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Boteco do JB

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meu primo bruno

entre o fim dos anos 70 e começo da década seguinte do último século do milênio passado as noites de 24 de dezembro eram celebradas na casa da mãe dele, a tia zuleide, exímia cozinheira até hoje residente no agora velho sobrado erguido pelos nossos na vila ayrosa, osasco, logo depois da ponte dos remédios, um pouco antes da vila piauí, onde mora o jão do ratos.

seu aniversário era a desculpa oficial pra família se reunir. enquanto os mais velhos enchiam o caneco, os mais novos discutiam sobre o que interessa, esse tal de rock’n’roll. discussões acaloradas compensavam os presentes sem graça que ele ganhava, tais como shortinhos, meias e camisas. verdade seja dita, exatamente uma semana depois, as mesmas pessoas se reuniam na minha casa, com o pretexto de comemorar meu aniversário e ocorria o mesmíssimo constrangimento comigo. com a diferença que após a meia-noite eu ainda ouvia coisas do gênero ó, acabou! o ano acabou! seu aniversário foi no ano passado! hahahahaha! com uma entonação de voz usada tempos depois na final daquela copa lá por galvão bueno wines.

aliás, sobre futebol, não havia discussão, já que ele era tão são-paulino quanto eu e seu pai, o saudoso tio paulinho, falecido tragicamente no banheiro daquela mesma casa, com apenas 37 anos. é raro um homem durar na família, meu pai mesmo foi nessa após só 41 rápidos invernos.

saio do bar para entrar na história.

assim escreveria na minha lápide, se tivesse alcançado maior relevância. tema esse que não era discutido entre nós, primos capricornianos blindados pela inocência da certeza de que a hora do domínio do mundo logo viria, mera questão de tempo.

na real a noite inteira girava em torno dele tentando me convencer de que the beatles era maior que deep purple, o que eu ainda acho de um exagero descabido. mas, até onde me lembro, nunca saímos na mão.

pausa para momento de contemplação observando o ferrorama circular pela sala, enquanto esperávamos pelo corte do bolo feito com esmero e carinho pela confeiteira vizinha de muro, que também fazia o meu na semana seguinte. heróis da marvel costumavam estrelar a cobertura com tal brilho que dava até dó de cortar o bichinho.

pra molhar a güéla, guaraná fazia o papel da bebida mais chique do ano, já que o goró oficial bebido no cotidiano pós futebol de rua praticado na vila leopoldina sempre era tubaína, que também descia mó gostoso.

um pouco antes da meia-noite, íamos pra rua soltar balão, travessura impensável nos dias de hoje. e não estou falando que o ato é correto, mas apenas narrando a ocorrência.

quando o bastão do protagonismo da noite passava para o aniversariante do dia seguinte é que vinha a brochada geral. missa do galo pra cá, mesa com uma comida que deveria ter sido devorada às 21h pra lá e a predominância do sono na maior parte dos convidados. quem nasceu pra ser jc jamais terá a classe de george costanza, o cabeludo nunca dominou a arte de ter a manha de sair de cena no auge.

a reflexão de tanto tempo depois me faz admitir que, de fato, sir paul mccartney é ligeiramente mais hábil que roger glover, embora seja incapaz de segurar a linha de baixo de uma melodia de hard rock e também um romântico incorrigível.

mas quem não age com romantismo nessa época do ano não tem coração.

feliz aniversário, primo!

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