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Boteco do JB

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grupo tokyo

o diagnóstico que me colocou na condição de portador de esclerose múltipla fez com que reclamasse menos da vida e também que entendesse o porque de algumas coisas terem dado tão errado. saber onde começa minha limitação faz com que o instinto de autoproteção aumente de maneira considerável.

as antenas sempre estão ligadas para toda espécie de tratamento, o que não é sinônimo de paciência para os porras dos falsos samaritanos sommelliers do mal alheio, com suas infalíveis receitas de cbd e vitamina d.

mas, como se divertir é preciso, às vezes tento uns troços estranhos, mais pela zuêra que pela provável melhora em si.

o homem é doente e não há cura para si próprio.

o sintoma mais freqüente provocado pela doença que me abate é o da fadiga e isso somado à obesidade mórbida e ao fato de respirar pela boca às vezes me causa a sensação de ser uma bomba-relógio de preguiça prestes a explodir a qualquer momento, espalhando assim pílulas de naftalina psicodélica por todo infame elevado erguido pelo dr. paulo salim maluf.

daí que nos últimos meses as pernas começaram a falhar de maneira um tanto esquisita. sem dor, apenas uma dormência que aponta para hipotética desistência do único exercício que aprecio, a caminhada. não é sempre, os sintomas pintam meio que dia sim, dia não.

então nessa semana marquei uma consulta e quero dividir a experiência com vocês, já que a primeira sessão de acupuntura a gente nunca esquece.

ao chegar, recebi um pequeno questionário, com questões sobre dores, marca-passos e outros males que não me afligem. na hora bateu aquele sentimento de dúvida. será que deveria estar ali mesmo?

logo após entregar o papel, fui encaminhado a uma pequena sala com nome de cidade japonesa que tenho muita vontade em conhecer. lá uma senhora pergunta como está meu intestino e se sinto dor na coluna cervical. se antevisse sua cara de decepção, inventaria umas lorotas. mas tentei animá-la falando sobre a em, no que ela me olhou como eu fosse um et. por fim, contei sobre o fantástico caso das sonolentas pernas rebeldes. ela perguntou como estavam naquele exato momento e disse que a normalidade reinava absoluta enquanto batíamos o frustrante papo. respirou fundo, pediu pra me deitar na maca disposta no meio da sala tokyo e me informou que já voltava, ela.

voltou armada com generosa porção de agulhas e enquanto escutava o som ambiente com uma espécie de richard clayderman executando dire straits, ela espetou diferentes membros do meu corpo, tais como pés, pança, nunca, ouvidos e a cabeça que deve ter me deixado com aspecto de figurinista de hellraiser, o que não pude conferir pelo motivo de ter ficado sem graça em pedir um espelhinho.

sai de cena a senhora e entra na sala uma simpática massagista cujo toque deixava a impressão de que queria arrancar pra fora da galáxia meus braços e pernas. também pergunta sobre intestino e coluna, ela. após decepcioná-la com a resposta, pergunto se é normal a massagem doer. sua resposta é que shiatsu é pra doer mesmo, que tira as energias ruins do corpo, que hoje não é dia de massagem relaxante, etc. me resumi à óbvia insignificância, não abri com ela que achava que shiatsu era nome de raça de gato e suportei silenciosamente as duas horas seguintes. homem não chora, assim dizia meu saudoso pai.

sai de cena a massagista e entra na tokyo um senhor alto e bem humorado que se apresenta como quiroprata, enquanto clayderman se empolga no solo de piano de interessante versão de easy lover, sucesso oitentista de phil collins. me colocou em posições em que nunca estive antes e provocou estalos que não pensei que fossem possíveis, enquanto gargalhava em voz alta, o homem. admito que essa foi a melhor hora não só da sessão, como do dia. e se vivêssemos somente das melhores horas do dia? será que daríamos seu devido valor, sem a sonolenta curva vonneguttiana que guia nossos destinos?

todo espetáculo pede por um grande final e a roteirista do consultório sabe das coisas. a senhora volta e sussurra algo que entendi como vou buscar seu chá e já volto.

ora, bolas. se tem algo que aprecio é boa bebida e nessa hora me empolguei. sentei no banquinho na frente da maca e imaginei nossa heroína na frente de um pequeno caldeirão temperando água quente com ervas orgânicas e especiarias contrabandeadas.

