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Boteco do JB

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Month: April 2020 (page 2 of 3)

admirável mundo novo?

o pior ainda está por vir.

e a sensação de impotência é enorme, inevitável. estamos a um passo de uma tragédia dantesca, que por aqui deve ser ainda maior, pois além de vivermos sob gritante desigualdade social, somos governados por um genocida.

tentar ser produtivo ou buscar sinais de normalidade nesse cenário é absolutamente inútil.

não dorme direito? ta com dificuldade em se concentrar pra qualquer coisa? se atrasa para os poucos compromissos que ainda sobraram? ótimo, sinal de que você não é um psicopata.

guerras e pandemias reconfiguram o mundo e a verdade é que não sabemos quanto tempo levará pra sabermos o que é algo próximo do novo normal. 1 ano? 2?

então, se você não é um profissional dos serviços tidos como essenciais, lhe resta a quietude.

cuide dos seus, leia um livro, veja uma série, cozinhe, ajude as poucas portas que se mantém abertas não fechar de vez, brinque com cachorros, aproveite de alguma forma a nova onda de solidariedade que nos cerca.

e siga sendo boa pessoa, esse talvez seja o maior desafio a ser vencido após o apocalipse. porque o homem não é bom e não precisa muito pra chegar a tal conclusão, basta acompanhar a linha da história. seja o contraponto da natureza humana.

e, se puder, fica em casa.

a barista que encantava cachorros

hoje pode soar estranho falar que morei em pinheiros por cinco anos consecutivos, mas a verdade que a experiência não foi muito ruim.

assim como no centro, naquela área também tem boas cafeterias onde se pode levar cachorros e naquela época cuidava de dois pugs pretos, shoyu e negroni.

eu sempre fui sozinho e há muito tempo converso com bichinhos. embora tome certo cuidado pra não ser tomado como louco, é inevitável que às vezes me flagrem.

pois foi num fim de tarde, meu horário preferido pra beber café, que essa moça me flagrou no quintal de uma cafeteria próximo ao saudoso largo da batata – esse que nem existe mais, graças ao prefeito e engenheiro de merda paulo salim maluf – trocando ideia com os cachorros. não só apoiou a iniciativa, como emendou outro papo com os bichinhos. tal situação fez com que adquirisse enorme simpatia por ela. trocamos olhar de cumplicidade e nos despedimos.

algum tempo já tinha se passado quando soube que uma pequena cafeteria tinha inaugurado a 6 ou 7 quadras pra cima de onde morava. pois peguei os bichinhos e fui lá conferir a parada.

foi num minúsculo espaço de menos de 2 metros quadrados em que reencontrei a barista que fala com cachorros, esses que a reconheceram de imediato. além de encantar animais, ela também solta aquele espresso de alto nível tão difícil de achar na cidade.

sem espaço para a freguesia dentro da loja, as pessoas se acomodam no banco da frente ou até em pé na calçada, de boa e sem reclamar. civilização é isso aí.

me tornei freguês e até hoje me desloco ao bairro por simpatia e admiração por trabalho tão bem feito. isso até antes da quarentena, claro.

nessa semana falei sobre a provável mudança de características dos negócios restauradores, pra quando a quarentena passar. a minha aposta é a da volta da simplicidade. cada vez mais teremos portas para a rua, com baixo custo e bons produtos. vamos tomar ocupar as calçadas, é esse o caminho.

flavia pogliani se adiantou ao se reinventar antes de dar merda. nem foi por necessidade, já que ela poderia estar bem estabelecida em seu real segmento, cuja remuneração é mais generosa. foi por bom gosto e inteligência mesmo. e o momento de hoje beneficiará aqueles que souberem usar melhor a cuca.

acabou que ela se tornou minha chegada, inclusive gravamos juntos um vídeo que considero como um dos melhores do meu canal, embora tantos não tenham entendido a ironia. a loja já tava fechando e foi tudo no improviso, sem roteiro, nada. assim que reabrir, darei um jeito de levar petisco pra ela conhecer e trocar uma ideia. quem sabe até outra gravação?

admito que eu também considero a oportunidade de abrir uma janela para a rua com o propósito de vender as duas ou três coisas que acho que sei fazer razoavelmente.

