fbpx

Boteco do JB

Menu Close

Category: Sem categoria (page 1 of 20)

o chef gargalhada

meu nome é júlio bernardo e gasto quase todo meu dinheiro com comida, bebida e viagens. minha condição clínica – além da obesidade mórbida e dos previsíveis problemas de meia idade a vida me deu um adicional de esclerose múltipla – sugere que frequente lugares fresquinhos. o apartamento para o qual me mudei é super arejado e já perdi as contas de quantas vezes considerei me mudar pra gonçalves, no sul de minas gerais.

quando soube que um chef de cozinha comandava um bistrô dentro de sua própria pousada de alto padrão em monte verde me virei pra conferir a parada, apesar das tarifas parisienses. até porque, como cronista gastronômico, gosto de conferir desde o ótimo carrinho de cachorro quente do seo ângelo até o excelente tiramisù do fasano. a meta sempre é passar bem.

não foi problema resistir aos temíveis sargados de estrada durante a viagem de 3 horas, perante a possibilidade de comer algo preparado pelas mãos do chef assim que chegasse, o que ocorreu às 22h30 de um sábado. tarde para o menu degustação, eu sei. mas nem era essa a intenção, só esperava ser recebido com algo quentinho, mesmo que uma sopa ou talvez um sanduíche. até porque o chef sabia da hora da minha chegada e tanto salão quanto cozinha trabalhavam a todo vapor enquanto me dirigia à recepção.

mas não ofereceram nada de comer. pra beber, uma garrafa de champagne e café nespresso à vonts no quarto. aliás, o lugar é todo cercado por máquinas de cápsula. fui dormir com fome na confortável cama. dorme que passa, assim diria minha mãe. e ainda sonhei com um risole de calabresa com catupiry tirando onda da minha cara rindo com a voz do chef.

no dia seguinte pude ver a beleza do terreno da hospedagem, cheio de árvores altas coisa e tal. meu cachorro tocou o terror no galinheiro e o ar me rejuvenesceu uns bons dez anos. com o estômago roncando, fui tomar café.

ou melhor, o entorno em volta do horroroso café de quinta categoria servido. pães apenas ok – mas que o sorridente chef fez questão de frisar que eram de fermentação natural – frutas, razoáveis embutidos regionais e, justiça seja escrita, bons pães de queijo. como o melhor tempero é a fome, comi praticamente tudo disposto em minha frente. aproveitando que o simpático chef fazia o serviço de mesa, puxei papo dizendo que estava ansioso pra provar a sua comida no jantar. sempre sorrindo, respondeu que o bistrô funcionava apenas às sextas e sábados, que mais tarde serviria o chá das cinco e nada mais. insisti um pouco, argumentei que não precisaria ser menu degustação, que poderia ser algo simples etc. mas não teve acordo. regras são regras e existem para serem cumpridas, mesmo que não façam o menor sentido num lugar tão caro.

curioso conceito de hospitalidade, esse.

o chef feliz nunca mais veio à mesa e o serviço de chá era uma variação sobre o mesmo tema, com destaque para a péssima bebida em si. como já sabia que a noite seria escassa, guardei pães e frios para comer mais tarde com um vinho que tinha trazido na mala pra beber com a comida jamais vista.

segunda no café já tava me sentindo na casa de chá as mestiças e assim foi até o checkout realizado na terça-feira.

tenho 47 anos e essa foi a primeira vez que vi um hotel caríssimo não ter serviço de restauração. ressaltando ainda que o lugar é no meio do mato, não existe a opção de atravessar a rua e comer algo na rua.

claro que as reclamações em questão foram passadas para o chef, que em nenhum momento ofereceu algo para recompensar o desconforto. nem palavras gentis, muito pelo contrário. ficou a impressão de que se tem dinheiro na conta, já tá de bom tamanho.

de volta a são paulo, passei bem mal por dois dias. culpa da alimentação incompleta? isso não posso afirmar, mas que não foi prazeroso ficar de sábado à noite até a tarde de terça sem fazer ao menos uma refeição, isso não foi.

publico sobre gastronomia desde 2007 e meu maior prazer é dar dicas transantes. mas também tenho orgulho de livrar leitoras e leitores de roubadas como essa. que esse texto sirva pra isso.