10 minutos ela volta à sala tokyo sem nenhuma xícara à mão e pede pra eu me deitar novamente na maca. diz que agora é a hora de alinhar meus chacras. não basta não entender o que a outra parte diz, tenho que interpretar erroneamente. eu e minha incorrigível surdez de velha da praça é nossa.

com um objeto que não pude identificar em suas mãos, ela se movimentou ao meu redor de uma maneira que me remeteu a exótico curandeirismo, pelo menos foi essa a minha grosseira percepção.

tudo isso demorou um pouco mais de 3 horas. luzes acesas e a protagonista da história disse que não tenho nenhum problema físico, mas sim energético. ainda fiz papel de bandido de mim mesmo.

na saída passei por um guichê à esquerda e paguei o cachê a um senhor que falou domingo vai dar covas, como se fosse mestre bidu.

se me arrependi em ter ido? de maneira alguma. salve, salve as pequenas diversões que a vida nos proporciona. nessa semana inclusive devo procurar uma taróloga. desde que joguei cartas com plínio marcos, acho tarô o maior barato.

focaccia quentinha

acho que nunca conseguirei transferir o título de eleitor, embora a vila leopoldina da minha infância tenha deixado de existir fisicamente há décadas, para habitar apenas as memórias que levarei para o túmulo.

de maneira que sigo votando no sesi da rua carlos weber de 2 em 2 anos, sempre torcendo pela existência de segundo turno, pra vivenciar em dobro a experiência antropológica.

necessária a lembrança de que o sesi era um colégio público acessível apenas para quem tinha melhor condição financeira ou influência moral no pedaço, de maneira que as portas do colégio nunca se abriram pra mim.

a escola onde estudei não existe mais. tornou-se, veja só, um centro de treinamento militar ou algo que o valha. na eleição passada fiz questão de passar na frente, dessa vez não foi possível.

meu rolê ideal de votação inclui fazer baldeação do metrô para o trem e aportar na estação localizada na esquina da longa rua guaipá – onde meu pai teve uma fantástica fábrica de lingüiças – com a imponente avenida imperatriz leopoldina, verdadeiro ícone oitentista entre nós, os bucheiros da época.

infelizmente um surto de esclerose múltipla dificultou um bocado a locomoção, a ponto de abortar a parte da missão que se refere a condução pública. não ia rolar a caminhada sob a atual sensação de ter uma imensa pança sobre duas pernas de pau. privilegiado que sou, ainda bem que tinha verba para o taxi.

se há dois anos a impressão foi a de que a rua carlos weber moemizou, nessa semana constatei que nada pode ser tão ruim a ponto de não piorar. me senti dentro de jurerê internacional, só que sem a parte da praia. aliás, nunca respirei tão mal no pedaço.

o pipoqueiro acrescentou chips de batata ao repertório do carrinho, mas não havia interessados em nenhum de seus produtos.

a seção eleitoral tava tranqüila e ignorei silenciosamente cada olhada e sussurros debochados apontando para minhas vestimentas vermelhas, máscara inclusive. curioso que o bordado no meu boné apontava uma zoeira escrita o jeito é jango!, mas o modo de vida cotidiano se tornou o túmulo da ironia e não sou eu que vou explicar uma piada que ninguém quer escutar.

papel cumprido na festa da democracia, fui ao restaurante italiano que gosto, que embora não seja mais tão novo, sempre será jovem para minhas referências. comi lulas frescas com tomate picante, delicioso joelho de porco e o único mil folhas possível nessa grande farsa gastronômica chamada são paulo.

fui embora no fim de tarde esquecendo a bolsa preferida, que o dono do lugar – que também é meu amigo – teve a imensa gentileza de me devolver no dia seguinte, com a carinhosa companhia de uma focaccia quentinha. e embora saiba que tecnicamente o pão deve ser repousado antes de devorado, pães quentinhos me comovem feito um pobre diabo.

que a possibilidade do conforto da boa mesa nos dê energia pra enfrentar o 7 a 1 de cada dia.

sarna negra

ainda não me acostumei direito com as plantas. é como se o local onde moro a elas pertencesse. respeitoso e cerimonioso que sou, vou aos poucos com a relação, essa que por sua vez vai bem. baby steps, como diria aquela velha personagem de bill murray. inclusive uma das que estava pra morrer começa a dar sinais de ressurreição, tal como lázaro. será que minha principal tarefa na meia idade será estudar o delicado elo entre a vida e a morte de plantas de apartamento?

