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Boteco do JB

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Month: March 2020 (page 2 of 4)

os quarenteners

o quadro da pandemia global que nos abate não tem precedência na história da humanidade. a velocidade de informações é estonteante, a peste ao vivo ao alcance da tela do seu celular.

o problema é saber selecionar o que de fato importa, ainda mais quando ninguém sabe ao certo contra quem estamos lidando.

ouçam especialistas técnicos, opiniões de palpiteiros não são bem vindas. infelizmente é nesse clima que nascem os quarenteners.

o quarentener é o novo vegano. não tem o menor senso de noção da realidade da classe trabalhadora que pega condução lotada diariamente e dos garçons que não conseguirão comprar comida pros seus filhos sem o dinheiro da caixinha do restaurante que acabou de fechar.

direto dos seus celulares, xingam idosos e ameaçam fechar bares, cagam regras sem nenhum critério técnico, o que vale é lacrar.

governadores tem se imposto ao quadrúpede do presidente e vem decretando duras medidas para combater o maldito vírus. eles devem sair dessa maiores que são. fiquem espertos, não deixem que capitalizam politicamente em cima da tragédia cujo pico ainda não chegou.

ouçam as análises diárias de quem entende do assunto, não a opinião do cecilier limer quarentener mais próximo de você.

muitos de nós já estamos em casa e é necessário que o número aumente ainda mais. que as igrejas e praias esvaziem o quanto antes.

eu sou grupo de risco, já estou isolado há duas semanas. só saio para passear cachorro e prestigiar – com muita ponderação – os heróis que ainda estão abertos.

cozinho em casa, mas também peço deliverys de gente que precisa se manter aberta. não percamos o dom de viver em sociedade.

quando o quarentener grita histericamente pra ficar em casa, ele é tão eficiente quanto o vegano que olha pro bife no prato do trabalhador e diz que ele ta matando uma vida. portanto vamos com calma e inteligência. comunicação não é o que você fala, mas sim o que o próximo escuta.

vamos sair dessa.

a revolta dos velhinhos

as ruas de são paulo foram dominadas por um exército de adoráveis velhinhos que querem mais que se foda essa merda toda. você consegue ficar brabo com eles? eu, não.

ontem mesmo foi dia de faxina aqui. dona terezinha está comigo desde 2011, ano em que minha mãe faleceu. cumpri a etiqueta de separar seu dinheiro e dizer que ela poderia ir embora, etc.

mas que nada! entrou aqui tal como uma retroescavadeira cidgomeana, armada com um cantil d’água com enormes cabeças d’álho que mata tudo, segundo ela. também me pediu pra eu não tirar a diversão dela, que em casa ficaria doente.

é preciso ter paciência com o maior grupo de risco dessa maldita pandemia que há de passar. é natural que velhinhos demorem um pouco mais para assimilar informações e não é com grosseria que vamos seduzi-los. eles já viram de quase tudo nessa vida e querem mais que você se reduza à insignificância do papel do moleque que é.

além do mais, imagino que não exista grandes problemas em pequenas caminhadas pelas ruas do próprio bairro. não esqueçamos quem somos e de nosso conceito de sociedade.

então ergo um brinde ao verdadeiro bingo a céu aberto que nossas ruas se transformaram.

idosos que fazem parte do seu cotidiano tem saído mais que o indicado? pois use seu charme para trazê-lo de volta pra casa. prepare um bolo ou uma dose de campari com gelo e laranja, converse, dê a atenção necessária para tal função.

acima de tudo, os trate como adultos, de igual pra igual, com o devido respeito. ninguém gosta de ser cuidado tal como criança de auditório de programa televisivo infantil. a ideia é incentivar saudáveis últimos anos, não um suicídio coletivo.

cuide de quem já cuidou tanto de ti. e o respeite.

vo passear petisco

cerca de 20 horas sem internet me fizeram perder completamente a ideia do que poderia escrever aqui hoje, mas me lembrou de como nos tornamos estúpidos funcionários de fúteis redes sociais onde não nada ocore feijoada.

os bares vão fechando as portas, um a um. muitos deles sem a menor condição de reabrir, já que a coisa tá ruça não é de hoje.

a geladeira ainda tá abastecida, com mais álcool que comida, reflexo do estilo de vida boêmio que levo. mas vira-se, cozinha-se, come-se.

e se pede comida também, sempre prestigiando pequenos comércios da vizinhança que resistem em se manter abertos. questão de sobrevivência. a maior parte deles tem perfil familiar.

pra quem tem cachorros, a quarentena sem sair de casa não existe, então pequenos rolês ao redor do bairro tem sido dados. a cidade vem se transformando num cenário apocalíptico muito rapidamente.

como não sou do time da oração, me rendo à quietude, que só é interrompida pra xingar o palerma que descomanda essa nação.