se quem ri por último ri melhor, que o último a rir esteja comendo e bebendo bem longe dali, diante de um momento de felicidade. porque no provence cottage o único a sorrir é o chef, aquele que gargalha da cara do hóspede.

o altar

cagar é em casa, assim dizia minha mãe, que achava de uma falta de educação absoluta usar banheiros alheios para fazer o número 2.

mal sabia ela que anos depois me tornaria um cronista urbano e ir a banheiros de bares e restaurantes se tornaria parte do meu cotidiano. ainda acho que o estado do vaso sanitário de uma lanchonete pode dizer muito sobre sua cozinha.

mas que exercer a sacra atividade em casa é melhor, isso é. aqui tem o papel que eu gosto, posso deixar o som ligado numa altura apropriada com a trilha correta, etc.

por valorizar o ato contemplativo, evito ao máximo levar ao sanitário como companhia o onipresente aparelho telefônico móvel.

mas outras leituras são bem vindas, de maneira que sempre mantenho abastecido uma espécie de revistário improvisado ao lado do vaso.

as leituras devem ser leves e dinâmicas, já que meu banheiro não é lugar de literatura russa. não há tempo pra tanto e tem lugar pra tudo, cada um com seu cada qual.

por outro lado trabalhamos com cardápios de bares variados do mundo todo, literatura de bolso de grandes autores como mario bortolotto e lucas mayor e, por fim, alguns atestados de óbito, pro ocupante da vez sempre se lembrar de sua finitude. costumo dizer que a última falência do meu pai foi a múltipla dos órgãos e que a prova cabal disso está em frente a pia do banheiro.

acontece que tive uma situação kafiana, que embora aparentemente já tenha sido resolvida, ainda é muito recente pra mim.

e nada me tira da cabeça que reside um ser entre o cardápio do savoy american bar e o pedigree do shoyu, pug morto há 2 anos.

não tenho prova e nem evidência alguma disso, que tem tudo pra ser mera paranóia da minha cuca, mas fato é que não toco no móvel onde guardo os escritos desde a bem sucedida dedetização.

agora o ato é acompanhado de breve pânico, esperando que o pior ocorra, com direito a levar os pensamentos para a cama. noite dessas sonhei que ela tinha constituído família e que as pequenas brincavam entres os cardápios do tordesilhas e do bar do zezé.

tenho saído bem menos, devido a pandemia, de forma que terceirizar o vaso nem sempre é uma opção. mas, mesmo nas vezes que assim o faço, a imagem do revistário povoado sempre vem à mente.

então, como não tem como fugir das ideias que me atormentam, sigo usando o banheiro de casa na maior parte das vezes. afinal, como dizia minha mãe, cagar é em casa.

os reis do iê iê iê

apesar das condições insalubres ficamos por mais de um ano naquela que ficou conhecida na família como a casa dos ratos. nem sempre a condição financeira acompanha o desejo de moradia decente.

mas acho que foi um pouco antes da copa de 86 que a banca de frangos e miúdos do meu pai caiu nas graças do povo osasquense, muito devido à escassez causada pelo plano cruzado. aconteceu que devido a uma pequena distribuidora que ele tinha acabado de abrir e batizar com o infame nome kiboi, mercadoria não era problema pra nós e ficamos quase ricos pela primeira vez. o dinheiro ganho permitiu upgrade pra subirmos da vila leopoldina até a vila hamburguesa, na rua lauro müller.

o número 192 onde morávamos era um combo de sobradão rosa com quintal de piso de caquinhos na frente e uma enorme garagem ao lado, onde minha pastora alemã melissa dividia espaço com o monza ratt 82 do vadinho, vizinho do 196 que mantinha simpática banca de bicho no bar do pinho, na rua paulo franco.

embora eu nunca mais tenha me divertido tanto em outra locação – a rua larga permitia peladas e jogos de taco todos dias e noites, já que ficava fora até as 22h, pelo menos – a questão dos bichos indesejados ainda não tinha sido resolvida por completo. a casa tinha baratas voadoras mais interessadas em espalhar o terror que em dançar iê iê iê.

