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Boteco do JB

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armistício

claro que quase todas plantas morreram. entre vida em vasos e minha incompetência a segunda falou mais alto. mas no momento trabalho com um amigo que manja mais que eu do assunto em suas eventuais ressurreições. tomara que dê certo, pois o frescor verde equilibra o bafo quente que faz diária ponte aérea do elevado joão goulart até a janela que ancora meu quarto de dormir.

mas há mais vidas pra cuidar e já tomei a primeira dose da vacina. a meta atual é de sobrevivência, mesmo que seja pra passar a mão na bunda de quem anda nos sacaneando.

publico sobre gastronomia etílica desde 2007 e me tornei conhecido mais por desmascarar profissionais ruins de diversos segmentos do ramo do que por dar dicas manêras. embora prefira apontar as poucas coisas legais que tem na minha cidade, já faz tempo que aceitei a derrota da falha da comunicação.

acontece que essa maldita pandemia que já abateu centenas de milhares vidas só aqui nesse país desgovernado por um genocida filho da puta anda me comovendo feito um pobre diabo.

de maneira que nem sempre atualizo esse espaço do jeito que gostaria. até porque mantenho outro balcão virtual, notas de quinta, esse sim atualizado toda santa segunda-feira. poderia deixar o link aqui mesmo nesse parágrafo, mas tenho quase certeza de que você já conhece o espaço.

além disso sigo à disposição no youtube, twitter e instagram. a @ é boteco do jb em quase tudo, meio que numa patética tentativa de unir os cinturões tudo, como se houvesse tanta gente interessada no meu conteúdo.

fato é que nessa altura do campeonato quem me acompanha bem sabe sobre minhas preferências pessoais e quem não valido no ramo.

tenho me dedicado mais a ajudar quem ta se fodendo pra tentar manter suas portas abertas que qualquer outra coisa e é nesse sentido que caminha o trampo.

até porque infelizmente não tenho dinheiro pra abrir minha porta de frango frito e ajudar a sobrevivência alheia é boa maneira de me manter vivo também.

então faça-me o favor de usar máscara, tomar vacina, manter distanciamento social e não morrer.

vamos fazer com que a vida volte a valer a pena.

até.

vertigem

paguei as contas de luz atrasadas e finalmente pendurei os quadros, tarefa que não conseguiria executar se não fosse pelo auxílio luxuoso do bom profissional que tem uma galeria aqui na barão de tatuí. descobri também que se você deixar por sete meses molduras e colagens sujeitas a sol e chuva é inevitável que se tenha algum prejuízo. mas os sobreviventes na parede estão.

já as plantas tem gênios e gostos diferentes, umas exalam vida e outras parecem não suportar minha presença, a ponto de preferir a própria morte. na medida do possível administro as suas vidas, com afeto e responsabilidade.

o dog – petisco – além da incurável sarna negra também apresentou uma alergia meio rara e no momento está sendo bem cuidado por um dermatologista especialista em, olha só, pugs. inclusive o tratamento já demonstra bom retorno em curto espaço de tempo.

hoje meu maior problema cotidiano é certa dormência do lado esquerdo do corpo que se manifesta toda vez em que me levanto de qualquer lugar, afetando assim equilíbrio do corpo por aproximado período de intermináveis 15 segundos, me causando a sensação de ser um cruzamento de joe cocker com michael j fox, só que sem o talento deles.

sou péssimo em descrever dores, mas é como se satanás puxasse meu corpo a cada movimento mais brusco. imagino que seja sintoma da doença autoimune que me abate pouco a pouco e tenho tomado corticóide com moderação, como manda a cartilha do esclerosado.

ideal seria ir pro hospital, mas talvez isso não seja boa ideia. decidi que nesse ano tá proibido d’eu ficar doente e dar trabalho pras pessoas que, em contrapartida, poderiam parar de me recomendar cannabis e vitamina d. a hora não é a mais apropriada pra pagar de sommellier de vida alheia, por mais que 3 ou 4 googada faça com que muitos se sintam doutores da razão.

eu já disse que pendurei os quadros, né? pois é. e também arrumei as boca do fogão, que estavam bem zuadas. o próximo desafio é criar coragem pra chamar um eletricista, já que quase metade do apê tá meio no breu.

atitudes essas que visam trazer certo conforto domiciliar. porque se for pra dar merda, que seja num lugar em que me sinta à vontade pra chamar de casa.

