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Boteco do JB

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jornaleiros

por que uma coluna dominical? explico. relação afetiva com aqueles jornais grossos de domingo que não existem mais. sempre serei um incorrigível gutenbergiano.

saibam os jovens de plantão que os jornais eram vendidos nas mesmas bancas que hoje são decoradas com refrigerantes e penduricalhos pouco interessantes.

também era possível comprar gibis, magazines e nas bancas da paulista tinha itens importados difíceis de encontrar nos bairros, de maneira que o garimpo dominical era programa certo dos pós-adolescentes da minha geração oitentista que migravam de seus bairros rumo à cidade.

muito tempo se passou e hoje essa memória vive apenas na cabeça de quem já se aproxima do meio século de existência. ou os ainda mais velhos.

importante não colocar a decadência do comercio em questão na conta da quarentena, já que o óbito ocorreu há mais de uma década.

mas não é novidade que a pandemia mudou o mundo e que, com o natural novo temor de lugares fechados, as ruas devem ser ocupadas.

de maneira que minha sugestão é a seguinte: e se transformarmos as bancas em dinâmicos bares e restaurantes, com boa e acessível comida de rua?

povo na rua comendo, bebendo, se divertindo e gastando pouco. é essa a ideia. se o prefeito precisar de uma curadoria, estou à disposição. esse é o tipo de desafio que adoraria encarar. de cara já prometo menos burgers e mais churrasquinhos, além da natural atenção à gastronomia saudável.

e não deixarei de vender jornais. porque enquanto houver um leitor, haverá publicações.

bom domingo, camaradas.

eskibon aperitivo

não gosto muito do termo guilty pleasure, por remeter ao catolicismo, religião que abomino.

mas não sejamos chatos pra caralho. então, me diga. qual o seu desejo gastronômico mais secreto? aquele que vem na cabeça enquanto você procura por cenouras rainbow no instituto feira livre e não conta nem pra sua própria sombra?

ok, entendo que seja mais justo começar por mim mesmo. felizmente me expor nunca foi problema, por mais caro que seja o preço a pagar por tal atitude.

a real é que sou adicto de eskibon desde a infância, o que deve cassar meu alvará pra falar mal da bacio di latte, da qual inclusive sou freguês do sorvete de pistache. claro que seguirei escrevendo o que bem entendo, independente da portaria de cancelamento do dia.

porque em gastronomia a única coisa que não se combate é a lembrança afetiva. se a pessoa prefere o pudim cheio de furinhos da avó a um perfeito não há o que discutir.

e eu ficava feliz pra dedéu quando sobrava algum pra comprar o eskibon da caixinha em vez do sem graça picolé de frutas. inclusive cheguei a vender sacolés pra molecada da vizinhança da vila leopoldina pra bancar o vício. meus olhos brilhavam tanto diante do objeto de desejo que o primeiro entreposto frigorífico do meu saudoso pai foi batizado por ele com o infame nome de kiboi.

não me lembro ao certo a data de aposentadoria da caixinha, mas fiquei bem emputecido quando ela foi trocada na calada da noite pela embalagem molenga. acho que a única substituição mais odiável foi quando o professor de educação física carlos alberto parreira sacou raí e colou em seu lugar mazinho, para ganhar a mais feia das copas. preferiria que perdêssemos bonito, o jogo deve ser jogado.

hoje moro próximo à praça da república e foi num mercadinho na nestor pestana que descobri a existência do eskibon aperitivo, 16 pequenos cubos de gordura hidrogenada armazenados numa caixinha de papelão que até lembra, mesmo que de longe, a clássica embalagem que fez minha cabeça nos idos dos anos 80.

por aqui a palhaçada começou quando o velho portuga começou a dividir o minúsculo espaço destinado ao eskibon com a versão do insuportavelmente doce chicabon aperitivo. claro que a estrela do refrigerador horizontal acabava antes, pro meu completo desgosto.