como a presença não era assim tão constante e não queríamos sair da casa de jeito nenhum, procurávamos lidar com a situação nos revezando entre a família e a cadela pra matar as danadas. encarei a tarefa de boa, até a noite em que uma subiu por dentro da calça de moleton que eu trajava, o que fez com que me despisse e saísse gritando pela casa, pra aparente satisfação do meu pai, dada sua risada sádica. até ficamos mais uns anos no pedaço, mas fato é que desde então não tenho medo, mas sim pânico do inseto em questão.

muito tempo se passou, meus pais já se foram e moro há alguns meses num simpático apartamento em santa cecília com um cachorro de pequeno porte, meu companheirão.

herdei 37 plantas do morador anterior, as quais rego diariamente com bem pouca água, a maior parte delas vem respondendo a esse tratamento com positividade. os quadros ainda não pendurei na parede, o processo de pertencimento relativo a uma mudança residencial sempre foi lento e doloroso pra mim.

acho que foi mais ou menos após um mês de moradia que vi a primeira barata na cozinha. a reação foi ir pro quarto e torcer pra ela se resguardar no período diurno e de fato o plano deu certo.

acontece que ela passou a aparecer quase todas a noites e quando pintou com uma companheira de asas entendi que a situação precisaria ser resolvida, antes que a família se apossasse do imóvel.

contratei um exterminador de pragas e me mudei por um dia pra um bonito apartamento no edifício copan, aquele hotel nunca inaugurado, mas planejado por oscar niemeyer.

de volta no dia seguinte, descobri que a situação era mais perigosa que pensava, tamanha a quantidade de cadáveres.

hoje está tudo sob controle, a pressão para resolução desse problema fez com que me sentisse mais dono do pedaço. pretendo pendurar os quadros até os idos de março e já voltei a frequentar a cozinha. hoje meu almoço foi rigatoni alla gricia, precedido de bruschettas alla martinelli e finalizado com fatia do pudim perfeito da talitha.

será que é cedo demais pra arriscar um bacalhau no próximo domingo?

o bacalhau do tio waldir

nunca mais haverá uma casa térrea de paredes verdes como aquela em que morei com meus pais na rua teerã, parque da lapa, entre o fim dos anos 70 e o começo da década seguinte.

lugar de botijão de gás era na garagem, dado que o pequeno caminhão do velho era movido por esse combustível. mas claro que minha mãe tinha acesso ao estoque para sempre manter o fogão da família abastecido na linda cozinha de azulejos cor de rosa.

uma vez por mês o almoço tardio de domingo – família de feirante sempre almoça depois de todos – era bacalhau assado. na mesa da sala de jantar sem aparelho televisor eu, meus pais e um outro irmão da minha mãe nos esbaldávamos do peixe com pimentão, paio e batatas como se não houvesse amanhã.

poderia escrever um livro só com os ocorridos na casa que talvez morasse até hoje, se o dono não a requisitasse para sua família demolir e construir dois sobrados cafonérrimos em seu lugar. nós? nos mudamos para um pequeno sobrado caindo aos pedaços na rua sebastião bach, vila leopoldina, na frente da fábrica de violões da giannini e ao lado de uma casa térrea onde morava uma família que dizia ser de garça e parente do waldir peres, que nunca deu as caras no pedaço, talvez porque estivesse muito ocupado fazendo história no são paulo futebol clube.

a nova residência pertencia ao mesmo dono da morada anterior, um senhor português que prometeu mundos e fundos em planos de reforma pra compensar nossa saída repentina antes do fim de contrato de locação, como uma maneira de recompensação ao atendimento de seu pedido. claro que ele não cumpriu sua parte, e assim descobrimos que o fio de bigode do seo manuel não tinha o menor valor.

umidade, enchentes, ratos e baratas voadoras. assim se tornou a rotina dos nossos dias, a simples lembrança não me faz assim muito bem. mas tentávamos nos divertir, na medida do possível.

superado o susto da nova acomodação, minha mãe promoveu sua tradicional bacalhoada dominical, chamando pra se juntar a mim e meu pai, dois irmãos e a vizinha, que ficou de levar o tio waldir, esse que por sua vez provavelmente nunca nem soube do convite. décadas depois, quando o recebi na minha casa na república, fiquei sem graça de perguntar sobre o improvável parentesco.