mudar não é fácil, mas aos poucos as coisas vão se ajeitando.

a conta

ainda não pendurei os quadros, mas as plantas em geral até que vão bem. ontem, ao voltar ligeiramente ébrio de um balcão de bar onde bebi doze ótimo drinques, conferi a caixa de correio e me deparei com seis contas de luz vencidas, então imagino que devo morar aqui há uns sete meses. o porque do moço da eletropaulo não ter cortado a luz é um mistério, porém aproveitarei a sorte de ter grana pra dirimir a dívida e pagarei tudo amanhã, espero que a lotérica aceite as conta tudo.

onde bebi? embora haja pelo menos dois bares de cocktail que quero conhecer, fui num porto seguro e me dei muito bem. quem me acompanha em outras mídias bem sabe sobre qual balcão escrevo agora, trata-se de um dos bares mais subestimados e menos falados da cidade. talvez porque ali o foco esteja mais em atender direito a freguesia que em aparecer. e pro pessoal do network pouco importa o que está dentro do copo.

porque trabalhar com comida e bebida é o sagrado – e às vezes chato – ato da repetição, que passa a milhas e milhas de distância do glamour da televisão e das breguíssimas premiações recheadas de tapinhas nas costas. quer dizer, pelo menos pra quem é sério.

nessa semana mesmo morreu um dos melhores e mais generosos cozinheiros que já conheci e não saiu nota no jornal nacional.

bolinha atuava em santa tereza e deveria ser tombado como patrimônio imaterial de belo horizonte, cidade onde aliás se cozinha muito bem.

na calçada do outro lado da rua de seu botequim – na frente de um hospício – bolinha ofereceu uma das melhores refeições da minha vida. teve costelinha com jiló, língua com purê de batata e rabada. esse guloso que vos escreve jamais se esquecerá dessa tarde.

quer homenagear a memória do bolinha e o trampo do bartender kacio citado há cinco parágrafos?

simples, cozinhe ou faça drinques pensando no produto e na alegria que isso pode proporcionar às pessoas, não em afetações alheias ou em storytelling.

vou ficando por aqui pois essa perda me deixou triste pra caralho. nessa semana, além de pagar as contas, pretendo dar um jeito na porra dos quadros. espero não falhar de novo.

e lembre-se que pra cada poser existe um sujeito legal., que quase sempre está a margem do mainstream. prestigie-o enquanto é tempo.

o chef gargalhada

meu nome é júlio bernardo e gasto quase todo meu dinheiro com comida, bebida e viagens. minha condição clínica – além da obesidade mórbida e dos previsíveis problemas de meia idade a vida me deu um adicional de esclerose múltipla – sugere que frequente lugares fresquinhos. o apartamento para o qual me mudei é super arejado e já perdi as contas de quantas vezes considerei me mudar pra gonçalves, no sul de minas gerais.

quando soube que um chef de cozinha comandava um bistrô dentro de sua própria pousada de alto padrão em monte verde me virei pra conferir a parada, apesar das tarifas parisienses. até porque, como cronista gastronômico, gosto de conferir desde o ótimo carrinho de cachorro quente do seo ângelo até o excelente tiramisù do fasano. a meta sempre é passar bem.

não foi problema resistir aos temíveis sargados de estrada durante a viagem de 3 horas, perante a possibilidade de comer algo preparado pelas mãos do chef assim que chegasse, o que ocorreu às 22h30 de um sábado. tarde para o menu degustação, eu sei. mas nem era essa a intenção, só esperava ser recebido com algo quentinho, mesmo que uma sopa ou talvez um sanduíche. até porque o chef sabia da hora da minha chegada e tanto salão quanto cozinha trabalhavam a todo vapor enquanto me dirigia à recepção.

mas não ofereceram nada de comer. pra beber, uma garrafa de champagne e café nespresso à vonts no quarto. aliás, o lugar é todo cercado por máquinas de cápsula. fui dormir com fome na confortável cama. dorme que passa, assim diria minha mãe. e ainda sonhei com um risole de calabresa com catupiry tirando onda da minha cara rindo com a voz do chef.

no dia seguinte pude ver a beleza do terreno da hospedagem, cheio de árvores altas coisa e tal. meu cachorro tocou o terror no galinheiro e o ar me rejuvenesceu uns bons dez anos. com o estômago roncando, fui tomar café.