mas primeiro é preciso sobreviver, esse é o foco de agora. como tenho o privilégio de poder ficar em casa, é isso que farei, com um copo de bom café na mão e torcendo pra que saiamos o quanto antes dessa.

vida de gado

a ideia inicial era a de atualizar o blog todo dia até o fim do ano, contando um pouco do cotidiano de um cronista gastronômico paulistano, pra depois editar e lançar um livro em 2021, quando o divulgaria pelo brasil, resultando assim em mais ou menos dois anos de trabalho.

daí veio a pandemia e é natural que o site tenha sido atingido, já que escrevo sobre o dia a dia. pra não ficar um troço chatíssimo, às vezes desenterro uma ou outra história do passado, e eis que gasto o projeto de mais um livro.

o livro principal, foco dessa postagem, também deve ter ido pro saco, a ver. ainda não desisti por completo dele e gosto de vir aqui atualizar diariamente, embora a tarefa esteja ficando cada vez mais difícil, já que no momento estou impossibilitado de caçar assunto na rua material pra escrever.

e ainda lido com xingamentos, como se criticar um presidente genocida tido como o atual pior governante do planeta me transformasse em comunista, petralha, etc. muitos xingam sem nem ter ideia do real significado de suas palavras. agressões gratuitas foram e continuarão sendo gentilmente depositadas ali na caixinha de spams, camaradas.

é tristemente surreal que ainda existam bolsominions. a esses peço pra que não acompanhem esse site, não comprem meus livros e nem vejam meu canal. lugar de gado é num pasto bem longe de mim.

no mais vamu que vamu e desculpaê se por muitas vezes o texto sai (ainda mais) mais fraco. mas aproveito para agradecer por todas pacientes almas que tem a paciência de vir aqui me visitar de vez em quando.

que sejamos dignos do dia de amanhã. e. quem puder, fica em casa.

o dia seguinte

como o cenário gastronômico sobreviverá à pandemia?

creio eu que a reabertura comercial se dará gradualmente a partir do fim de maio, isso se o mamute do planalto não tiver mais nenhum devaneio genocida. o que considero pouco provável, dado o estado ainda mais dramático em que os hospitais estarão logo mais e o zero respeito tido por governadores, prefeitos, câmara federal e até mesmo os militares.

restaurantes supostamente chiques tendem a ficar ainda mais caros, pois terão que diminuir o número de lugares. é isso ou a falência, que ocorrerá a rodo, de qualquer forma.

a onda de lugares dinâmicos comandados por jovens voltará ainda mais forte. só espero que os zé corrutela daqui demonstrem algum interesse em aprender a cozinhar, o que é bastante difícil.

mas mesmo os menores terão que reajustar seus preços, pois terão que diminuir ainda mais a capacidade do salão.

japonês? deve ficar ainda mais caro, já que ninguém mais quer se sentar muito perto de outra pessoa, de frente para o hoje apertado balcão.

pequenas casas de show promoverão espetáculos ainda menores vendendo ingressos por valores estratosféricos. e festivais não voltarão tão cedo, assim como shows em estádios e jogos de futebol.

serviços de delivery aumentarão e pacotes de streaming surgirão por preço acessível, já que nem todo mundo estará interessado em ir ao restaurante e muito menos em pegar um cineminha, que por sua vez tem a opção de aumentar consideravelmente o espaço entre os cinéfilos, o que causará aumento do preço do ticket.

viajar não será tão acessível, fronteiras serão fechadas e os próprios aviões podem ser replanejados. se antes a ideia era acabar com a primeira classe, hoje ninguém quer correr o risco de viajar na coronga class, com muita gente ao lado.

muitos nem sairão de casa mais. lidaremos com pânico e paranóia de gente bem próxima a nós mesmos, alguns traumatizados pela repentina morte de entes queridos.

quando e de que maneira a pandemia acaba? com remédio? vacina? quando o mundo inteiro se contaminar, provocando milhões de mortes? qualquer uma dessas ou outras hipóteses leva tempo. o isolamento social não cura a doença, mas tem o fim do sistema de saúde global não colapsar, de maneira que hoje nada é mais humano que ficar em casa. e, quem não puder, que se cuide mais ainda.