enquanto os convidados reunidos matavam as cervejas da geladeira com uma sede afegã, minha mãe fritava no tacho e servia de mão em mão deliciosos pasteis feitos por dona yoko, talentosa senhorinha japonesa que tinha enorme banca na célebre feira dominical do jardim santo antônio, osasco, ao lado da feira do rolo, onde se podia comprar de toca-fitas a trezoitão.

o cair da noite era a deixa pra por a mesa coberta por bonita toalha colorida, daquele tipo que não existe mais.

quando estávamos sentados à mesa esperando pela chegada da minha mãe com a estrela principal do almoço ouvimos seu grito gutural da cozinha. claro que nos levantamos pra checar o ocorrido no cômodo vizinho.

lá estava ela encostada na parede do canto, pálida tal como um cadáver, de frente para o forno aberto com a assadeira à vista com uma enorme ratazana repousando sobre os restos do bacalhau. enquanto a vizinha de garça a acudiu meu pai habilmente limpou a área do crime e em seguida conseguiu convencer todos a ir no grupo sergio, único rodízio de pizza possível na história da humanidade. dividimos o grupo entre o del rey do meu tio e o caminhão a gás do meu pai. eu fui com o velho.

aquele caminhãozinho era o maior barato.

maionese à parte

burger pra mim é brincadeira de fim de semana que fazia com meu velho. tanto que demorei pra conhecer o mc donald’s e quando finalmente fui à loja da doze de outubro a decepção foi inevitável, a ponto de emendar o programa com um sanduíche que gostava na lanchonete localizada no primeiro andar das lojas americanas, logo ao lado.

a partir da pré-adolescência a conexão paterna ocorria mais no trabalho que em qualquer outro lugar e as velhas tardes dos burger de domingo já tinham se transformado em meras lembranças. os amigos também mudaram um pouco, passaram do mc para burgers fininhos de chapa e aí o bairrismo predominava, cada um com seu cada qual. pessoalmente fui adicto do saudoso toninho & freitas até o começo dos anos 80. jamais esquecerei o gosto do queijo vagabundo queimado proporcionado pela chapa imunda. mas comecei a desistir do pequeno balcão quando o chapeiro mayonese faleceu. embora alguns ainda hoje garantam que o burger foi feito a partir de seus restos mortais por anos a fio, pra mim não era a mesma coisa, especialmente quando se transferiram pra limpinha esquina da frente.

algum tempo se passou e o cenário burgeiro se transformou um bocado, com discos altos que lembram, olha só, os que eu fazia com meu pai na infância, só que com bom queijo, etc.

mesmo assim amigos próximos ainda tem como seu burger preferido certa lanchonete com matriz na faria lima e filial em vinhedo, além de uma rede homônima que nem é tão boa, mas tá limpo. os sanduíches até que são bem montadinhos, especialmente se você desconsiderar que deveria se tratar de um burger.

um homem não deve esquecer de suas derrotas e não escondo de ninguém que morei por cinco tristes anos próximo à rua dos pinheiros, pré coxipsterização do pedaço.

os domingos à noite eram um tanto caídos e eu ia na unidade burgeira próxima à pedroso de moraes. ficava ali no canto do balcão entre a chapa e o banheiro, vendo os gols da rodada na tv 20 polegadas, enquanto mandava cheese salada com uma longui néti qualquer. pra derrota ser completa, só faltava a batatinha industrial que nunca pedia, porque pra tudo nessa vida tem um limite. e um dos caprichos do fracasso é te deixar com gostinho de quero mais no canto da boca suja com maionese cor de ranho.

a atual modinha de smash burgers mostra o homem como vítima de sua própria trajetória, que por sua vez pode passar a anos luz de algo parecido com evolução.

a coisa chegou ao cúmulo de termos lugares claramente inspirados no mc donalds. posso inclusive abusar de eufemismos pra falar mal de maneira peculiar: muito bom dentro do que se propõe é o meu preferido.

o milênio virou, muita coisa se passou e hoje moro em santa cecília, onde abriu um burguinho aqui na rua de cima, parecido com aquele pinheirense lá.

