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Boteco do JB

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quinze dias

fiz duas ótimas escolhas nos últimos anos. primeiro a de não ter mais carro e segundo a mudança domiciliar para o centro paulistano.

além da óbvia economia financeira (ipva, seguro, manutenção, combustível, desvalorização, etc), não ter automóvel faz com que eu use a cidade como um aldeão e vir pra esse pedaço da cidade me ajudou um bocado.

embora metrô na porta seja bem eficiente nos dias em que não somos abatidos por uma pandemia cuja crueldade os terraplanistas sentirão em suas próprias peles nas próximas duas semanas, o grande barato é andar à pé. caminhar, além de ser um exercício possível, permite que se veja as ruas ao meu redor com outros olhos.

lembro do meu escritor brasileiro preferido, cujas crônicas se passam do terminal luz até a estação presidente altino, sempre seguindo a linha do trem. são paulo operária e sem barrancos que abriga inúmeros botecos que recebem trabalhadores sedentos por uma dose antes de pegar o trem de volta pra casa.

no meio desse furdunço fica o mercado municipal da lapa que, ao contrário do da cantareira, conseguiu manter as características de um lugar que abastece a população. não é à toa que tem um terminal de ônibus – antigamente se chamava ponto final – na frente, além da onipresente estação de trem. ali se compra arroz, bom feijão a granel, miúdos – que já foi comida de pobre -, queijos e aquela azeitona ideal para tirar o gosto da cachaça. quando voltarmos a ser gente, visite esse patrimônio imaterial paulistano. mas vá na moral, sem pagar de foodie, pois esse tipo de comportamento não é bem vindo na lapa antiga.

foi com esse olhar que vi a carreata de rycos pedindo para trabalhar, de dentro de seus carrões importados e trajando máscaras que não tem a menor ideia pra que servem. mais casa grande & senzala, impossível.

sabe o que falta pra cair a ficha da pandemia global nesse gado bobo? brasileiro rico começar a morrer em bando. ou você acha que na hora em que o médico precisar escolher quem vai viver ele optará pelo menino enzo, que nem tão jovem é mais? o colapso hospitalar ainda não chegou, mas está bem próximo.

fique em casa, lave as mãos, cuide dos seus.

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