mas, voltando ao foco da postagem desse espaço que se tornou meu pequeno diário de horrores da pandemia. como ficará a cena quando isso passar?

do outro lado do fio, o mst tem doado toneladas de alimentos a quem mais precisa pelo país todo, numa brilhante e humanitária inversão de raciocínio diante do que era conhecido como mundo até antes de ontem. lidar de outra maneira com comida pode ser a solução mais inteligente. por que o capitalismo dá claros sinais de esgotamento.

porque se buscarmos soluções dentro do nosso famigerado sistema transformaremos o planeta num imenso haiti, quadro esse que pode e deve revoltar um bocado toda a população.

o momento é apocalíptico, mas o dia seguinte chegará. e, quando isso acontecer, teremos que nos reinventar. minha torcida é para que nos tornemos mais razoáveis.

será?

é isso ou devemos – como disse noite dessas um bom amigo – ficar otimistas diante do futuro do pessimismo?

veneno da lata

houve uma época em que éramos vivos e alguns de nós frequentávamos pizzarias.

eu, lapeano incorrigível, sou freguês da famiglia lucro desde a tenra infância, apesar de discordar dos altos preços praticados na casa.

acontece que quando se trata de comida a única coisa que não se combate é a lembrança afetiva e ainda trago comigo boas lembranças, apesar de ter saído do bairro há alguns anos.

o lapeano sai da lapa, mas a lapa não sai dele.

por cerca de 7 anos morei na frente da pizzaria da família que prepara o clássico disco no mesmo bairro desde a década de 30, quando pizza se vendia na lata.

até o fim do milênio passado pouco se falava na cidade sobre fermentação natural, tomates italianos, etc. e tenho a impressão que a lapa resiste a esse tipo de novidade até hoje, salvo uma ou outra exceção.

a tentação de ter que apenas atravessar a rua pra comer a pizza – aqui sempre de massa fina – me levava lá toda semana nesse período em que morei tão perto.

levava minha garrafa de vinho ou ficava na cerveja, se optava pelo bom frango à passarinho da casa e lá ficava horas paquerando o cardápio – que tem algumas roubadas, mas quem é da área sabe driblá-las – e observando curiosos hábitos das tradicionais famílias lapeanas à mesa.

paz e harmonia nem sempre reinavam no salão que tinha um dos melhores garçons da cidade, um octogenário corintiano. infelizmente nem todos pais e filhos davam a devida atenção pro velho, preferiam dar aquela brigadinha de leve.

só existia um consenso no espírito de torre de babel incorporado no salão: a lata de azeite. como gostávamos daquele maldito gallinho, tão indiferente a vidros com baixa acidez. extravirgens nunca nos interessaram, nossa putinha enlatada era e bastava.

quer dizer, isso até o dia em que a família aderiu à modernidade, com assépticas garrafas abastecidas de um infame líquido amarelo que não interessava a ninguém da quadra. mas não se brinca com esse tipo de tradição.

gordas senhoras berravam do alto de seus vestidos floridos enquanto crianças ranhentas choravam e homens magros trajados com camisas compradas na rua doze de outubro xingavam o dono da espelunca.

não parei de ir à famiglia, mas agora só ficava no frango, por solidariedade à antiga e briguenta freguesia. e gargalhei como satanás ao presenciar a ocasião em que um senhor sacou de seu paletó cinza velório uma latinha daquelas menores de azeite. o velho garçom corintiano fingiu que não viu e foi até o outro lado do salão fazendo a egípcia. duvido que tenham cobrado a rolha.

por fim, um armistício. pra fazer companhia às renegadas garrafas, as latas finalmente voltaram. não preciso dizer o que sai mais.

assim que a pandemia acabar, voltarei ao logradouro pra mandar uma de aliche – sem queijo, evidente – e ver se tudo segue pela ordem.