ainda não entrei, mas passo na frente com o cachorro pelo menos uma vez por dia. olho bem no fundo dos olhos do chapeiro, do único atendente e dos poucos clientes presentes. claro que também filmo o sanduíche, aparentemente a maionese está ok e precisam trocar o fornecedor de alface. a derrota burgeira cecilier em 2020 é contemplativa.

mas vai chegar o dia em que sentarei num dos 3 bancos em frente a chapa e encararei um cheese champignon direto do balde, vocês vão ver.

aos 50 chegarás?

pensamentos pouco nobres invadem minha cabeça a cada vez que me perguntam o que tirei de bom dessa pandemia. a real é que 2020 foi uma catástrofe e nos resta a impotente torcida de que 2021 não seja o desastre que vem se anunciando.

aparentemente uma camada mais rica da sociedade não parece se importar muito com com isso, dada a aglomeração vista em balneários de luxo espalhados no sul da bahia e também em outros paraísos tropicais, que são transformados em filiais de um inferno infeliz nessa época do ano. o negócio da playboyzada assintomática não é só deixar a doença para a modesta classe trabalhadora dos vilarejos sem a menor condição sanitária, mas também trazer a peste pras cidades mais urbanas, contagiando assim cozinheiras e motoristas. são os mercadores da morte da nova casa grande, fogo na senzala. se quiser conferir, tudo está ao alcance de um click no seu celular.

hoje completo 47 invernos e embora saiba que não envelheci tão bem quanto gostaria, meus problemas nunca pareceram tão pequenos.

tô cheio de bebida boa aqui em casa e já botei uma bela barriga de porco pra descongelar, com o propósito de fazer o último torresmo do ano.

meu cachorro tá lavando e logo vou buscá-lo. por razões de sarna negra, o bichinho tem que tomar um banho por semana, com um shampoo especial. espero que fique pronto antes da chuva que insiste em cair todo 31/12 desde antes do meu nascimento.

ainda não pendurei os quadros e nem todas plantas estão vivonas, mas espero que meu esforço seja suficiente para que tenham algo parecido com uma sobrevida, já que não tenho a menor ideia desde quando elas estão aqui.

a ideia inicial era a de oferecer pequenos jantares na nova residência, mas a pandemia fez com que esse plano fosse adiado. mas, como tenho bebidas espalhadas pelo apartamento inteiro, surgiu a necessidade de construir um singelo bar, o que farei, assim que possível.

fisicamente, ainda não desisti de abrir uma porta pra vender frango frito, tudo com os devidos e óbvios cuidados. plano de negócio feito, quem sabe em algum momento de 2021?

tenho 3 próximos livros bem encaminhados, mas não tenho ideia do lançamento de nenhum deles. enquanto isso, tento vender os 4 publicados, fracassos médios.

na verdade nada deu muito certo na vida. chego à meia idade com o pacote completo de problemas tais como diabetes e hipertensão com adicional de obesidade mórbida. esclerose múltipla acompanha. sobre as ocorrências financeiras desde que tive meu primeiro negócio, aos 13 anos, eu falo outra hora, quando estiver bem calmo e com bom humor.

mas não é isso que vai me derrubar. até porque a vida nas redes sociais vai quase bem e eventualmente paga alguma coisa via youtube e cursos, embora admita que ultimamente tem me faltado paciência com o amigo internauta.

então, meu amigo, minha amiga. talvez tenhamos uma meta em comum pro ano que se aproxima, a luta pela vida. de maneira que se você sobreviver a tudo isso, a grande dica pra 2021 é que não jogue essa oportunidade na lata de lixo. justifique sua existência, pelo menos para os seus.

seja a pessoa que seu cachorro acha que você é.

meu primo bruno

entre o fim dos anos 70 e começo da década seguinte do último século do milênio passado as noites de 24 de dezembro eram celebradas na casa da mãe dele, a tia zuleide, exímia cozinheira até hoje residente no agora velho sobrado erguido pelos nossos na vila ayrosa, osasco, logo depois da ponte dos remédios, um pouco antes da vila piauí, onde mora o jão do ratos.