nessa semana houve outra ocorrência digna de nota. no lugar do duelo eskibon x chicabon, um juvenil magnum aperitivo ocupava o fundo do freezer, todo oferecido e coloridinho. não há limites para a humilhação e o poço nunca tem fim.

nem o sorvete de pistache posso mais, já que a sorveteria citada, em função da quarentena, no momento não aceita dinheiro e eu não tenho cartões de crébito.

gosto bastante de apenas uma sorveteria na cidade, mas aí já é outra divisão, não tem nada a ver com lembrança afetiva. até tentei pedir dia desses, mas deu pau no sistema, problema comum nos novos tempos. não insisti por não me sentir à vontade com esses aplicativos felasdaputa, sobre os quais já escrevi aqui nesse balcão virtual. inclusive, antes que me perguntem, apóio a iniciativa da paralisação de ontem e torço para que as justas reivindicações sejam atendidas. aliás, pediram foi é pouco. que venham mais protestos e que sejam efetivos.

agora, com vossa licença, me retiro pra chupar o dedo. é o que tem pra hoje.

blog de quinta

relembremos o propósito da existência desse blog. era pra ser o diário de um cronista gastronômico por um ano e viraria livro em 2021.

mas aí veio a pandemia e o mundo de todos nós mudou um bocado.

respeitando a quarentena, fiquei sem material para resenhar. tiraram a rua do cronista.

ainda vai ter livro, mas com outras características, já que o blog também mudou.

derrapando algumas vezes, verdade seja dita. embora comer seja um ato político e se posicionar contra o genocida que ocupa o palácio do planalto seja obrigação moral de toda pessoa com um pingo de caráter, óbvio que existe gente muito mais competente que eu escrevendo sobre o tema.

aplausos para elio gaspari.

o mesmo posso dizer sobre a pandemia. ouçam especialistas da área, não blogueiros e muito menos políticos.

aplausos para dráuzio varella.

problemas de saúde e financeiros – jânio da silva quadros diria forças terríveis – também dificultam um bocado a produção diária de textos. inclusive aproveito esse parágrafo pra anunciar que no momento procuro imóvel onde possa morar e vender uns troços numa porta pra rua, ou fazer pequenos jantares para até 8 pessoas, talvez até as 2 coisas. região do grande centro (aka a são paulo de joão antônio), barato, sem fiador. difícil, eu sei. mas é o que posso no momento. a boa notícia é que se estivesse abonado estaria na busca de algo bem parecido, sinal de que o caminho pode estar certo.

disco, o caminho certo!

assim dizia o slogan de um mercado na imperatriz leopoldina, na frente da garagem da cmtc. anexo ao comércio tinha uma lanchonete com porta pra rua onde me viciei em banana split, sobremesa com gosto de infância, pela qual tenho relação afetiva até hoje. claro que não existe mais o mercado, nem a garagem. viver é ver a cidade como você conhece morrer rapidão.

tem que dar certo!

implorava o desesperado slogan populista do primeiro presidente civil pós cruel ditadura que alguns insistem em recusar sua existência, para convocar o auxílio luxuoso das chamadas fiscais do sarney, que armadas com um broche sobre o vestido florido tentavam inutilmente impedir a remarcação dos preços tanto no disco quanto nos outros supermercados de todo país. claro que deu tudo errado.

inevitável que o momento de pausa traga lembranças e a alucinação belchioriana de suportar o dia a dia, tarefa cada vez mais difícil.

tudo isso pra dizer que, como quem me acompanha já deve ter percebido, não estou dando conta de atualizar o blog todo dia, não.

quando o processo tem problemas de execução, pode ser mais interessante mudá-lo que acabar com ele em definitivo. tirar o sofá da casa não adianta nada.

amar e mudar as coisas me interessa mais. belchior, de novo.

de maneira que anuncio novo método de atualização nesse blog. textos meus às quintas e domingos. eventualmente pode pintar postagens de amigos colaboradores e também breves ressurreições de blogs antigos. se sentir urgência em me manifestar de alguma maneira, acrescento de boa outros posts em outros dias. quaisquer mudanças, aviso por aqui. inclusive se tiverem sugestões de pauta, só deixar na caixa de comentários.

peço desculpas a quem veio à toa nesse balcão virtual nos 3 últimos dias, o que espero que não ocorra mais. trabalharei pra isso, por maior que seja a fadiga causada pela esclerose múltipla.

até quinta, camaradas!