ou melhor, o entorno em volta do horroroso café de quinta categoria servido. pães apenas ok – mas que o sorridente chef fez questão de frisar que eram de fermentação natural – frutas, razoáveis embutidos regionais e, justiça seja escrita, bons pães de queijo. como o melhor tempero é a fome, comi praticamente tudo disposto em minha frente. aproveitando que o simpático chef fazia o serviço de mesa, puxei papo dizendo que estava ansioso pra provar a sua comida no jantar. sempre sorrindo, respondeu que o bistrô funcionava apenas às sextas e sábados, que mais tarde serviria o chá das cinco e nada mais. insisti um pouco, argumentei que não precisaria ser menu degustação, que poderia ser algo simples etc. mas não teve acordo. regras são regras e existem para serem cumpridas, mesmo que não façam o menor sentido num lugar tão caro.

curioso conceito de hospitalidade, esse.

o chef feliz nunca mais veio à mesa e o serviço de chá era uma variação sobre o mesmo tema, com destaque para a péssima bebida em si. como já sabia que a noite seria escassa, guardei pães e frios para comer mais tarde com um vinho que tinha trazido na mala pra beber com a comida jamais vista.

segunda no café já tava me sentindo na casa de chá as mestiças e assim foi até o checkout realizado na terça-feira.

tenho 47 anos e essa foi a primeira vez que vi um hotel caríssimo não ter serviço de restauração. ressaltando ainda que o lugar é no meio do mato, não existe a opção de atravessar a rua e comer algo na rua.

claro que as reclamações em questão foram passadas para o chef, que em nenhum momento ofereceu algo para recompensar o desconforto. nem palavras gentis, muito pelo contrário. ficou a impressão de que se tem dinheiro na conta, já tá de bom tamanho.

de volta a são paulo, passei bem mal por dois dias. culpa da alimentação incompleta? isso não posso afirmar, mas que não foi prazeroso ficar de sábado à noite até a tarde de terça sem fazer ao menos uma refeição, isso não foi.

publico sobre gastronomia desde 2007 e meu maior prazer é dar dicas transantes. mas também tenho orgulho de livrar leitoras e leitores de roubadas como essa. que esse texto sirva pra isso.

se quem ri por último ri melhor, que o último a rir esteja comendo e bebendo bem longe dali, diante de um momento de felicidade. porque no provence cottage o único a sorrir é o chef, aquele que gargalha da cara do hóspede.

o altar

cagar é em casa, assim dizia minha mãe, que achava de uma falta de educação absoluta usar banheiros alheios para fazer o número 2.

mal sabia ela que anos depois me tornaria um cronista urbano e ir a banheiros de bares e restaurantes se tornaria parte do meu cotidiano. ainda acho que o estado do vaso sanitário de uma lanchonete pode dizer muito sobre sua cozinha.

mas que exercer a sacra atividade em casa é melhor, isso é. aqui tem o papel que eu gosto, posso deixar o som ligado numa altura apropriada com a trilha correta, etc.

por valorizar o ato contemplativo, evito ao máximo levar ao sanitário como companhia o onipresente aparelho telefônico móvel.

mas outras leituras são bem vindas, de maneira que sempre mantenho abastecido uma espécie de revistário improvisado ao lado do vaso.

as leituras devem ser leves e dinâmicas, já que meu banheiro não é lugar de literatura russa. não há tempo pra tanto e tem lugar pra tudo, cada um com seu cada qual.

por outro lado trabalhamos com cardápios de bares variados do mundo todo, literatura de bolso de grandes autores como mario bortolotto e lucas mayor e, por fim, alguns atestados de óbito, pro ocupante da vez sempre se lembrar de sua finitude. costumo dizer que a última falência do meu pai foi a múltipla dos órgãos e que a prova cabal disso está em frente a pia do banheiro.

acontece que tive uma situação kafiana, que embora aparentemente já tenha sido resolvida, ainda é muito recente pra mim.

e nada me tira da cabeça que reside um ser entre o cardápio do savoy american bar e o pedigree do shoyu, pug morto há 2 anos.

não tenho prova e nem evidência alguma disso, que tem tudo pra ser mera paranóia da minha cuca, mas fato é que não toco no móvel onde guardo os escritos desde a bem sucedida dedetização.