seu aniversário era a desculpa oficial pra família se reunir. enquanto os mais velhos enchiam o caneco, os mais novos discutiam sobre o que interessa, esse tal de rock’n’roll. discussões acaloradas compensavam os presentes sem graça que ele ganhava, tais como shortinhos, meias e camisas. verdade seja dita, exatamente uma semana depois, as mesmas pessoas se reuniam na minha casa, com o pretexto de comemorar meu aniversário e ocorria o mesmíssimo constrangimento comigo. com a diferença que após a meia-noite eu ainda ouvia coisas do gênero ó, acabou! o ano acabou! seu aniversário foi no ano passado! hahahahaha! com uma entonação de voz usada tempos depois na final daquela copa lá por galvão bueno wines.

aliás, sobre futebol, não havia discussão, já que ele era tão são-paulino quanto eu e seu pai, o saudoso tio paulinho, falecido tragicamente no banheiro daquela mesma casa, com apenas 37 anos. é raro um homem durar na família, meu pai mesmo foi nessa após só 41 rápidos invernos.

saio do bar para entrar na história.

assim escreveria na minha lápide, se tivesse alcançado maior relevância. tema esse que não era discutido entre nós, primos capricornianos blindados pela inocência da certeza de que a hora do domínio do mundo logo viria, mera questão de tempo.

na real a noite inteira girava em torno dele tentando me convencer de que the beatles era maior que deep purple, o que eu ainda acho de um exagero descabido. mas, até onde me lembro, nunca saímos na mão.

pausa para momento de contemplação observando o ferrorama circular pela sala, enquanto esperávamos pelo corte do bolo feito com esmero e carinho pela confeiteira vizinha de muro, que também fazia o meu na semana seguinte. heróis da marvel costumavam estrelar a cobertura com tal brilho que dava até dó de cortar o bichinho.

pra molhar a güéla, guaraná fazia o papel da bebida mais chique do ano, já que o goró oficial bebido no cotidiano pós futebol de rua praticado na vila leopoldina sempre era tubaína, que também descia mó gostoso.

um pouco antes da meia-noite, íamos pra rua soltar balão, travessura impensável nos dias de hoje. e não estou falando que o ato é correto, mas apenas narrando a ocorrência.

quando o bastão do protagonismo da noite passava para o aniversariante do dia seguinte é que vinha a brochada geral. missa do galo pra cá, mesa com uma comida que deveria ter sido devorada às 21h pra lá e a predominância do sono na maior parte dos convidados. quem nasceu pra ser jc jamais terá a classe de george costanza, o cabeludo nunca dominou a arte de ter a manha de sair de cena no auge.

a reflexão de tanto tempo depois me faz admitir que, de fato, sir paul mccartney é ligeiramente mais hábil que roger glover, embora seja incapaz de segurar a linha de baixo de uma melodia de hard rock e também um romântico incorrigível.

mas quem não age com romantismo nessa época do ano não tem coração.

feliz aniversário, primo!

tem alguém aí ainda?

meu maior temor é que sintamos falta de 2020 nessa mesma época no próximo ano.

porque esse bateu muitos recordes de tristeza, especialmente se você morar no brasil. sempre lembrando que quanto mais frágil sua condição financeira, pior se está.

do meu lado sei que sou privilegiado e sigo atento ao meu estado de risco.

profissionalmente livros não foram lançados e mídias seguem não sendo atualizadas como o planejado, a começar por essa mesma, que era pra ser retrato de um diário anual, mas falhou miseravelmente.

afinal, quem é que vai se interessar por um fútil diário gastronômico com centenas de milhares de cadáveres bem embaixo do nosso nariz?

bem, pro ano que vem pretendo lançar uma newsletter semanal escrevendo apenas sobre gastronomia etílica, que é o que a maioria das pessoas que acompanham meu trabalho esperam de mim.

não tenho muito mais a oferecer que uma singela dose anestésica no meio desse oceano de terror que nos atormenta.

embora há gente mais culta e competente que eu pra escrever sobre a atual conjuntura política, me perdoem se de vez em quando descer do salto. se indignar é da natureza humana.

não sei se terei forças para a tal newsletter etílico gastronômica, mas a ideia é a de NÃO abandonar esse largado balcão virtual pelo qual tenho tanto apreço, mesmo que inicie o novo projeto.

inclusive espero publicar por aqui pelo menos mais duas vezes nesse ano. essa postagem existe apenas pra dar uma satisfação etc e tal.