jamais tivemos um criminoso desse porte à frente do poder executivo, mas sobreviveremos.

agora peço licença, pois tenho um livro de receitas crônicas pra finalizar e um cachorro desesperado pra passear arrebentando meu chinelo.

que o novo mundo que se apresenta seja terno.

outbreak

e não é que o padeiro medíocre apagou sua confusa postagem? menos mal, mas ainda longe do adequado, faltou complementar. até porque em seguida publicou algo posando de macho alfa com uma motocicleta fazendo piada com idosos, o maior grupo de risco da pandemia. o ideal seria um pedido de desculpas junto com campanha de informações corretas e cuidados necessários para esses dias tão difíceis. de preferência envolvendo seus negócios, botando o seu na roda.

devemos ter consciência do alcance de nossa voz. não falta gente decente fazendo o que pode. pessoas mais famosas que ele fazendo live culinária, pequenos restaurantes adaptando suas operações pra servir a população. cada um dá o que tem, dentro de suas possibilidades.

cozinhe em casa e prestigie os pequenos comércios. conheço mais de um exemplo de gente que não fechou por temor de simplesmente não conseguir abrir mais. estamos todos bem fudidos num universo muito distante do mundo cão do olivier e sua moto.

claro que a corda sempre arrebenta do lado mais fraco. o que não falta é quem ainda pega condução lotada pra um trabalho que hoje faz ainda menos sentido. esses não tem direito de ficar em casa, segundo a sociedade hipócrita.

a hora é de isolamento e reflexão de valores. é comum dizer que cresce-se em tempos de crise e talvez essa nos ofereça a oportunidade de crescimento espiritual e reinvenção.

pra meia dúzia de bocó que tenta me pautar no meu próprio blog, alegando que entendo de comida e não de política, digo que nunca uma coisa foi tão ligada a outra e ser agradável nunca foi meu forte.

além do que não sou especialista em nenhum assunto. mesmo em gastronomia já cansei de dizer que nem crítico gastronômico me considero.

mas acordo e venho pra frente do computador escrever, tal como num diário. na grande maioria das vezes não tenho a menor ideia do conteúdo que sairá, tanto que mais de um assunto pode vir à tona no mesmo texto, nem sempre de maneira fluente e equilibrada. imagino que muitos estão cansados de ver tanto material sobre a pandemia e juro que estou tentando virar o disco, mas às vezes é mais forte que eu.

ontem revi epidemia, com dustin hoffman. se vivêssemos num filme de ficção, sua personagem seria muito bem vinda pro cargo imaginário de presidente do mundo.

encerrarei o texto de hoje com duas palavras contra aquela autoridade que trata a peste global como uma ciranda de crianças:

fora bolsonaro

o mundo cão do olivier

não para de fechar lugar na cidade e muitos deles não terão como pagar em dia suas contas fixas, o que deve provocar algumas falências. até então o governo não apontou para a boa vontade de retribuir nem com benefícios simples, tais como isenção de pagamento de contas de luz, água, etc, pelo menos nesse período que ficou todo cagado. certo era dar isso, muito mais e também uma linha de crédito camarada para o pequeno comerciante em geral. mas nem todos se interessam em fazer o certo.

enquanto tantos se fodem, das trevas ressurgiu aquela tentativa de padeiro medíocre dando chilique no melhor estilo bolsonarista quase incompreensível ridicularizando a pandemia que assola o planeta inteiro, inclusive sua frança querida.

até donald trump se conscientizou da dimensão do problema, mesmo que tardiamente. mas isso não parece ser suficiente pra ameba vendedora de produtos de terceira na sua padaria de quinta categoria.

e o que falar da sua rede de restaurantes, então? logística de fast food (um no quente, outro no frio e um na pia lidando com ingredientes que chegam porcionados para cardápio de prato único) pra cobrar aquilo tudo e entregar produto constrangedor, pra ser gentil? quem conhece sabe do que estou falando.

se um dia o cozinheiro em questão já foi mais esperto, eu não sei. mas aparentemente a merda que ele serve subiu pra sua própria cabeça.

mas não deixemos nos abater por esse tipo de lixo. que pra cada um desses energúmenos tenhamos pelo menos dez pessoas conscientes dispostas a lutar no exército do bom senso.

hoje a peste que alguns acéfalos insistem em ridicularizar fez em nossos solos sua primeira vítima fatal. outras virão e sinto muito por isso.

cabe a nós achatar a curva de velocidade da pandemia, se o presidente da república e o ator francês frustrado pararem um pouco de atrapalhar.

faça a sua parte, fique em casa.