agora o ato é acompanhado de breve pânico, esperando que o pior ocorra, com direito a levar os pensamentos para a cama. noite dessas sonhei que ela tinha constituído família e que as pequenas brincavam entres os cardápios do tordesilhas e do bar do zezé.

tenho saído bem menos, devido a pandemia, de forma que terceirizar o vaso nem sempre é uma opção. mas, mesmo nas vezes que assim o faço, a imagem do revistário povoado sempre vem à mente.

então, como não tem como fugir das ideias que me atormentam, sigo usando o banheiro de casa na maior parte das vezes. afinal, como dizia minha mãe, cagar é em casa.

os reis do iê iê iê

apesar das condições insalubres ficamos por mais de um ano naquela que ficou conhecida na família como a casa dos ratos. nem sempre a condição financeira acompanha o desejo de moradia decente.

mas acho que foi um pouco antes da copa de 86 que a banca de frangos e miúdos do meu pai caiu nas graças do povo osasquense, muito devido à escassez causada pelo plano cruzado. aconteceu que devido a uma pequena distribuidora que ele tinha acabado de abrir e batizar com o infame nome kiboi, mercadoria não era problema pra nós e ficamos quase ricos pela primeira vez. o dinheiro ganho permitiu upgrade pra subirmos da vila leopoldina até a vila hamburguesa, na rua lauro müller.

o número 192 onde morávamos era um combo de sobradão rosa com quintal de piso de caquinhos na frente e uma enorme garagem ao lado, onde minha pastora alemã melissa dividia espaço com o monza ratt 82 do vadinho, vizinho do 196 que mantinha simpática banca de bicho no bar do pinho, na rua paulo franco.

embora eu nunca mais tenha me divertido tanto em outra locação – a rua larga permitia peladas e jogos de taco todos dias e noites, já que ficava fora até as 22h, pelo menos – a questão dos bichos indesejados ainda não tinha sido resolvida por completo. a casa tinha baratas voadoras mais interessadas em espalhar o terror que em dançar iê iê iê.

como a presença não era assim tão constante e não queríamos sair da casa de jeito nenhum, procurávamos lidar com a situação nos revezando entre a família e a cadela pra matar as danadas. encarei a tarefa de boa, até a noite em que uma subiu por dentro da calça de moleton que eu trajava, o que fez com que me despisse e saísse gritando pela casa, pra aparente satisfação do meu pai, dada sua risada sádica. até ficamos mais uns anos no pedaço, mas fato é que desde então não tenho medo, mas sim pânico do inseto em questão.

muito tempo se passou, meus pais já se foram e moro há alguns meses num simpático apartamento em santa cecília com um cachorro de pequeno porte, meu companheirão.

herdei 37 plantas do morador anterior, as quais rego diariamente com bem pouca água, a maior parte delas vem respondendo a esse tratamento com positividade. os quadros ainda não pendurei na parede, o processo de pertencimento relativo a uma mudança residencial sempre foi lento e doloroso pra mim.

acho que foi mais ou menos após um mês de moradia que vi a primeira barata na cozinha. a reação foi ir pro quarto e torcer pra ela se resguardar no período diurno e de fato o plano deu certo.

acontece que ela passou a aparecer quase todas a noites e quando pintou com uma companheira de asas entendi que a situação precisaria ser resolvida, antes que a família se apossasse do imóvel.

contratei um exterminador de pragas e me mudei por um dia pra um bonito apartamento no edifício copan, aquele hotel nunca inaugurado, mas planejado por oscar niemeyer.

de volta no dia seguinte, descobri que a situação era mais perigosa que pensava, tamanha a quantidade de cadáveres.

hoje está tudo sob controle, a pressão para resolução desse problema fez com que me sentisse mais dono do pedaço. pretendo pendurar os quadros até os idos de março e já voltei a frequentar a cozinha. hoje meu almoço foi rigatoni alla gricia, precedido de bruschettas alla martinelli e finalizado com fatia do pudim perfeito da talitha.

será que é cedo demais pra arriscar um bacalhau no próximo domingo?

o bacalhau do tio waldir

nunca mais haverá uma casa térrea de paredes verdes como aquela em que morei com meus pais na rua teerã, parque da lapa, entre o fim dos anos 70 e o começo da década seguinte.

lugar de botijão de gás era na garagem, dado que o pequeno caminhão do velho era movido por esse combustível. mas claro que minha mãe tinha acesso ao estoque para sempre manter o fogão da família abastecido na linda cozinha de azulejos cor de rosa.