alguém aí anda lê blog?

grupo tokyo

o diagnóstico que me colocou na condição de portador de esclerose múltipla fez com que reclamasse menos da vida e também que entendesse o porque de algumas coisas terem dado tão errado. saber onde começa minha limitação faz com que o instinto de autoproteção aumente de maneira considerável.

as antenas sempre estão ligadas para toda espécie de tratamento, o que não é sinônimo de paciência para os porras dos falsos samaritanos sommelliers do mal alheio, com suas infalíveis receitas de cbd e vitamina d.

mas, como se divertir é preciso, às vezes tento uns troços estranhos, mais pela zuêra que pela provável melhora em si.

o homem é doente e não há cura para si próprio.

o sintoma mais freqüente provocado pela doença que me abate é o da fadiga e isso somado à obesidade mórbida e ao fato de respirar pela boca às vezes me causa a sensação de ser uma bomba-relógio de preguiça prestes a explodir a qualquer momento, espalhando assim pílulas de naftalina psicodélica por todo infame elevado erguido pelo dr. paulo salim maluf.

daí que nos últimos meses as pernas começaram a falhar de maneira um tanto esquisita. sem dor, apenas uma dormência que aponta para hipotética desistência do único exercício que aprecio, a caminhada. não é sempre, os sintomas pintam meio que dia sim, dia não.

então nessa semana marquei uma consulta e quero dividir a experiência com vocês, já que a primeira sessão de acupuntura a gente nunca esquece.

ao chegar, recebi um pequeno questionário, com questões sobre dores, marca-passos e outros males que não me afligem. na hora bateu aquele sentimento de dúvida. será que deveria estar ali mesmo?

logo após entregar o papel, fui encaminhado a uma pequena sala com nome de cidade japonesa que tenho muita vontade em conhecer. lá uma senhora pergunta como está meu intestino e se sinto dor na coluna cervical. se antevisse sua cara de decepção, inventaria umas lorotas. mas tentei animá-la falando sobre a em, no que ela me olhou como eu fosse um et. por fim, contei sobre o fantástico caso das sonolentas pernas rebeldes. ela perguntou como estavam naquele exato momento e disse que a normalidade reinava absoluta enquanto batíamos o frustrante papo. respirou fundo, pediu pra me deitar na maca disposta no meio da sala tokyo e me informou que já voltava, ela.

voltou armada com generosa porção de agulhas e enquanto escutava o som ambiente com uma espécie de richard clayderman executando dire straits, ela espetou diferentes membros do meu corpo, tais como pés, pança, nunca, ouvidos e a cabeça que deve ter me deixado com aspecto de figurinista de hellraiser, o que não pude conferir pelo motivo de ter ficado sem graça em pedir um espelhinho.

sai de cena a senhora e entra na sala uma simpática massagista cujo toque deixava a impressão de que queria arrancar pra fora da galáxia meus braços e pernas. também pergunta sobre intestino e coluna, ela. após decepcioná-la com a resposta, pergunto se é normal a massagem doer. sua resposta é que shiatsu é pra doer mesmo, que tira as energias ruins do corpo, que hoje não é dia de massagem relaxante, etc. me resumi à óbvia insignificância, não abri com ela que achava que shiatsu era nome de raça de gato e suportei silenciosamente as duas horas seguintes. homem não chora, assim dizia meu saudoso pai.

sai de cena a massagista e entra na tokyo um senhor alto e bem humorado que se apresenta como quiroprata, enquanto clayderman se empolga no solo de piano de interessante versão de easy lover, sucesso oitentista de phil collins. me colocou em posições em que nunca estive antes e provocou estalos que não pensei que fossem possíveis, enquanto gargalhava em voz alta, o homem. admito que essa foi a melhor hora não só da sessão, como do dia. e se vivêssemos somente das melhores horas do dia? será que daríamos seu devido valor, sem a sonolenta curva vonneguttiana que guia nossos destinos?

todo espetáculo pede por um grande final e a roteirista do consultório sabe das coisas. a senhora volta e sussurra algo que entendi como vou buscar seu chá e já volto.

ora, bolas. se tem algo que aprecio é boa bebida e nessa hora me empolguei. sentei no banquinho na frente da maca e imaginei nossa heroína na frente de um pequeno caldeirão temperando água quente com ervas orgânicas e especiarias contrabandeadas.