trevas

ontem foi o último dia de funcionamento de um dos melhores restaurantes do brasil. já escrevi sobre o lugar e a chef aqui nesse blog e em outros lugares também. fechou por causa do coronavírus, em solidariedade aos seus funcionários e clientes. talvez cedo demais, porque a coisa deve piorar um bocado, eu esperaria mais uma semana. mas o humanismo da atitude deve ser aplaudido, ainda mais em tempos de bolsonaro.

outros comércios devem fechar e o prejuízo total é de ordem incalculável. sinto muitíssimo, não há o que fazer, além da nossa tão óbvia parte.

essa que por sua vez fica prejudicada a partir do momento em que o presidente da república incentiva grandes aglomerações pelo país todo, acelerando assim o processo da pandemia que gente séria tenta retardar.

não faltam exemplos do que fazer, vindos de países mais desenvolvidos que o nosso. mas não há argumentos ou ações que combatam com eficácia a estupidez humana.

até existe uma voz de bom senso no governo, o ministro da saúde que alguns defendem que peça demissão, dada a chefia estapafúrdia a qual ele tem que responder. pessoalmente prefiro que ele fique, pra não corrermos o risco do paulo cintura ser o novo nomeado.

há leis, é verdade. se o presidente não apresentar seu exame médico no qual é apontado como não portador de corona vírus ele deve ser deposto e preso.

a minha vontade é a de pegar ele, seus filhos e o véio da havan e prendê-los em qualquer unidade do madero pelo resto da eternidade. não o faço primeiro porque não tenho poder pra isso e também porque é capaz deles curtirem a estadia. bom gosto não é o forte da familícia.

saia apenas o necessário, fique em casa, leia mais, cozinhe, peça delivery, dê mais atenção ao seu bicho de estimação. seja a pessoa que seu cachorro acha que você é.

um beijo especial pra chef vivi e fico na torcida que seu restaurante reabra o mais breve possível. estamos todos entrando no olho do furacão, mas vai passar. toda epidemia tem seu fim, por mais que tantos tramem contra.

toque de recolher

moro num prédio que mais parece uma clínica geriátrica, dada a idade média dos moradores. o porteiro tem 81 anos e assim a banda toca.

passei as duas últimas madrugadas com uma febre do cão, o que me levou a suspeitar do porte de corongo médio. melhorei, sem tosse, alarme falso.

de qualquer forma, tenho saído muito pouco e evitado aglomerações. não por mim, mas sim por solidariedade aos velhinhos. sugiro que façam o mesmo.

o que não é sinônimo de prisão domiciliar. pequenos rolês estão liberados, pelo menos por enquanto.

ontem mesmo passei num restaurante armênio que estimo um bocado, pra mandar o kibe cru que só tem lá. pega-se as carnes – crua e cozida – e os temperos, coloca-se numa pétala de cebola pérola e manda-se pra dentro. bom, bem bom. era o que queria comer. ainda trouxe pra casa homus e babaganouch.

nunca foi tão importante fazer as escolhas certas. de repente caiu a ficha que a vida é muito curta pra ir no capim santo. se bem que disso eu sei já faz certo tempo.

tudo indica que a semana que se inicia hoje será mais difícil e que a cuca vai pegar. mas não sou nenhum especialista e me resta torcer por cenário menos catastrófico, além de fazer minha parte.

bom exílio pra você também.

sinal de alerta

febre noturna, dor no corpo, muita fadiga. as noites terminam cada vez mais cedo e os dias demoram cada vez mais pra começar.

coronga? não, damas e cavalheiros. esse é o dia a dia do portador de esclerose múltipla. o quanto essa baixa imunidade que causa sensação de gripe eterna me deixa mais exposto a esse tipo de pandemia que nos assola eu não sei, assim como também começo a ter dificuldades pra diferenciar os sintomas. se fosse uma receita de cocktail, seria muito mais fácil.

a solução temporária é o retiro, sair cada vez menos e esperar o furacão passar. como estou no meio do processo de elaboração de um livro de crônicas e receitas, trabalho e comida não hão de faltar. só tenho que sair de vez em quando pra comprar provisões no mercado.

e passear o dog, que não tem nada a ver com a parada apocalíptica. disso não abro mão.

álcool do bom também tem bastante aqui em casa, não há com que me preocupar. gim, bourbon, vinho, vermouth e tudo o mais.

embora meu estado clínico aponte para inevitável pessimismo, gosto de imaginar que viverei até ficar bem velhinho e estou fazendo o pouco que posso pra atingir e dobrar a meta.

ontem vi um modelo de vida em santa cecília que me agradou muito. senhor de uns 80 anos, trajado apenas com roupão bordô e sapato de mocassim. na mão, uma sacolinha de supermercado. não é a primeira vez que o vejo e acho digno pra caralho. quero envelhecer assim.