uma vez por mês o almoço tardio de domingo – família de feirante sempre almoça depois de todos – era bacalhau assado. na mesa da sala de jantar sem aparelho televisor eu, meus pais e um outro irmão da minha mãe nos esbaldávamos do peixe com pimentão, paio e batatas como se não houvesse amanhã.

poderia escrever um livro só com os ocorridos na casa que talvez morasse até hoje, se o dono não a requisitasse para sua família demolir e construir dois sobrados cafonérrimos em seu lugar. nós? nos mudamos para um pequeno sobrado caindo aos pedaços na rua sebastião bach, vila leopoldina, na frente da fábrica de violões da giannini e ao lado de uma casa térrea onde morava uma família que dizia ser de garça e parente do waldir peres, que nunca deu as caras no pedaço, talvez porque estivesse muito ocupado fazendo história no são paulo futebol clube.

a nova residência pertencia ao mesmo dono da morada anterior, um senhor português que prometeu mundos e fundos em planos de reforma pra compensar nossa saída repentina antes do fim de contrato de locação, como uma maneira de recompensação ao atendimento de seu pedido. claro que ele não cumpriu sua parte, e assim descobrimos que o fio de bigode do seo manuel não tinha o menor valor.

umidade, enchentes, ratos e baratas voadoras. assim se tornou a rotina dos nossos dias, a simples lembrança não me faz assim muito bem. mas tentávamos nos divertir, na medida do possível.

superado o susto da nova acomodação, minha mãe promoveu sua tradicional bacalhoada dominical, chamando pra se juntar a mim e meu pai, dois irmãos e a vizinha, que ficou de levar o tio waldir, esse que por sua vez provavelmente nunca nem soube do convite. décadas depois, quando o recebi na minha casa na república, fiquei sem graça de perguntar sobre o improvável parentesco.

enquanto os convidados reunidos matavam as cervejas da geladeira com uma sede afegã, minha mãe fritava no tacho e servia de mão em mão deliciosos pasteis feitos por dona yoko, talentosa senhorinha japonesa que tinha enorme banca na célebre feira dominical do jardim santo antônio, osasco, ao lado da feira do rolo, onde se podia comprar de toca-fitas a trezoitão.

o cair da noite era a deixa pra por a mesa coberta por bonita toalha colorida, daquele tipo que não existe mais.

quando estávamos sentados à mesa esperando pela chegada da minha mãe com a estrela principal do almoço ouvimos seu grito gutural da cozinha. claro que nos levantamos pra checar o ocorrido no cômodo vizinho.

lá estava ela encostada na parede do canto, pálida tal como um cadáver, de frente para o forno aberto com a assadeira à vista com uma enorme ratazana repousando sobre os restos do bacalhau. enquanto a vizinha de garça a acudiu meu pai habilmente limpou a área do crime e em seguida conseguiu convencer todos a ir no grupo sergio, único rodízio de pizza possível na história da humanidade. dividimos o grupo entre o del rey do meu tio e o caminhão a gás do meu pai. eu fui com o velho.

aquele caminhãozinho era o maior barato.

maionese à parte

burger pra mim é brincadeira de fim de semana que fazia com meu velho. tanto que demorei pra conhecer o mc donald’s e quando finalmente fui à loja da doze de outubro a decepção foi inevitável, a ponto de emendar o programa com um sanduíche que gostava na lanchonete localizada no primeiro andar das lojas americanas, logo ao lado.

a partir da pré-adolescência a conexão paterna ocorria mais no trabalho que em qualquer outro lugar e as velhas tardes dos burger de domingo já tinham se transformado em meras lembranças. os amigos também mudaram um pouco, passaram do mc para burgers fininhos de chapa e aí o bairrismo predominava, cada um com seu cada qual. pessoalmente fui adicto do saudoso toninho & freitas até o começo dos anos 80. jamais esquecerei o gosto do queijo vagabundo queimado proporcionado pela chapa imunda. mas comecei a desistir do pequeno balcão quando o chapeiro mayonese faleceu. embora alguns ainda hoje garantam que o burger foi feito a partir de seus restos mortais por anos a fio, pra mim não era a mesma coisa, especialmente quando se transferiram pra limpinha esquina da frente.