quando petisco começou a apresentar certo inchaço em volta de seu olho direito alguns veterinários me alertaram sobre a possibilidade dele ter reação alérgica a alguma planta. sem a menor base técnica, usei o instinto para mudar de posição o que achava que oferecia algum risco, mas o dog não melhorou. o que fez com que o levasse ao seu veterinário, lá no emblemático edifício copan.

pomada pro lixo, remédio paliativo pra dentro e exames realizados num laboratório perto do parque da água branca, onde o dog tocou o terror.

os resultados chegaram na semana passada, após um mês de espera. as suspeitas de alergia e dermatite foram prontamente descartadas.

a sarna negra exigirá cuidado especial com o bichinho até o fim de sua vida, tomando banho com shampoo especial e também uma ou duas drogas que, dependendo da evolução da doença, podem atingir seu fígado de maneira pouco agradável.

além do óbvio cuidado clínico, é preciso carinho e atenção, já que o ideal é que o paciente em questão não passe por situações de stress, para o sua imunidade não baixar. eu estou fazendo minha parte, creio que as plantas também trabalharão de maneira positiva e eficiente.

nesse fim de semana fui a fazenda de uma amiga que realiza um trabalho lindo vendendo ervas orgânicas, flores comestíveis e mais uma par de coisas, para visitar seus pais, pugo e puga. deborah, filha do lendário john orr, amiga e dona do negócio localizado na agradável cidade de cerquilho, foi quem me deu o animal.

outro amigo, grande cozinheiro japonês, foi companheiro nessa missão. profissional estudioso, fez sushi de wagyu com boa carne de uma fazenda vizinha, chashu com porco comprado no açougue da vizinhança e um esplêndido mexilhão cozido na gordura da mesma carne do bosque belo. acompanho o trampo de tadashi shiraishi há bastante tempo e digo com segurança que ele despontará como um dos grandes representantes da boa mesa nipônica no brasil. o único risco de dar ruim, é se ele deixar se afetar pelo famigerado cenário gastronômico brazileiro, mas sinto que dessa vez ele está no caminho certo.

após 2 anos, finalmente peguei o pedigree do cãozinho. pra minha surpresa, descobri que ele, embora tenha vindo de outro criador, é primo dos falecidos shoyu e negroni. e isso me comoveu feito o diabo.

shoyu, negroni, gillan e melissa. carrego comigo a lembrança de momentos passados com meus saudosos cachorros e arrisco dizer que isso foi o ponto alto da minha vida. cuidar de um cachorro é bem legal.

hoje é dia de finados e é inevitável que também me recorde dos meus pais, mas isso é assunto pra outra hora. o que quero pontuar aqui é que celebrar uma vida de ciclo fechado pode ser mais saudável que a inevitável lamentação da morte.

e também, é claro, festejar o que ainda se está vivo. falando nisso, agora peço licença para regar as plantas e em seguida passear com petisco. talvez iremos caminhar no elevado, que abriu novamente para pedestres ontem. será que vai virar parque ou vão botar pra baixo essa aberração? bem, atualmente a melhor maneira de aproveita-lo é em caminhadas, exercício esse que tolero e faz bem para as condições clínicas tanto minha quanto de petisco.

mais tarde celebrarei a semana internacional do jerez no novo endereço da cassia campos e daniela bravin, duas sommellièrs que fazem um trampo bacana na cidade não é de hoje.

será que jerez orna com sushi? acho que sim, apostaria nesse casamento. fiz a associação porque ontem foi dia internacional do sushi.

o ideal é que celebremos a boa mesa todos os dias, na medida em que nossos espíritos e bolsos puderem alcançar.

feliz dia de finados, camaradas.

o regador azul

das 37 plantas, deve ter morrido 4 ou 5, acho eu. admito a incompetência em distinguir a diferença entre vida e morte nesse universo, mas sigo as regando religiosamente dia sim, dia não. imagino que mal não deva fazer, apesar de desconfiar que algumas delas morreram por excesso d’água. toda vida é única e merece atenção especial, mas sei que talvez elas tenham morrido pela absoluta falta de interesse provocada pelo meu nocivo egoísmo. gosto de imaginar que as sobreviventes estejam transando a natureza morta tal como se testemunhassem um estranho velório. o que me remete a madrugada de 27 de julho de 1997, quando uma boa alma familiar acendeu incensos pra mascarar o cheiro que exalava do cadáver daquele que um dia foi meu saudoso pai, no velório celebrado no cemitério da lapa, onde minha bondosa mãe também foi enterrada tantos anos depois. essas e outras lembranças me assombram enquanto rego as plantas vivas e mortas, dia sim, dia não.