5 coisas que não quero ver após a quarentena

  • restaurantes com xaveco sustentável

compra do pequeno produtor e utiliza ingredientes orgânicos? ótimo, mas não capitalize politicamente em cima disso. dá pra divulgar fornecedores de maneira elegante, discreta e sem palestra. as pessoas vão ao restaurante pra comer, não pra te ouvir. aliás, que tal servir comida gostosa? não é uma boa ideia?

  • alta gastronomia

não nos enganemos, o mercado de luxo sempre vai existir. mas mesmo que tivéssemos essa grana, convenhamos que a festa dos talheres de prata é mais brega que boa. chega de embalagem, foco no conteúdo. cozinhem, porra.

  • baixa gastronomia

chega desse tipo de rotulagem grosseira. um bolinho de boteco frito sob imersão pode ser tão difícil de acertar quanto qualquer ícone da famigerada alta gastronomia. cada um com seu cada qual. o que existe é comida boa e comida ruim.

  • fining dining

você quer ficar espremida num salão com mais 60 pessoas sob forte ar condicionado pra investir num jantar médio que provavelmente valerá menos que a grana gasta? eu, não. especialmente num cenário pós pandemia. mais falências virão e só sobreviverá quem for muito bom no que faz e souber se reinventar.

  • café palestrinha

o comensal médio não bebe café pela bebida em si, mas sim pelo hábito, do cafezinho com leite na casa da vó até o intervalo entre uma reunião e outra de trabalho. infelizmente a bebida ingerida é reflexo de colonização e trabalho escravo, além de ser um lixo. a boa notícia é que temos café, sim. a má é que não se muda um atraso de séculos de um dia pro outro. chefs midiáticos com contratos milionários com a grande indústria não ajudam em nada a melhorar o cenário, muito pelo contrário. fodem o brasil a troco de bom dinheiro no bolso. mas existe todo um cenário estabelecido de boas cafeterias que se multiplica pelo país. e ainda pagam de salvadores da pátria, esses canalhas! o serviço tá cada vez mais simples – como deve ser – e menos elitista. isso não é tendência, mas realidade. foco na xícara, baristas!

sem paixão

impressões sobre um desastroso jantar no restaurante de um chef mineiro que se tornou nacionalmente conhecido devido a um programa gastronômico na tv aberta. postagem publicada originalmente no meu site anterior, o edifício tristeza. um ex cozinheiro do lugar me disse anonimamente que vai nada menos que neston na farofa criticada no texto. espero sinceramente que o chef não tenha jogado tão baixo. tenho uma história muito pior que essa referente ao mesmo comércio, na qual uma cozinheira índia tem um tratamento tão escroto que chega a ser surreal. se ela topar, eu publico. mas, por enquanto, é só uma ideia. saudades, tainá marajoara!

crouton

a trilha sonora bosta & lounge já me chamou a atenção um bocado, logo na entrada do apertado salão com mesas pequenas e cadeiras desconfortáveis. mas, se a comida for boa, tá valendo, pensei comigo mesmo.

pois bem.

pra começar com o pé esquerdo, água são lourenço em garrafa de plástico geladíssima me foi servida. claro que não é esse o serviço que espero de um premiado restaurante com pretensão contemporânea. após analisar a pouco atraente carta de vinhos, pedi um tom collins. esse que, por sua vez, veio muito gasoso e com um rodelão de limão tahiti no copo. como a oferta de cervejas é desprezível, logo desisti do álcool.