sos comércio

hoje acordei com uma bela cesta de orgânicos na minha porta. a empresa de onde veio a mercadoria se chama dro ervas e flores (tem @ no instagram) e teve que se reinventar pra não quebrar, passando a vender no varejo, após 23 anos atendendo apenas a restaurantes. a chefe paola carosella recentemente deu dicas de feirantes que entregam, além de atualizar nas mídias diariamente o delivery de seu principal restaurante. a pandemia não poupou nem a agora famosa chef televisiva do trabalho de se transformar.

além de hortifruti na porta, tenho a monumental sorte da melhor amiga talitha barros seguir com o conceição discos aberto e entregando a comida preferida do meu mundo. também atualiza as mídias todo santo dia e sempre tem novidade, além de topar encomendas, como miúdos de tudo quanto é tipo.

chef vivi ta trampando com apenas mais uma pessoa e se virando pra entregar comida sem reclamar de nada. pelo contrário, tá felizona com sua nova horta nos fundos do restaurante.

se faltar algo pra semana na minha cesta, duas ruas pra cima de casa tem o instituto feira livre, onde os funcionários são tão simpáticos quanto os preços praticados e o número de fregueses é limitado a 10 por vez, cuidado necessário. na frente tem a janelinha do assaz orgânica, boa padaria e confeitaria que pratica preços possíveis. sou adicto de alguns produtos de lá, como o cannelé e o éclair (aka bomba), mas a baguete também merece certa atenção.

o restaurante syria é um lugar mais simples e tá fazendo pra levar, o número tá no feed do meu instagram, @botecodojb e também no facebook aberto.

eu faço o que posso pra ajudar, mas moro sozinho e não sou rico, de maneira que a sensação de impotência é enorme. por mais que evite citar nomes de lugares nesse blog, às vezes o ato se torna necessário, para eventual compreensão de texto. poderia ter mais, inclusive. o que mais tem é porta cortando um doze pra se manter aberta. falamos aqui do sustento de milhões de pessoas.

que você também encontre a receita de ajudar os seus e a si mesmo.

quando isso acabar, não estaremos mais fortes, mas sim diferentes.

pé direito alto

a porta de entrada na gastronomia foi no meu primeiro negócio, com 13 anos. foi numa banca de feira em que vendia frangos e miúdos de boi que desenvolvi interesse por cortes de carne. muitos deles trazidos pra cozinha de casa junto com peixes, frutas e hortaliças dos colegas. também dei sorte da minha mãe ser uma cozinheira de mão cheia.

a partir daí foi natural a entrada no ramo de bares e restaurantes, no qual atuo de maneira discreta desde o fim do milênio passado. também fiz outras coisas, mas essas são outras histórias.

porta própria não tenho desde 2011, ano de falecimento da minha mãe. mas ainda estou na área, com algumas assessorias. e produzir conteúdo sobre comida e bebida em diversas mídias não deixa de ser trabalho também. tenho a doce ilusão de que um belo dia o youtube pagará mais que gasto e que também terei patrocínio que banque todo meu trampo. mas tenho plena consciência de que isso é mais uma utopia que outra coisa.

sobre assessorias, até antes da epidemia, recebia a média de um convite por semana. acontece que só aceito convites com os quais me identifique e a partir daí a série de recusas é inevitável.

trocou o termo assessoria por consultoria? já é meio caminho andado pra eu recusar. consultor é aquele que bate na tua porta antes do oficial de justiça.

contratou arquiteto antes do chefe de cozinha? não tenho a menor paciência pra quem subestima o negócio, ainda mais com esse tipo de afetação. a não ser que esteja disposto a mudar de ideia, claro. mas infelizmente o ego de algumas pessoas tem uma altura inatingível.

o mesmo vale pra bar. no ano passado ajudei a abrir um em que eu e a chefe não podíamos nem entrar na obra. claro que o lugar é um pesadelo logístico. felizmente hoje isso não é mais problema nosso. os sócios bocoiós que se virem.

mas, e agora, que o mundo mudou e nunca mais será o mesmo? como estamos nos virando?

por enquanto, dependendo do perfil do restaurante, há quem se vire com delivery. e torço de coração pra que cada porta que saiba fazer boa comida consiga sobreviver.

afinal, quem é que vai comer lustres e tijolos?

tudo isso pra dizer que muitos esqueceram do principal. além da arquitetura, se preocupam deveras em serem ecologicamente corretos, sem saber fritar um ovo. e não adianta fazer banca de salvador do mundo quando não se tem boa base. aí não é sustentabilidade, mas apenas puro e mero cinismo.

ninguém sabe como estaremos quando essa maldita pandemia passar, mas já passou da hora dos cozinheiros voltarem para o lugar de onde nunca deveriam ter saído.