já faz alguns anos que só uso moleton, george costanza style. onde muitos apontam desistência da vida, eu vejo conforto para o dia a dia. mas roupão, talvez por ter uma peça a menos, atinge outro patamar de bem estar. portanto, se sobrevivermos, palpito que a peça será tendência na coleção outono/inverno 2020, pelo menos aqui pros lados da praça da república. não precisa de toque de recolher pra esbanjarmos elegância e bom gosto.

podem aproveitar esses dias pra me dar coisas legais. presentes são bem vindos enquanto ainda estiver vivo, depois de morto pouco importa. eu também tentarei ser mais agradável.

que a pressão da peste ajude a nos transformar em pessoas pelo menos um pouco melhores.

apocalipse now

tudo indica que sobreviveremos. mas, e se o mundo acabasse? qual seria sua última refeição? e pra beber? fritas acompanha?

pra realizar tal exercício, peço que deixemos de lado lembranças apenas afetivas, tais como aquela comida de mãe que só tem valor pra ti, a não ser que você seja a filha da nina horta ou coisa que o valha.

eu começaria o jantar com ika shiokará do nobu san e karasumi preparado pelo pai dele, acompanhado de bom sake.

você sabia que por cerca de quatro décadas o la casserole serviu uma terrine de foie gras com ordem de excelência jamais vista em nenhum outro canto do planeta? até quando tirava férias mussum, o cozinheiro responsável pelo preparo da iguaria, deixava algumas prontas e se acabasse antes de seu último dia de descanso, bastava uma ligação pra ele passar no restaurante e preparar mais. infelizmente a aposentadoria chegou e essa maravilha não está mais disponível. quem comeu, comeu. esse e outros mundos acabam antes do seu, é importante se resumir à sua pequenez.

então nada mais justo que pular a etapa do pato, em justa homenagem ao cozinheiro. mas o torresmo é importante, porra! e, já que a ocasião é especial, quero o torresmo do carlão de são sebastião da grama. pra beber, château-chalon.

a amiga e cozinheira única tainá marajoara elevou a maniçoba a outro patamar e não abro mão disso no meu último jantar. e pode vir aquela cachacinha artesanal com jambu que foi ela também que me mostrou que pode ser boa. até então só conhecia as duas famosinhas do mercado, ambas bem ruins.

esse jantar bem que poderia ocorrer diante das águas calmas que cercam o the towpath cafe e, uma vez lá, não tem como não comer o excepcional homus com anchova da véia holtz do rio inglês. jerez fino acompanha.

já que estamos em londres e boa salada sempre é bem vinda, escolho as folhas com tripa do st. john com um belo copo de negroni feito por mim mesmo com o bitter da sacred no lugar do campari e em seguida o maravilhoso rim do hereford road. acho que a essa altura já podemos abrir o barolo.

gordura pra terminar o vinho? frango frito do maltby street e mollejas de cordeiro do brawn. aliás, esse último pode fazer também seu incrível tiramisù e também um vinho do porto, que remete a um pedaço do planeta que queria tanto conhecer.

como quero morrer com a lembrança do meu pedaço, a sobremesa principal é a esplêndida torta de limão da talitha acompanhada de tristeza sour. agora tá de bom tamanho. chega, antes que eu queira matar uma galinha à cabidela.

ou melhor, não chega. kba, não, mundão. espera eu ir pro japão…

prorrogação

quantas novidades gastronômicas interessam de fato nesse ameaçador tempo de pandemia?

a partir de que momento se torna absurdamente fútil a descrição de um prato de restaurante quando tantas vidas estão em jogo?

nunca foi tão perigoso viver em sociedade e tudo indica a situação piorará um bocado.

saia menos, cuide dos seus, cozinhe mais em casa.

e não deixe de viver, não permita que a paranóia domine tua vida que convenhamos que nem é tudo isso. aliás, aproveite a ocasião pra elevar o nível da parada toda. talvez ainda não seja tarde pra tanto.

é recomendável seguir frequentando os lugares pelos quais se tem mais apreço, pelo menos por enquanto. na verdade a oportunidade deve ser aproveitada, já que não sabemos o que ocorrerá nas próximas semanas.

a pressão que a possibilidade do apocalipse provoca faz com que devamos ter ainda mais cuidado com nossas escolhas.

onde seria sua última refeição? no restaurante do seu coração ou naquela pálida novidade do millenial que claramente tira onda da sua cara enquanto serve aquele ranguinho tão asséptico que até um residente de hospital recusaria? falo com a propriedade de quem já foi internado por algumas vezes.

e se for possível escolher um vinho pra acompanhar o último jantar? vamos de um belo barolo em seu auge ou prefere um natureba com retrogosto de peido de pombo?

a hora é cada vez mais de contemplação, quietude e respeito. sem abrir mão da diversão, na medida do possível.

o tempo regulamentar está esgotado, mas o jogo só acaba quando termina.

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