o cardápio se divide em quatro seções: petiscos, entradas, principais e sobremesas. pedi um petisco, denominado como carpaccio cítrico, sem especificar direito o que vinha no prato. o mesmo veio com um pão mequetrefe, que mais parecia torradinha da bauducco. o garçom perguntou se gostei e respondi que não. saiu de cena fazendo fusquinha, deve estar acostumado a receber elogios.

como o curso do jantar não estava indo bem, além de desistir do álcool também pulei a parte da entrada e fui direto ao principal, optando por um item que considerei menos arriscado: leitoa com farofa, purê de inhame, compota de maçã e farofa.

pois bem.

leitoa completamente sem sal por cima de um purê que mais parecia uma mousseline sem gosto, maçã sem acidez alguma e uma farofa tosca, cuja procedência dos ingredientes que a compunha talvez seja melhor não saber.

pedi sobremesa, na vã esperança de que a mesma amenizasse a sensação de fracasso do jantar. santa inocência. massa crua, lemon curd massudo com infantis pedacinhos de bananada que não tinham a menor comunicação com o doce acobertado por merengue meia boca.

existe um interessante cenário de cafés especiais na cidade, mas o chefe léo paixão parece se importar mais com dinheiro que com produto de qualidade. no glouton o café é nespresso. dinheiro na mão, calcinha no chão.

a conta deu 200 aécios porque pisei no freio. não teve vinho, nem entrada, apenas um drink e óbvio que não pedi o café bosta. é possível gastar facilmente mais que o dobro disso pra comer mal. muito mal.

por fim, agradeço ao hotel mercure unidade lourdes por não deixar faltar água no frigobar do quarto onde estou hospedado, já que todas unidades foram mais que bem vindas, mas consumidas mesmo na catastrófica noite do jantar.

gol a gol

frequento estádios desde o começo dos anos 80, mais especificamente os jogos do são paulo futebol clube. acompanhei a escalada do time rumo ao auge de sua história, a inevitável queda e a surpreendente pior fase de todos os tempos.

quando tinha jogo no domingo no morumbi, o dia inteiro era dedicado a essa atividade. como meu pai tinha uma fábrica de lingüiças que atendia desde a linha especial do supermercado chique até os perueiros e ambulantes, eu sabia de cor o mapeamento de todas as barracas de sanduíche ao redor do estádio. se alguém estivesse interessado em saber quem fazia um bom trampo e quem era do 171 era só colar na minha pra passar de ano. eu sempre estava em uma das – boas – barracas comendo pernil e bebendo um troço. era o esquenta, que pra mim começava pouco depois do meio-dia.

a cerca de 50 minutos para o início do espetáculo era chegada a hora de entrar. podia ser na cativa ou na arquibancada, dependia do jogo e da companhia da tarde.

claro que preferia ficar na arquibancada. enquanto as torcidas organizadas faziam um furdunço atrás do gol, a mim importava mais o jogo, que sempre via do lado do campo onde o são paulo estivesse atacando, me movendo de um canto ao outro no intervalo. por muitos anos a alta qualidade da performance do time era tão certa quanto a marcação da batida de ringo starr, a maior parte das vezes acompanhada de gols e vitórias. e metade do estádio era nosso.

sim, metade. talvez os mais jovens não saibam, mas os anciões tem a obrigação moral de não esquecer de tempos mais civilizados, em que os jogos eram jogados em campo e a arquibancada era sinônimo de democracia.

após o jogo, a melhor mesa redonda ocorria entre os próprios torcedores nas mesmas barracas do esquenta. e mais à noite, já em casa, tínhamos paciência pra ver o vt do jogo numa emissora qualquer. poucos namoros e casamentos sobreviveram ao vício.

a cretinice do caralho começou quando tiraram nosso direito de beber cerveja bosta quente dentro do estádio. em vez de melhorarem o serviço lixão, proibiram a parada, embora os banheiros ainda exalem a bebida.