após usar por um mês uma jarra de suco que tinha aqui no apartamento finalmente comprei bonito regador azul por 19,90, numa loja na alameda barros que vende produtos para plantas e cães. enciumado por não ter ganho nenhum biscoitinho, o pug petisco fez um buraco bem na ponta do objeto, o que faz com que saia água por mais lugares que o esperado durante a tarefa que acaba por molhar paredes, taco e móveis ao redor do alvo pretendido. é muito buraco pra pouca planta. entendo o lado canino e desde então não deixo mais faltar quitutes para o pequeno que inclusive se recupera de uma lamentável dermatite que a princípio pensei ter sido causada por alguma das verdes, mas os exames apontaram para outros caminhos.

é natural que o apartamento antigo peça por um outro reparo, ainda mais quando invadido por esse intruso que vos escreve. a real é que o lugar ainda não é meu, tem tempo pra tudo.

mas o tempo do portador de esclerose múltipla é outro. além de algumas lâmpadas que precisam ser trocadas, um pequeno ajuste no simpático fogão que também já tava aqui – o meu, que mais parecia uma nave espacial, foi doado a uma senhora que ficou muito feliz da vida – e mais pitoresca questão torneiral a ser resolvida, ainda não tirei os quadros do plástico bolha. todo santo dia olho pra eles e imagino os seus lugares nos cantos das paredes. sinto que só quando os pendurar me sentirei como legítimo morador desse belo apartamento em santa cecília.

bairro esse que por sua vez me comove feito o diabo. dos poucos lugares na cidade que cultivam hábitos de vila, mas ao mesmo tempo pertence ao grande centro. tenho o melhor dos dois lados ao alcance dos meus cansados pés que aos poucos voltam a pisar firme, após duas recentes quedas que se foram obviamente lamentáveis por um lado, por outro me proporcionaram conhecer pessoas deveras decentes na santa casa da misericórdia, que fica entre a morada atual e a antiga, na vizinha vila buarque. saber que estou ao lado do hospital público que tão bem me acolheu quando tanto precisava me causa um bem estar danado.

embora meus últimos trabalhos físicos tenham rendido bons frutos a saída deles não foi nenhum pouco satisfatória para o lado mais fraco – eu, no caso – e no momento tento tocar alguns projetos internéticos. a ideia de ganhar algum gerando conteúdo não é nova e, se não der certo, tenho prontinho na cuca o plano da porta de frango frito. o sangue do comércio ainda pulsa nas minhas veias e não seria problema retornar para as ruas. voltar a trabalhar pros outros, só se me identificar de maneira monstra com a probosta do suposto empregador.

por enquanto, vou trabalhando aqui de casa. uia! já tô até chamando de casa! que bom, que alívio. salve, salve o ato falho de cada dia.

acho que semana que vem pendurarei alguns quadros. tenho a impressão de que eles não se incomodarão, muito pelo contrário.

comida de verdade

claro que todos queremos comida de boa procedência e que não seja ultraprocessada. quem se opõe a isso é ignorante ou tem algum interesse envolvido, o que é muito pior.

mas infelizmente ninguém está mais interessado no cenário que a indústria alimentícia. pra entender a trajetória da evolução dos hábitos alimentares basta seguir o caminho do dinheiro.

tem que parar com essa história de que comida saudável no brasil é privilégio de poucos.

se procurar por um mero potinho de iogurte em qualquer gôndola de supermercado se prepare pra um trilhão de informações sobre lactoses e porcentagens que passam a milhas de distância do produto básico que você queria, mas dificilmente estará à disposição. quer dizer, no mínimo te dará um trampo pra achar o danado. a indústria não facilita, apenas te cobra mais e mais e cada vez mais.

país de primeiro mundo é aquele no qual a boa mesa está ao alcance de todos, o que tá longe de ocorrer por essas bandas onde é tão difícil se informar.

e onde não há informação, há confusão.

quando a militância cirandeira fala em comida de verdade ela tá falando consigo mesma, não com o grosso da população, que se ouvir isso, vai rir, pedir licença e descongelar no micro-ondas aquela bandeja de lasanha da sadia que é o que tem pra hoje e inclusive o chef recomendou na televisão.