à cozinha, camaradas!

quietude

de uma lindeza sem fim o texto do paulão sobre o triste fim do pasv. semana passada o simpático la frontera também encerrou suas atividades. infelizmente a crise sem precedentes fará com que mais lugares fechem.

alguns bares e restaurantes tem oferecido vouchers com um outro benefício para a freguesia gastar assim que portas sejam reabertas. claro que todo tipo de ajuda é bem vinda e espero que as ações sejam bem sucedidas, mas esse dinheiro deve ser gasto com a manutenção de pesadíssimas contas, tais como aluguel e folha salarial. e aí corre-se o risco de receber uma tonelada de papeis sem valor quando mais se precisará de faturamento. ações como da ambev e heineken (que bancam 50% dos cupons) são mais que bem vindas, são necessárias. mas precisa mais, muito mais. o sistema colapsou e o sustento de milhões de pessoas está em jogo. por trás do sorriso de cada garçom há uma família, na maior parte das vezes bem humilde.

entregar comida é outro segmento no ramo e tem sido uma maneira de se reinventar. eu tenho cozinhado menos do que deveria e pedido alguns deliverys de gente legal que precisa se manter aberta, sempre de olho nas condições em que as operações são feitas e tentando fugir do universo dos aplicativos. ao pedir seu jantar, confira se o restaurante oferece serviço próprio de entrega, pois isso faz uma diferença abissal pro comércio. também pode-se aproveitar a curta caminhada diária para você mesmo buscar a própria comida ou ingredientes para cozinhar.

a pandemia não vai embora tão cedo e nem de uma vez, então nos resta tentar sobreviver. e, quem puder, que fique em casa. pois não vale a pena abrir o comércio para perder vidas. quem é que vai querer jantar depois de morto?

curiosamente essa ficha ainda não caiu pra muita gente, apesar da avalanche de informações vindas do planeta inteiro. quando os cadáveres ganharem nomes, decerto mudarão algumas atitudes. mas aí talvez seja tarde demais para evitar uma catástrofe ainda maior, as perspectivas não são nem um pouco boas.

a sensação de impotência é enorme e não consigo me concentrar nem pra ler mais, o que tentarei hoje ou amanhã. falando nisso, veja as livrarias que estão atendendo on line e as prestigie. evite a amazon, não dê ainda mais dinheiro pra grupos milionários que querem mais que você se foda. despreze quem te despreza.

no mais, nunca aquela música do walter franco fez tanto sentido.

mente quieta, espinha ereta e coração tranquilo.

por um mundo com mais pasv

Paulo Cesar Martin

23 de fevereiro de 2020, um domingo no almoço com os parceiros Júbilo, Lana e Jacqueline, foi o dia que eu nunca imaginaria ser o da minha última refeição no PASV, o restaurante com a fachada mais sem graça, o ambiente charmosamente decadente e a comida mais gostosa do centro de SP. Um mês depois, o fechamento forçado pela pandemia da Covid-19. E neste sábado, dia 11 de abril, caiu a bomba na av. São João, 1145: o encerramento em definitivo das atividades depois de quase 60 anos de existência.

O puchero dominical, o cordeiro na brasa com batatas coradas e o frango frito foram minha despedida. A sensação boa de um pedido tão perfeito se perde na angústia de não poder ir mais lá quando as ruas forem liberadas. Sensação parecida à que tive quando fechou o Parreirinha, também no centro. E quando o Fuentes saiu da rua do Seminário e foi para os Jardins.