depois tiraram todas as barracas ao redor do estádio. era só legalizar e dar condições para os ambulantes que só queriam trabalhar. mas, pro político médio brasileiro, interessa mais tirar o sofá da sala que resolver o problema. sob a sombra das ruas paralelas em direção ao butantã agora há towners vendendo uns troços, mas a referência e o romantismo deixaram de existir. mais que isso, não há mais a comunhão entre torcedores.

claro que rolavam brigas, mas apenas pra quem procurasse. eu mesmo nunca me envolvi em nenhuma. elas continuam acontecendo, agora em avenidas e estações de metrô, mais uma coisa que o governo não resolveu.

governos estúpidos que tiraram toda a graça do programa, ao decretar arbitrariamente que os jogos devem ser de uma torcida só. culparam o espectador não sei de que e agora as torcidas organizadas saíram de trás do gol para ocupar o centro do campo, numa atitude pra lá de egoísta, já que elas se importam mais com elas mesmas que com o jogo. pra que ficar com a melhor visão, então?

jogo de uma torcida só, sem a barraca de pernil que gosto na frente do estádio, pra mim, não dá. deixei de acompanhar os campeonatos e é muito raro eu ir ao estádio. até porque a maior parte dos jogadores – de todos os times – não colaboram muito para o espetáculo, trocaram o amor pelo escudo do time pela nossa senhora do bom cifrão. crucifixo no peito, dinheiro na mão e calcinha no chão. não os chamarei de putas porque qualquer profissional da noite deve ser mais respeitada que neymar e companhia.

mas a principal novidade do futebol é a volta dos campeonatos em plena escalada ao pico da maior catástrofe sanitária da história do mundo num país com problemas gravíssimos de desigualdade social, colocando em risco direta e indiretamente a vida de centenas de pessoas. não pense no jogador milionário que tem condições de se tratar no hospital caro, e sim no gandula, nas famílias dos faxineiros, etc. é muito escrota essa política do circo sem vacina, nem pão.

mas, se o show deve continuar, apesar de tudo, permita-me uma sugestão. disputemos os campeonatos desse ano na clássica forma de gol a gol. só 2 homens em campo, sem mais ninguém. tem tudo pra ser divertido e quem sabe não pinta um novo éder aleixo? o melhor jogador em campo ganha o troféu patada atômica e um toca-fitas roadstar com equalizador tojo.

o perdedor apaga as luzes e tranca o estádio. pode deixar as chaves embaixo do tapete coberto de sangue.

o sono não passa

dediquei mais de um ano ao trabalho de produção do livro de hoje não passa, no qual troco cartas com o amigo eduardo goldenberg, grande boêmio tijucano e vascaíno nas horas vagas.

alguns dos meus melhores textos estão lá e edu mandou muito bem. além disso teve prefácio do mário bortolotto, apresentação do forasta, produção gráfica impecável, boas ilustrações, tudo muito certo.

não sei se foi pela aposta no tema tão fora de moda ou, mais provável, pela pouca popularidade dos autores envolvidos, mas fato é que o livro – lançado em 3 capitais – não decolou nas vendas.

mas, se pudesse voltar atrás, faria tudo de maneira absolutamente igual, tenho muito orgulho desse trampo e creio que o outro autor compartilha da mesma opinião. pra mim, o que importa sempre é o processo, e o de produção desse livro foi das coisas mais prazerosas que já fiz na vida.

inclusive penso na possibilidade de um segundo volume, até já falei com edu e ele foi simpático à ideia. creio que venderá menos ainda, mas não me importo com isso. o chão é o limite e da sarjeta não passa.

além de ser atropelado – ponto alto do livro – edu também aniversariou durante a troca de cartas. claro que fui prestigiá-lo, pois além de passar a data ao lado do amigo também caçaria assunto para a publicação.