algum tempo se passou e o cenário burgeiro se transformou um bocado, com discos altos que lembram, olha só, os que eu fazia com meu pai na infância, só que com bom queijo, etc.

mesmo assim amigos próximos ainda tem como seu burger preferido certa lanchonete com matriz na faria lima e filial em vinhedo, além de uma rede homônima que nem é tão boa, mas tá limpo. os sanduíches até que são bem montadinhos, especialmente se você desconsiderar que deveria se tratar de um burger.

um homem não deve esquecer de suas derrotas e não escondo de ninguém que morei por cinco tristes anos próximo à rua dos pinheiros, pré coxipsterização do pedaço.

os domingos à noite eram um tanto caídos e eu ia na unidade burgeira próxima à pedroso de moraes. ficava ali no canto do balcão entre a chapa e o banheiro, vendo os gols da rodada na tv 20 polegadas, enquanto mandava cheese salada com uma longui néti qualquer. pra derrota ser completa, só faltava a batatinha industrial que nunca pedia, porque pra tudo nessa vida tem um limite. e um dos caprichos do fracasso é te deixar com gostinho de quero mais no canto da boca suja com maionese cor de ranho.

a atual modinha de smash burgers mostra o homem como vítima de sua própria trajetória, que por sua vez pode passar a anos luz de algo parecido com evolução.

a coisa chegou ao cúmulo de termos lugares claramente inspirados no mc donalds. posso inclusive abusar de eufemismos pra falar mal de maneira peculiar: muito bom dentro do que se propõe é o meu preferido.

o milênio virou, muita coisa se passou e hoje moro em santa cecília, onde abriu um burguinho aqui na rua de cima, parecido com aquele pinheirense lá.

ainda não entrei, mas passo na frente com o cachorro pelo menos uma vez por dia. olho bem no fundo dos olhos do chapeiro, do único atendente e dos poucos clientes presentes. claro que também filmo o sanduíche, aparentemente a maionese está ok e precisam trocar o fornecedor de alface. a derrota burgeira cecilier em 2020 é contemplativa.

mas vai chegar o dia em que sentarei num dos 3 bancos em frente a chapa e encararei um cheese champignon direto do balde, vocês vão ver.

aos 50 chegarás?

pensamentos pouco nobres invadem minha cabeça a cada vez que me perguntam o que tirei de bom dessa pandemia. a real é que 2020 foi uma catástrofe e nos resta a impotente torcida de que 2021 não seja o desastre que vem se anunciando.

aparentemente uma camada mais rica da sociedade não parece se importar muito com com isso, dada a aglomeração vista em balneários de luxo espalhados no sul da bahia e também em outros paraísos tropicais, que são transformados em filiais de um inferno infeliz nessa época do ano. o negócio da playboyzada assintomática não é só deixar a doença para a modesta classe trabalhadora dos vilarejos sem a menor condição sanitária, mas também trazer a peste pras cidades mais urbanas, contagiando assim cozinheiras e motoristas. são os mercadores da morte da nova casa grande, fogo na senzala. se quiser conferir, tudo está ao alcance de um click no seu celular.

hoje completo 47 invernos e embora saiba que não envelheci tão bem quanto gostaria, meus problemas nunca pareceram tão pequenos.

tô cheio de bebida boa aqui em casa e já botei uma bela barriga de porco pra descongelar, com o propósito de fazer o último torresmo do ano.

meu cachorro tá lavando e logo vou buscá-lo. por razões de sarna negra, o bichinho tem que tomar um banho por semana, com um shampoo especial. espero que fique pronto antes da chuva que insiste em cair todo 31/12 desde antes do meu nascimento.

ainda não pendurei os quadros e nem todas plantas estão vivonas, mas espero que meu esforço seja suficiente para que tenham algo parecido com uma sobrevida, já que não tenho a menor ideia desde quando elas estão aqui.

a ideia inicial era a de oferecer pequenos jantares na nova residência, mas a pandemia fez com que esse plano fosse adiado. mas, como tenho bebidas espalhadas pelo apartamento inteiro, surgiu a necessidade de construir um singelo bar, o que farei, assim que possível.

fisicamente, ainda não desisti de abrir uma porta pra vender frango frito, tudo com os devidos e óbvios cuidados. plano de negócio feito, quem sabe em algum momento de 2021?

tenho 3 próximos livros bem encaminhados, mas não tenho ideia do lançamento de nenhum deles. enquanto isso, tento vender os 4 publicados, fracassos médios.