tal atitude me remete a quem ainda insiste na expressão cerveja de verdade, como se o mar de botequins espalhados nesse pobre país de dimensão continental tivesse acesso a isso. me dê minha brahma logo e me deixe em paz, assim responderá o trabalhador se um barbudo de coque lhe oferecer uma ipa.

enquanto não entendermos que comunicação não é o que se fala, mas sim o que se ouve, a indústria alimentícia seguirá cagando na cabeça de gente bem intencionada, porém ingênua.

e hoje, mais que nunca, não é hora de ser ingênuo. cuidado! há um genocida na porta principal!

então, na próxima vez que você pensar em apresentar algo legal a alguém, certifique-se antes se sua linguagem o aproximará ou o afastará dos bons hábitos. até porque, pior das hipóteses, ele pode ficar com raiva tanto de você quanto daquela bonita batata doce roxa que não tem nada a ver com isso.

porque a vida é aquilo que ocorre fora da ecobag exposta no ombro do militante de facebook naquela feirinha orgânica tão distante de barueri.

lobo guará

passei boa parte dos anos 80 do último milênio em barracas de feira livre, onde vendia frangos e miúdos de boi. as famílias eram maiores e se abasteciam pra valer nas ruas. até banca com tudo quanto tipo de feijão tinha. carioquinha não tinha vez na rua e o tipo de batata era escolhido conforme a sazonalidade. se tem uma coisa que a feira respeitava era a época das coisa tudo.

fora da feira, carne se comprava no açougue, pão na padaria e secos & molhados na quitanda. mercados municipais? existiam pra abastecer a população, num universo muito distante do atual cenário tão parecido com praças de alimentação. aliás, shopping era artigo raro. roupa se comprava na rua do arouche, doze de outubro, voluntários da pátria, teodoro sampaio, dependendo da região onde se morava.

cinema era na rua. no centro (que não era dividido como novo e velho, mas chamado pelos lapeanos de cidade), na região da paulista ou mesmo em pequenas salas espalhadas pelos bairros.

cada um com seu cada qual e tinha pra todo mundo.

aí começou a abrir as grandes redes de supermercado, uma atrás da outra. e o eixo do planeta entortou quando eles passaram a oferecer produtos dos pequenos comerciantes em bandejinhas assépticas do tamanho das novas famílias.

num piscar de olhos o cidadão médio passou a comprar pães, carnes, hortifruti, produtos de limpeza e muito mais no mesmo lugar. jogo de cama? televisão? algo ainda mais fora da curva cotidiana? o supermercado também tem. inclusive te obriga a entrar na loja pelo showroom de bugigangas que você nem imaginava comprar, tais como a máquina de espresso com cápsulas ou uma torradeira. tudo isso em 12 x sem juros. se seu cartão tiver estourado, abrem outro pra ti rapidamente, sem problemas. não precisa de dinheiro pra ser feliz, o que importa é o crédito. foda-se como vai pagar depois, o paraíso supérfluo tem seu preço. por que não levar também aquela churrasqueira moderna que você nunca aprenderá a usar, mas é a oferta do dia? tudo para seu mais completo conforto, aproveite que o carro tá próximo, numa boa vaga do estacionamento. na segunda-feira o terapeuta tenta te explicar a razão pela qual te causa tamanha excitação a proximidade entre automóvel e o portal do consumo.

enquanto isso, o pequeno comércio correu inutilmente atrás do prejuízo. as barracas de feira cederam aos cartões de crébito, abriram mão de suas especialidades para aumentar a grade de produtos oferecidos e até as tais bandejinhas tem lugar garantido no balcão. saudosas bancas de jornal tornaram-se vendedoras de tudo o quanto é tipo de treco, cinemas de rua migraram para outros segmentos comerciais e as panificadoras passaram a se comportar como pequenos graals urbanos, onde se acha quase tudo, menos a porra do bom pão.

com bares e restaurantes, a corrida foi outra. não precisou de hipermercado, a mera concorrência fez com que se a cena se destruísse sozinha, autoimplosão. o italiano médio deixou de cuidar do seu nhoque pra servir a itália inteira em uma página do cardápio. o autointitulado contemporâneo desfocou do produto final pra enfeitar as alegorias e adereços que poderiam justificar o saco de dinheiro cobrado se a comida fosse boa.