sou noturno e jamais me adaptarei à boêmia matinal carioca, que abre a primeira cerveja gelada após o último copo de café preto, por volta das 10h. eis aí um hábito que me derruba, por mais que tente me encaixar aos costumes locais nas viagens em que sempre serei o estrangeiro.

o aniversário de 49 anos de eduardo braga goldenberg foi celebrado no histórico bar brasil, localizado nos escombros da mem de sá, naquele pedaço da lapa carioca com passado glorioso, presente detestável e futuro incerto.

importante ressaltar que o bar em questão manteve a dignidade e vale a visita. e a comemoração ocorreu em horário crepuscular, o que de quebra impossibilitou minha siesta, o que só aumentou o sono, já que estava bebendo desde cedo.

entrei, cumprimentei o amigo, me sentei numa mesa mais distante e dormi profundamente. lembro de por um momento ter usado o bebê de uma amiga como travesseiro e que ela o tirou do meu colo com a maior delicadeza possível.

acordei revigorado, mas a maior parte dos convidados já tinha ido embora. o que foi bom, sempre preferirei lugares com menos gente.

fato é que o bar brasil é um excelente bar para dormir, em especial nas mesas mais distantes do barulhento balcão, indico muito pra quando voltarmos a algo parecido com o que chamávamos de mundo.

acordei, escrevi esse texto e agora voltarei pra cama, pra tentar dormir mais um pouco, mal preguei o olho nessa madrugada. não sei como você está, mas meu sono vai de mal a pior.

reconhece a queda

na real dormir com classe na mesa de bar não é pra qualquer um. pois dividamos os dorminhocos em 3 categorias.

o primeiro é o amador, aquele bebe além de sua capacidade física, vomita no banheiro do bar todo em qualquer coisa que não se chame vaso, arruma briga, acusa a conta de estar errada e ainda tem a imensa cara de pau de pedir saideira. no meio de tudo isso, dá uma dormidinha, que tecnicamente pode ser chamada de breve desmaio.

o segundo é o profissional, classe a qual tenho autoestima suficiente pra falar que pertenço. sento no bar, bebo, como, durmo e volto a beber, sem dar trabalho pra ninguém. claro que pra chegar nesse nível passei pelas divisões inferiores, especialmente quando bem mais jovem. verdade seja dita, de vez em nunca ainda dou um trabalhinho pros amigos, mas essa ocorrência tornou-se rara. de qualquer forma, é preciso estar atento pra se manter na primeira divisão. o jogo só termina quando acaba.

a terceira categoria é sublime e pertence ao exército de um homem só, paulo vanzolini.

o conheci já no fim de sua vida no bar do alemão, velho reduto boêmio pertencente a outro craque, eduardo gudin.

no bar do alemão tinha roda de samba de respeito toda santa noite. era só chegar, pegar uma mesa no canto ou no mezanino e contemplar a boa música, enquanto se comia um canapé blumenau e se bebericava um copo de campari.

na roda, com sorte, aparecia o homem. seu lugar estava sempre reservado na simpática mesa redonda com bons músicos. natural que o alto nível do repertório subisse ainda mais.

mas o samba nem sempre é cantado. paulo vanzolini tirava sonecas incríveis durante a roda, sem perder a elegância. pra pouco tempo depois despertar e retomar a música, sem perder o tom. porque um homem de moral nunca fica no chão.

jamais haverá outro homem como paulo vanzolini.

mesa 30

do que você mais sente falta do velho mundo antigo que não voltará nunca mais?

já escrevi aqui que o que mais quero é voltar a frequentar balcões de sushi ya e izakaya, se de alguma maneira meu bolso permitir. até porque a distância entre os lugares deve aumentar e quem pagará por isso é o freguês, a corda sempre estoura no comensal.

mas nos últimos três textos dissertei um pouco sobre insônia, sonambulismo e gritaria na madrugada, o que me arremessou direto a uma lembrança ocorrida no final do milênio passado.

