade, passar pano com sorrisinho amarelo ao ouvir piadinhas de péssimo gosto, é no cubículo privado que se é encurralada no dá ou desce.

o resultado da reação escolhida pode ser a fama de puta ou filha da puta. a única coisa certa é a humilhação vinda do verdadeiro pulha, acobertado e apoiado por sua infame quadrilha de criminosos.

se sentiu injustiçada e quer colocar a boca no trombone? infelizmente não é bem assim que funciona, se prepare pra ser condenada pelo deus mercado a passar o resto da sua vida profissional na escuridão, já que darth vader é influente, tem trânsito em todos segmentos – inclusive entre esquerdomachos – e ainda paga de salvador do planeta, pauta tão em voga nos últimos anos. assediamos nossa mão de obra escrava, mas usamos ingredientes orgânicos.

lembre-se que o assédio ocorreu no silêncio do canto escuro – gritar não adiantará nada – e que em local público ele é sussurrado nojentamente no pé do ouvido, de maneira que se não tem evidência alguma contra o coiso, ainda mais nesses tempos de treva bolsonarista, quando se pode culpabilizar a vítima com certa facilidade. e não tenha dúvida que quem se omite se divertirá adoidado com a situação trágica.

não existe nada de bom na pandemia pela qual estamos passando, mas fato é que o mundo, se não mudou por completo, está no mínimo meio virado. talvez tenhamos passado da hora de dar um basta nisso.

recentemente abri meu balcão virtual para denúncias dessa procedência e a resposta foi abaixo da esperada. natural que não se sintam à vontade comigo e tudo bem, quem tem que aparecer não sou eu.

no instagram a conta @basta.br foi criada pra te ouvir. e há mais canais de fácil acesso à disposição. avante, meninas!

dêem fim nesse pesadelo. quando uma aparecer, outras virão e poucos sobrarão.

o mercado de trabalho tal como era não existe mais e agora quem tem que ter medo são eles!

treva

qual primeiro bar ou restaurante que você vai após a reabertura?

meses e meses ouvindo variações da mesma pergunta, veio a reabertura e a real é que não estou com vontade de ir em lugar nenhum, por mais falta que tenho sentido dos balcões dos izakayas que tão bem me recebem.

caminhamos rapidamente pro horroroso número de cem mil mortos que na verdade já deixou de ser número pra se tornar nomes para muitos de nós.

um estádio do morumbi lotado de cadáveres e nem isso provocou a capacidade de indignação na bolsonarista mérdio.

finalmente nos igualamos aos estados unidos da america em alguma coisa. com eles, somos a mais recente vergonha do planeta.

voltando aos bares e restaurantes, existe todo um povo que ta se reinventando pra trabalhar a tal comida pra viagem da melhor maneira possível, já que se transforma em outro produto.

assim como há quem pense mais na comida, o que não falta é gente gastando os tubos em embalagens de gosto duvidoso, o que não deixa de ser reflexo do perfil do serviço mais tradicional do estabelecimento.

o resultado é que acaba-se pedindo comida dos mesmos 4 ou 5 lugares que já eram os preferidos, na medida em que o bolso permitir.

o tempo bicudo fez com que vários de nós voltássemos à cozinha, o que pode e deve ser um hábito saudável. o que não falta é informação nas tais redes sociais que podem te levar a lugares que vão bem além da invasão de pães bosta scarfacebookianos que insiste em permanecer na timeline.

toda vez que reclamar das tranqueiras que aparecem no seu feed, lembre-se de quem alimentou o monstro algoritmo.

e você? qual é o bar ou restaurante que mais sente falta?

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