o cenário gastronômico passou por processo de parreirização. comida gostosa ganhou papel parecido com o do gol na copa de 94, mero detalhe. inclusive na maior parte dos endereços mais novos, tão arrogantes quanto ruins. aos jovens chefs, só interessa a sustentabilidade. pra que aprender a fazer pão, se pode comprar um moinho? e não precisa aprender a cozinhar cenoura, basta comprar no instituto feira livre ou naquele pequeno produtor que o sommellier gosta de chamar de seu. a bem afortunada juventude engajada compra e endossa tudo isso e muito mais. no final do jantar cirandeiro, um brinde com aquele vinho natural que estragou no navio coroa o jantar, numa cena tão parecida com os tapinhas nas costas dados pelos publicitários oitentistas. aliás, autorreferência e premiações nas quais o povo da área vota em si mesmo é outro fator em comum. com o diferencial que agora o instagramer que manja mais de trocadilhos que de comida abençoa o circo.

mas agora a quarentena zerou o jogo. temos na mão a oportunidade de fazer a coisa direito. até porque temos mais parâmetro e um vendaval de informações ao alcance da mão.

quem muito faz, nada faz direito. se atente aos pequenos lugares que começarão a pipocar pelas ruas, cada um com suas poucas especialidades.

os anos 80 não foram perfeitos e jamais voltarão. mas já passou da hora de voltarmos às nossas bases.

tenha olhos de garimpeiro, prestigie quem é bom de fato. mas cuidado com os xavecos! há um lobo guará na porta principal!

obituário ambulante

até agora são 4 livros publicados e tem pelo menos mais 2 a caminho. natural que a pandemia tenha atrasado todos nossos planos e convém esperar pelo momento mais adequado para seguir com eles.

costumo brincar dizendo que lançar livros não é mais que mera desculpinha pra visitar belo horizonte, cidade detentora de botecos que tanto prezo.

soube que alguns deles passam por um aperto danado. o mais justo é que lugares como o fabuloso bar do zezé, no barreiro de baixo, frequentado por esse que vos escreve desde 2004, sejam tombados como patrimônio imaterial da cidade. mas bem sabemos que políticos tem outras prioridades, de maneira que pouco nos resta além da torcida.

torcida essa que por vezes não basta. nessa semana mesmo um dos meus lugares preferidos na cidade anunciou nas redes sociais o fim de suas atividades.

localizada na boêmia santa tereza, a bitaca da leste só não fazia chover no seu minúsculo espaço de menos de 30 metros. tinha bom chopp próprio, curava queijos, produzia os próprios picles e lingüiças deliciosas, além de um torresmo que ficará na história.

uma discreta vitrola no canto esquerdo ao lado da porta com boa seleção de vinis ornava com as paradas tudo. optar por uma das poucas mesas externas também era boa pedida, convite ao ato de contemplação que só os bebedores mais clássicos compreendem.

embora o chef citado na minha postagem anterior deixe a entender nas suas mídias que é mais inteligente e trabalhador que a maior parte dos seus colegas, o mundo real nos mostra bastante gente talentosa e empreendedora com dificuldades que vão muito além da pandemia festiva comemorada nas férias no méxico.

além da bitaca da leste, senti muito também o fechamento do el cid, em copacabana, onde tive fins de noite memoráveis, comendo batata portuguesa e bebendo uísque. aliás, espero que façam bom proveito da garrafa que sempre mantinha por lá.

a real é que a falência deixou de ser estatística para ganhar nomes. de bares periféricos até os restaurantes mais luxuosos, muitos de nós sentimos pra cacete a perda de comércios próximos que não resistiram a essa crise sem precedentes.

mas a relação afetiva resiste e sobrevive nas nossas mentes e corações. lugares como a bitaca da leste, el cid e pasv jamais sairão da minha cabeça. se morte é esquecimento, esses e outros comércios devem seguir vivões e sempre lembrados na memória boêmia de todos bebuns de todas cidades.

que fique registrado aqui meus sinceros sentimentos a todas famílias que de alguma forma perderam com tantos fechamentos espalhados por todo país. torço pra que arrumem um jeito de dar a tal volta por cima, tão sabiamente celebrada por paulo vanzolini.

agora peço licença pra voltar ao livro que ainda não desisti de publicar nesse ano. a data certa de lançamento ainda não sei, mas já sei que a volta a belo horizonte será triste pra burro sem a bitaca da leste.

e imploro para que não me tirem o zezé, plmdds.

dia de festa

ainda não pendurei o restante dos quadros, mas sigo olhando pra eles todos dias. já o som valvulado está rodando, impressionante como o volume de boa música preenche e muda o ambiente do apartamento, no melhor sentido possível.