10 minutos ela volta à sala tokyo sem nenhuma xícara à mão e pede pra eu me deitar novamente na maca. diz que agora é a hora de alinhar meus chacras. não basta não entender o que a outra parte diz, tenho que interpretar erroneamente. eu e minha incorrigível surdez de velha da praça é nossa.

com um objeto que não pude identificar em suas mãos, ela se movimentou ao meu redor de uma maneira que me remeteu a exótico curandeirismo, pelo menos foi essa a minha grosseira percepção.

tudo isso demorou um pouco mais de 3 horas. luzes acesas e a protagonista da história disse que não tenho nenhum problema físico, mas sim energético. ainda fiz papel de bandido de mim mesmo.

na saída passei por um guichê à esquerda e paguei o cachê a um senhor que falou domingo vai dar covas, como se fosse mestre bidu.

se me arrependi em ter ido? de maneira alguma. salve, salve as pequenas diversões que a vida nos proporciona. nessa semana inclusive devo procurar uma taróloga. desde que joguei cartas com plínio marcos, acho tarô o maior barato.

focaccia quentinha

acho que nunca conseguirei transferir o título de eleitor, embora a vila leopoldina da minha infância tenha deixado de existir fisicamente há décadas, para habitar apenas as memórias que levarei para o túmulo.

de maneira que sigo votando no sesi da rua carlos weber de 2 em 2 anos, sempre torcendo pela existência de segundo turno, pra vivenciar em dobro a experiência antropológica.

necessária a lembrança de que o sesi era um colégio público acessível apenas para quem tinha melhor condição financeira ou influência moral no pedaço, de maneira que as portas do colégio nunca se abriram pra mim.

a escola onde estudei não existe mais. tornou-se, veja só, um centro de treinamento militar ou algo que o valha. na eleição passada fiz questão de passar na frente, dessa vez não foi possível.

meu rolê ideal de votação inclui fazer baldeação do metrô para o trem e aportar na estação localizada na esquina da longa rua guaipá – onde meu pai teve uma fantástica fábrica de lingüiças – com a imponente avenida imperatriz leopoldina, verdadeiro ícone oitentista entre nós, os bucheiros da época.

infelizmente um surto de esclerose múltipla dificultou um bocado a locomoção, a ponto de abortar a parte da missão que se refere a condução pública. não ia rolar a caminhada sob a atual sensação de ter uma imensa pança sobre duas pernas de pau. privilegiado que sou, ainda bem que tinha verba para o taxi.

se há dois anos a impressão foi a de que a rua carlos weber moemizou, nessa semana constatei que nada pode ser tão ruim a ponto de não piorar. me senti dentro de jurerê internacional, só que sem a parte da praia. aliás, nunca respirei tão mal no pedaço.

o pipoqueiro acrescentou chips de batata ao repertório do carrinho, mas não havia interessados em nenhum de seus produtos.

a seção eleitoral tava tranqüila e ignorei silenciosamente cada olhada e sussurros debochados apontando para minhas vestimentas vermelhas, máscara inclusive. curioso que o bordado no meu boné apontava uma zoeira escrita o jeito é jango!, mas o modo de vida cotidiano se tornou o túmulo da ironia e não sou eu que vou explicar uma piada que ninguém quer escutar.

papel cumprido na festa da democracia, fui ao restaurante italiano que gosto, que embora não seja mais tão novo, sempre será jovem para minhas referências. comi lulas frescas com tomate picante, delicioso joelho de porco e o único mil folhas possível nessa grande farsa gastronômica chamada são paulo.

fui embora no fim de tarde esquecendo a bolsa preferida, que o dono do lugar – que também é meu amigo – teve a imensa gentileza de me devolver no dia seguinte, com a carinhosa companhia de uma focaccia quentinha. e embora saiba que tecnicamente o pão deve ser repousado antes de devorado, pães quentinhos me comovem feito um pobre diabo.

que a possibilidade do conforto da boa mesa nos dê energia pra enfrentar o 7 a 1 de cada dia.

© 2021 Boteco do JB. All rights reserved.

Theme by Anders Norén.