muito antes da chegada da lei seca eu já nutria simpatia pela causa da boêmia doméstica, onde o aldeão não sai de seu bairro para beber.

bar bom é bar perto.

natural que o processo de reconhecimento de território selecione os preferidos de cada um. como a juventude me proporcionava uma sede voraz, tinha um eleito para cada período, inclusive pra aquele campari esperto antes do meio-dia, se assim achasse conveniente. a maior parte desses lugares nem existe mais. se hoje escrevesse um guia de preferidos, provável que o livreto se assemelhasse a um melancólico obituário.

envelhecer é ver o mundo tal como se conhece esvair-se das próprias mãos, tal como aquele velho copo de cerveja quente no balcão do bar que ninguém mais quer. estamos todos destinados ao esquecimento.

mas as noites de sexta-feira eram especiais. capitaneados pelo santista gelson mendonça – a cuja memória dediquei edifício tristeza – a boêmia começava por volta das 20h e terminava só quando raiava o sol.

muito, muito álcool, com o onipresente whisky como gole condutor. pasteis de couve com gorgonzola bem alimentavam os vândalos, entre um amendoim e o jiló frito.

acho que era por volta das 3h que tinha a primeira sessão de 15 minutos de sono na mesa do bar, sem mover um músculo do rosto. todos na mesa respeitavam o ritual e quando acordava boa caipirinha já estava disposta na minha frente. tal ato se repetiria de hora em hora até o momento da inevitável despedida.

dormir na mesa de bar é sagrado e que saudade tenho daquele sono!

gritos na solidão

o que mais me interessa num livro meu é a obsessão pela produção do próprio, antes até dele começar a ser escrito. é como se me mudasse pra aquele mundo por uns tempos. depois o largo cafajestamente, nem o lendo mais. o importante é o processo. quando ele acaba, não tenho mais o que fazer, meu papel já foi cumprido. não à toa, quase sempre sou péssimo entrevistado, sempre com a cabeça no próximo projeto. ou na lua, se assim preferir.

isso posto, tenho a impressão de que já contei em algum deles a história de uma garota que foi embora daqui de casa no meio da noite, talvez tenha escrito em forma de carta no livro que publiquei com edu goldenberg, que tem alguns dos meus textos preferidos, embora tenha sido um estrondoso fracasso de vendas.

na real essa coisa delas irem embora no meio da noite já aconteceu mais de uma vez. é que, como disse nas duas postagens anteriores, tenho o péssimo hábito de gritar à noite.

não é por querer, não. nem pra fazer graça ou algo do tipo. se pudesse escolher, não faria isso. sei que já sou desagradável o suficiente e do quão é desnecessário esse bônus.

assustar as pessoas não é legal, não sou entusiasta dessa atividade desde o castelo mal assombrado do playcenter. monga? achava um saco. dizem que a versão paulistana era interpretada pela vó da sandy, nunca levei tal investigação a fundo, mas sempre tive curiosidade em checar. alguém pode perguntar pra ela?

JÚLIO! NÃO DÁ! É MUITA PAULEIRA DORMIR COM VOCÊ! EU VOU É EMBORA! – apenas um dos desabafos ouvidos por mim de ex-companheiras no decorrer dessas madrugadas ébrias e em alto volume.

e tudo bem. quem tem que se acostumar com a situação sou eu, jamais elas. chega de decepcionar as pessoas.

o grande companheiro da minha quarentena é um pug chamado petisco. fazemos concurso de ronco durante as madrugadas e ele não se incomoda com os gritos. às vezes me acompanha num ou outro arrastar de correntes pelo apartamento, outro hábito antigo e desprezível. cachorro chinês com paciência budista, o mano.

pra quando a quarentena passar, pelo menos essa rotina deve seguir. dias de quietude, noites de gritaria.

ou, parafraseando totalmente fora de contexto fausto fawcett, cachorrada doentia.

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