na verdade nada deu muito certo na vida. chego à meia idade com o pacote completo de problemas tais como diabetes e hipertensão com adicional de obesidade mórbida. esclerose múltipla acompanha. sobre as ocorrências financeiras desde que tive meu primeiro negócio, aos 13 anos, eu falo outra hora, quando estiver bem calmo e com bom humor.

mas não é isso que vai me derrubar. até porque a vida nas redes sociais vai quase bem e eventualmente paga alguma coisa via youtube e cursos, embora admita que ultimamente tem me faltado paciência com o amigo internauta.

então, meu amigo, minha amiga. talvez tenhamos uma meta em comum pro ano que se aproxima, a luta pela vida. de maneira que se você sobreviver a tudo isso, a grande dica pra 2021 é que não jogue essa oportunidade na lata de lixo. justifique sua existência, pelo menos para os seus.

seja a pessoa que seu cachorro acha que você é.

meu primo bruno

entre o fim dos anos 70 e começo da década seguinte do último século do milênio passado as noites de 24 de dezembro eram celebradas na casa da mãe dele, a tia zuleide, exímia cozinheira até hoje residente no agora velho sobrado erguido pelos nossos na vila ayrosa, osasco, logo depois da ponte dos remédios, um pouco antes da vila piauí, onde mora o jão do ratos.

seu aniversário era a desculpa oficial pra família se reunir. enquanto os mais velhos enchiam o caneco, os mais novos discutiam sobre o que interessa, esse tal de rock’n’roll. discussões acaloradas compensavam os presentes sem graça que ele ganhava, tais como shortinhos, meias e camisas. verdade seja dita, exatamente uma semana depois, as mesmas pessoas se reuniam na minha casa, com o pretexto de comemorar meu aniversário e ocorria o mesmíssimo constrangimento comigo. com a diferença que após a meia-noite eu ainda ouvia coisas do gênero ó, acabou! o ano acabou! seu aniversário foi no ano passado! hahahahaha! com uma entonação de voz usada tempos depois na final daquela copa lá por galvão bueno wines.

aliás, sobre futebol, não havia discussão, já que ele era tão são-paulino quanto eu e seu pai, o saudoso tio paulinho, falecido tragicamente no banheiro daquela mesma casa, com apenas 37 anos. é raro um homem durar na família, meu pai mesmo foi nessa após só 41 rápidos invernos.

saio do bar para entrar na história.

assim escreveria na minha lápide, se tivesse alcançado maior relevância. tema esse que não era discutido entre nós, primos capricornianos blindados pela inocência da certeza de que a hora do domínio do mundo logo viria, mera questão de tempo.

na real a noite inteira girava em torno dele tentando me convencer de que the beatles era maior que deep purple, o que eu ainda acho de um exagero descabido. mas, até onde me lembro, nunca saímos na mão.

pausa para momento de contemplação observando o ferrorama circular pela sala, enquanto esperávamos pelo corte do bolo feito com esmero e carinho pela confeiteira vizinha de muro, que também fazia o meu na semana seguinte. heróis da marvel costumavam estrelar a cobertura com tal brilho que dava até dó de cortar o bichinho.

pra molhar a güéla, guaraná fazia o papel da bebida mais chique do ano, já que o goró oficial bebido no cotidiano pós futebol de rua praticado na vila leopoldina sempre era tubaína, que também descia mó gostoso.

um pouco antes da meia-noite, íamos pra rua soltar balão, travessura impensável nos dias de hoje. e não estou falando que o ato é correto, mas apenas narrando a ocorrência.

quando o bastão do protagonismo da noite passava para o aniversariante do dia seguinte é que vinha a brochada geral. missa do galo pra cá, mesa com uma comida que deveria ter sido devorada às 21h pra lá e a predominância do sono na maior parte dos convidados. quem nasceu pra ser jc jamais terá a classe de george costanza, o cabeludo nunca dominou a arte de ter a manha de sair de cena no auge.

a reflexão de tanto tempo depois me faz admitir que, de fato, sir paul mccartney é ligeiramente mais hábil que roger glover, embora seja incapaz de segurar a linha de baixo de uma melodia de hard rock e também um romântico incorrigível.

mas quem não age com romantismo nessa época do ano não tem coração.

feliz aniversário, primo!

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