Frequento o PASV desde 1988 quando fui trabalhar na Folha e depois no Notícias Populares ali no centro. Desde a primeira vez, a sensação foi a mesma: ver a figura discreta do Seu Ramón recebendo os clientes e sentir que eu, um descendente de espanhóis, estava entrando no restaurante do meu pai. O estranho nome PASV é a junção das primeiras letras dos sócios originais: Perez, Ares, Salcines e Villaverde. Nos últimos tempos, quem tocava eram os os irmãos José “Pepe” e Ramón Ares, este já com 80 anos. O cardápio basicamente espanhol do começo foi se adaptando às necessidades do dia a dia do centrão, mas as peças de resistência estavam sempre lá: a paella, o polvo à feira, o cordeiro na brasa, a tortilla de batatas, o arroz del puerto (um primo mais modesto da paella) e o cozido à espanhola (maneira que eles abrasileiraram o nome puchero). Se misturavam com os PFs que se acha em qualquer lugar, mas sempre com bom preparo.

Além dos pratos, muitas lembranças ficarão, espero não esquecê-las com o tempo:

– O grande balcão em “u” para os solitários.

– Seu Ramón almoçando sozinho no último lugar do balcão às 14h30.

– As garçonetes “tiazinhas”, a Maria da manhã (a que mancava) e a Maria da tarde, já aposentadas. Para manter a tradição, Dona Neusa, esposa do Seu Pepe, passou a trabalhar nas mesas.

– A infame batidinha de maracujá que o Ramón dava de cortesia para aguçar o apetite.

– A melhor molheira de cebola entre as casas que a oferecem (Sujinho, Boi na Brasa etc). O segredo espanhol: as lasquinhas sutis de pimentão verde no meio da cebola bem temperada.

– O pão cervejinha delicioso da padaria da rua Aurora para o couvert.

– A sensação de se acabar no pão com cebola e pimenta e depois não “ter espaço” pro almoço.

– O bife de fígado acebolado que me acompanhou nos meses de anemia.

– A sangria de vinho barato feita pelo próprio Ramón.

– A pimenta caseira sempre impecável.

– Pimenta do reino na mesa.

– Os quadros com fotos já esbranquiçadas de cidades da Espanha.

– O café expresso mais forte que já tomei na vida.

– Minha saudosa mãe, meu saudoso irmão, minha irmã e meu sobrinho comemorando um aniversário comigo num 4 de janeiro

– Encomendar a paella para comer em casa e o seu Ramón deixar a paellera junto para trazer no dia seguinte.

– O pudim de leite para rebater.

– E a melhor das lembranças: ter comido lá com todos meus melhores amigos.

Vendo uma tradição dessa acabar, impossível não lamentar os tristes dias que grande parte da sociedade média vive na gastronomia: a proliferação da mesmice de sabor nas cozinhas (as famigeradas “comidinhas”), a pouca variedade nos cardápios, a inacreditável falta de tempero nos pratos (coentro, pimenta e cominho são quase palavrões em SP), o salmão que virou o único peixe existente no planeta (só é “aceito” porque é peixe que não tem gosto de peixe), quilos de requeijão em cima de pratos e pizzas, temaki de queijo com goiabada, garçons hipsters, comanda eletrônica em padarias que mais parecem rodoviárias, hamburguerias que põem 10 ingredientes num sanduíche e esquecem de fazer um burguer que preste. Já temos até restaurante coreano hipster que não quase não usa pimenta para agradar o gosto médio. Tudo que nos deixa a galáxias de ser a “capital da gastronomia”.

Neste período de isolamento, gaste 15 minutos pensando em como pode ajudar a mudar esse cenário. Passada a pandemia, é a chance de frequentar menos shopping centers, de parar de dar trela a capa de revista decadente inventando bairros modinha. Vá mais ao centro da cidade, ao Bom Retiro, ao Pari, ao Cambuci, à Liberdade, não tenha medo de pisar na calçada. Não é ajudando a matar o centro que seremos uma cidade melhor. Ressuscita, PASV!