penso em realizar pequenos jantares pra bancar meu sustento, mas o atual quadro pandêmico faz com que não me sinta seguro pra esse tipo de ação.

como perdi meus trampos, pela primeira vez na vida considero a possibilidade de levar mais a sério a ideia de viver de criação de conteúdo. canal mais atualizado, infoproduto em vista, livro novo o mais breve possível na praça, etc.

tem qui tentá u dibri luciano! – assim dizia a patada atômica ao saudoso velho locutor do canal do esporte. como minha posição sempre foi no gol, é natural que me atrapalhe um tanto, mas o primeiro aluguel da nova moradia está pago. já o próximo não sei de onde tirarei o dinheiro. baby steps, ó eu citando personagem de bill murray de novo. é na tvs que tem uma figurinista que atende pelo nome de bel murray? adoro esse trocadilho.

e assim sobrevivo, entre trapaças e tropeços sofridos. falar em felicidade seria de um exagero monumental, além da falta de empatia, mas vou levando.

enquanto isso, do outro lado da cidade, quem esbanjou felicidade numa mídia social foi o aniversariante do dia, numa euforia virtual digna de todos os santos.

bom cozinheiro e dono de uma penca de restaurantes na mesma rua, rodolfo é tido como uma espécie de walter mancini do itaim bibi. a comida servida na nave mãe é meio pesadona, mas sua endinheirada clientela ama e quer mais. ao lado, bem sucedida casa de embutidos que prepara gostosa burrata e serve um curioso varal de presunto cru.

o meu preferido é o de frutos do mar, apesar do ambiente engomado que, verdade seja dita, é a cara do bairro. na frente, uma pizzaria, em torno abriu também espanhol, parrilla, hamburgueria e até um francês. em comum entre todos esses, desleixo com serviço de bebidas (vinho, cocktail, cerveja), reflexo de uma escola de restauração que não deveria existir mais. arrogância ou mera incompetência? não importa. na famiglia nino todos são felizes, da freguesia ao chef. inclusive percorrem boatos que jantares caríssimos foram celebrados naquele salão no auge da quarentena, o que espero de coração que seja mentira.

essa crise maldita provocou alguns fechamentos e, entre eles, um lugar muito querido onde rodolfo já trabalhou. aliás, o conheci lá, quando ele servia desde uma lagosta maravilhosa até o pior carbonara da cidade. enquanto a tappo trattoria foi pra laje do bistrô dos sócios originais, rodolfo se orgulha por ter comprado o antigo ponto. felicidade em empreender tanto na maior crise sanitária dos últimos 100 anos, na qual boa parte da população não se espanta com o horror normalizado. mais de 125000 pessoas morreram porque tinham que morrer, assim diria o presidente da república.

embora seja de se admirar a manutenção e ampliação do grupo restaurador, seria interessante saber como as centenas de cozinheiros e garçons se locomovem para os locais de trabalho, já que não há ambiente mais insalubre que uma condução lotada. será que as equipes compartilham do mesmo sentimento de felicidade do chef?

bem, aqui do meu lado, com muito cuidado, comecei a sair também. não sei porque me sinto na obrigação de reportar os ocorridos nessa tão insegura reabertura comercial. aos poucos pretendo contar no blog o que vejo, mas adianto que até agora constatei um cenário de desesperança que passa há léguas e léguas de distância do condado de todos os santos.

mas pelo menos tem alguém feliz, né?

feliz aniversário e muitos anos de vida, rodolfo de santis. 125000 vidas perdidas o saúdam.

força, guerreiro!

o vale da sombra da morte

encerrei o texto anterior mostrando certa preocupação com prováveis baixas verdes provocadas pelo meu pequeno cachorro. desde então recebo mensagens diárias me informando sobre plantas tóxicas que podem se vingar cruelmente das investidas caninas. a morte é uma via de mão dupla na relação entre cães e plantas.

até onde vale a pena manter uma relação tóxica? e se as partes envolvidas não tiverem consciência do mal que podem fazer uma a outra, apenas pelo inevitável movimento de seguir sua natureza?

até o momento desse escrito não tivemos acidentes fatais, embora eu tenha derrubado um vaso e petisco outro. tem também algo que lembra um pinheirinho com pouca inclinação ao cristianismo, já que aparentemente ele não mostra a mínima vontade de se apresentar vivão no natal.

rego as plantas em dias alternados e sempre levo um lero com o dog, o alertando sobre o perigo do vale da sombra da morte que a planta pode trazer, no que ele responde com lambidas e uma ou outra latida. que saiamos todos vivos dessa.

pendurei 3 ou 4 quadros. seguindo nesse ritmo, acabarei a função em 3 ou 4 meses. e nessa semana consegui instalar a net. em vez de escrever mais, dediquei tempo a assistir cobra kai, uma espécie de malhação com caratê que traz várias referências oitentistas toscas que adoro, com direito a muito rock farofa.

meu livro de receitas? o revisei e estou bem satisfeito com o caminho tomado. e decidi que ele terá mais um capítulo, explicando o porque do atraso, com mais receitas crônicas. nessa semana trabalharei nisso e as ilustrações feitas pelo amigo binho miranda – que fez o design dos meus 2 últimos sites, o rótulo da minha cerveja e a comunicação visual da página do canal no scarfacebook – estão lindas. só pelos desenhos, o livro já vale, garanto. de brinde, as receitas crônicas, sincera homenagem à saudosa amiga nina horta.

a mesa de trabalho está pronta e tenho em meus planos não largar esse blog que, veja só, já teve atualização diária num passado não tão distante.

que você e os seus estejam bem, pois eu estou tentando me virar.

beijos e até bem logo.

37

minha casa tinha duas varandas, de onde se avistava desde edifícios históricos até a praça da república, embora o cep entregasse que o logradouro se localizava na vila buarque.

os cinco anos morados renderam livros, festas e até um eficiente bar no quarto, onde podia beber a apenas dois passos da minha cama.

a atual crise e certa intolerância anunciaram a necessidade de me deslocar no meio da quarentena provocada pela pandemia, o que causou preocupação, já que faço parte do grupo de risco pois, entre outras coisas, sou obeso e sofro de doença degenerativa.

após muito garimpo e bem vinda generosidade de uma boa alma, me mudei para santa cecília, bairro vizinho.

como o apartamento é um pouco menor e já tinha mobília, doei quase todos meus móveis. o que foi bem bom, poucas coisas me deixam mais leve que o desapego.

embora aqui não tenha varanda, o sol da manhã bate direto na minha cama, o que faz especialmente bem pra esse portador de esclerose múltipla que vos escreve.

ou melhor, até tem uma pequena varanda, habitada por plantas. acabei de aguar essas e outras. aproveitei pra contar, no total são 37 vasos pequenos, médios e grandes. não sei o nome de nenhuma delas.

nos anos 80, quando morava na rua lauro müller, vila hamburguesa, subdistrito lapeano, cheguei a ter experiência de aproximadamente 3 anos com uma samambaia, que era regada 3 vezes por semana até o dia que, ao chegar do colégio, flagrei melissa, minha saudosa pastora alemã, com o resto da planta na boca. nunca mais cuidei de outra. agora tenho 37 plantas e um pug que as olha com cobiça destruidora, a primeira missão da mudança é administrar essa parada.

ao contrário da locação anterior, aqui estou cercado por luz e boa ventilação, o que faz um bem danado para alguém com a condição clínica que cito pela terceira vez nesse texto.

o bar no quarto já era, mas sei exatamente onde montar o novo e quando entrar algum dinheiro, assim o farei.

ainda não tenho internet, mas aprendi a usar o aparelho celular como roteador e, ainda mais importante, consegui lugar deveras agradável pra a mesa de trabalho. enquanto escrevo essas parcas linhas, atrás de mim o elevado do dr paulo grita. mais são paulo na veia, impossível.

os quadros ainda não pendurei, mas olho pra eles diariamente e fico imaginando as posições mais adequadas para as novas paredes.

trouxe também discos e som valvulado, que deve ser instalado por um amigo em algum momento nas próximas semanas.

já faz tempo que não tenho imóvel próprio e, como pode ver, tenho dificuldade em lidar com mudanças. tanto que deixei de dar a necessária atenção a esse sítio, que hoje é uma das minhas moradas preferidas.

baby steps <= assim dizia bill murray num excelente filme lançado em 1991. vamos aos poucos, digo eu. a meta de hoje é voltar a mexer na produção do livro que deveria ter sido lançado em junho, antes da pandemia adiar esse e tantos outros planos.

foi mal o sumiço, mas é um prazer estar de volta. nessa semana pelo menos mais um post terá, se forças ocultas não me impedirem.

agora preciso ir, pra tirar petisco do caminho da tentação vegana pela qual passa. não me perdoarei se for responsável por mais mortes verdes.

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