PAULO CESAR MARTIN, 56 anos

Jornalista especializado em futebol e rock. Apresentador do programa de rádio Garagem com André Barcinski, Álvaro Pereira Júnior e André Forastieri. Ex-Esportes da TV Globo-SP,  ex-Notícias Populares, ex-Folha, ex-UOL. Atual caçador de frila.

lindolfo

o presidente fernando affonso collor de melo anunciou hoje numa rede social que no momento lê “o pecado original da república”, de josé murilo de carvalho. quem me dera ter paz de espírito para ler nesse momento tão difícil, certo que a buscarei. mas, já que o filho de arnon parece bem disposto, quem sabe ele não se anima e compartilha um pouco das histórias políticas que envolve sua família, desde seu honrado avô?

filho de imigrantes alemães que chegaram no brasil no começo do século retrasado, nasceu em são leopoldo o menino lindolfo collor, cujo sobrenome foi emprestado do padrasto que o criou.

já em porto alegre, torna-se seminarista, carreira que logo larga para se formar como farmacêutico, profissão que jamais seguiu. não sei exatamente por qual motivo vai parar em bagé, onde publica dois livros que ninguém leu, mas escreve por um ano num periódico, começando assim bem sucedida carreira no jornalismo.

apenas com 21 anos nosso herói aporta na então capital federal e segue escrevendo na imprensa, o que abriu contato para sua entrada na política, em 1913, através do gabinete do ministério da agricultura.

um pouco depois lança seu terceiro livro, que pelo menos uma pessoa leu, o crítico literário gilberto amado. ao encontra-lo na rua do ouvidor, collor ficou pistola e jogou seu desafeto no chão. esse que, por sua vez, sacou uma pistola de verdade e a disparou uma série de vezes, encravando os tiros nas paredes da histórica livraria garnier. collor saiu ileso, mas arrega e não publica mais nenhum livro. a carreira política não se mostraria mais segura.

a partir de 1921, quando se elege deputado estadual com seu colega getúlio dorneles vargas, a vida fica mais agitada e juntos eles se envolvem em loucas confusões, com uma turma do barulho.

em 1929, durante o segundo mandato como deputado federal, funda com gegê a aliança liberal, mirando oposição a tudo isso que está aí. no dia seguinte ao assassinato de joão pessoa, inicia um histórico discurso com as palavras: “presidente da república, o que fizeste do presidente da paraíba?” tal cenário só acelerou a revolução, que logo se transformaria numa ditadura.

pouco antes do golpe, getúlio vargas leu sua plataforma de governo, na qual prometia-se uma legislação de direitos trabalhistas. adivinha quem foi o ghost writer do gegê? pois é.

em 1930 a coisa tava feita e collor reivindicou a criação do ministério do trabalho, o que getúlio fez para aquietar o alemão, segundo suas próprias palavras. as leis trabalhistas, que atualmente estão ultrapassadas, representaram um avanço social histórico, ainda mais num país que tinha saído da escravatura há tão pouco tempo. esse foi o grande legado de lindolfo.

mas o brilhante mandato se encerrou com apenas 15 meses, quando lindolfo lutou por nova constituinte e eleições, antes até da constrangedora revolução constitucionalista paulista. ditador não gosta dessas coisas e o desentendimento levou o agora ex-ministro a um primeiro exílio em buenos aires.

em 1934 uma anistia permite a volta ao brasil, sempre persistindo na oposição ao seu ex aliado, que instaura em 1937 um duro golpe de estado, denominado infamemente como estado novo. o bicho pegou nesse período.

transações comerciais e completo domínio da língua alemã levaram lindolfo à terra dos seus pais em pleno pré-guerra. de lá mandou para o brasil uma série de artigos condenatórios contra o abominável sistema nazista. os mais duros foram censurados pela nossa ditadura, que até então cultivava ótimas relações com o nazismo, que viriam a ser rompidas só no final da segunda guerra, aos 48 do segundo tempo.

após breve passagem em portugal, é negociado o retorno de lindolfo ao brasil. mas, assim que chega, dá uma entrevista em que repudia todo e qualquer tipo de ditadura. é preso, naturalmente. e na prisão pega uma pneumonia. se transfere para um hospital, é feito todo um corre, mas morre em 21 de setembro de 1942, com apenas 52 anos. deixou 2 filhas, 1 filho, pouco dinheiro, muita dignidade e boas histórias pra contar.

e aí, presidente? se anima a fazer um livro com os causos da família? mas tem que me contar tudo…

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