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Boteco do JB

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no future

você que lê esse texto, saiba que participa do processo de escrita de um livro.

a ideia de blogar todos dias – como antigamente – tem a pretensiosa meta de resgatar o clássico hábito de ler e escrever. sem links, sem fotos, nem ilustrações.

o cotidiano de um cronista gastronômico em 2020, assim que era pra ser. depois juntaria tudo, revisaria e viraria livro.

aí chegou a pandemia e junto com ela a quarentena, mandando o projeto inicial pro saco.

mas sigo escrevendo e atualizando o site da mesma maneira, embora as novidades sejam poucas. faltam textos sobre bares, mas outro temas vieram à tona, inclusive memórias do velho mundo.

como publico desde 2007, o plano atual é publicar o livro do mesmo jeito, mas com outro formato, contando a história do blog, com textos revisados e separados em capítulos.

projeto esse que será publicado em 2021 ou 2022, se der tudo certo. e, pra esse ano, ainda não desisti de lançar o livro de receitas crônicas em homenagem a nina horta, que tá bem adiantado. a data original de lançamento seria nesse mês de junho. não rolou, por motivos óbvios. em seguida faria uma tour de lançamento pelo brasil com dinheiro que tinha guardado pra isso, mas no momento uso pra sobrevivência e inclusive daqui a pouco acaba, já que todos meus contratos de trabalho foram cancelados. tenho uma péssima notícia para o meu senhorio, referente ao pagamento do aluguel de julho.

havendo livro sobre o blog, é muito provável que essa postagem seja cortada da edição final, por absoluta falta de qualidade. sorria, você faz parte desse fracasso.

mas, tudo bem. vivamos uma derrota de cada vez. meu único otimismo é referente ao futuro do pessimismo (apud luiz antônio simas).

até porque podia ser pior.

podia ser madero, the bost burger in the world.

200

a ideia do canal no youtube nasceu nos idos de 2014, com a pretensão de entrevistar mário sérgio pontes de paiva, luís carlos miele e waldir peres, o único goleiro que nunca abriu mão do espetáculo, pro bem ou pro mal. os dois primeiros morreram sem ter o desprazer de gravar um papo comigo.

acabou que nos atrasamos e fomos ao ar apenas em 2015, da maneira atrasada e atrapalhada que caracteriza o canal até hoje.

somos amadores, porém honestos e limpinhos. embora nunca tenhamos descartado patrocínio, jamais faria propaganda para produto que não consumo, daí a consequência é que muitas portas se fechem, o processo é natural.

uso por vezes o plural nessa postagem porque uma porrada de gente colabora com trampo a troco de pinga e amizade. até porque gastamos mais nas gravações do que ganhamos nessa tal de monetização.

o áudio é uma bosta e chegamos a ficar meses sem atualizar o canal, além do conteúdo ser uma zona, verdadeira torre de babel. fazemos tudo ao contrário do que manda a cartilha do google. mas nos divertimos um bocado e disso não abrimos mão.

assim como também não fazemos concessão à liberdade de criação de conteúdo. aliás, estendo tal filosofia de trabalho a todas outras mídias que administro, incluindo os livros e esse próprio blog. honestidade intelectual não é mérito, mas sim obrigação.

também não pedimos like, nem pra tocar o sininho, coisa e tal. defendo a tese de que engajamento é como a cortesia naquele velho botequim. não se pede, se conquista. não seja o bebum chato implorando pela saideira no balcão de fim de noite. se não ganhou é porque não mereceu.

mesmo assim, atingimos o improvável número de 200 mil inscritos naquela pocilga.

as outras mídias também caminham. a trancos e barrancos sigo atualizando diariamente esse balcão virtual e nesse ano ainda devo lançar o quinto livro, se as circunstâncias assim permitirem.

falta dinheiro, mas sobra diversão. além de ser uma válvula de escape e torta maneira de manter a sanidade mental nesses dias tão difíceis.

registro aqui meu muito obrigado a todas pessoas que tem a paciência de me acompanhar, seja lá onde for. parafraseando o para-choque, te desejo o dobro do que deseja pra mim.

se puder, fique bem você também.

sozinho

a data comercial criada pelo pai do atual governador de são paulo mexe comigo tanto quanto o natal. ou seja, nada.

verdade seja dita, a data é um pesadelo pra quem trabalha em bares e restaurantes. estranhos casais que não tem nada a ver com a freguesia local embaçam numa mesa por horas com uma garrafa de vinho chileno, enquanto são valentim se ruboriza no fogo do inferno. transa jantar fora? saiba que o dia dos namorados não é a noite ideal pra isso. até os balcões de bar são contaminados pelos adoráveis pombinhos na data festiva em questão.

embora eu goste tanto de ficar em casa a ponto de montar um bar no próprio quarto, sempre encarei a ideia de sair pra beber solitário nessa noite enamorada como um desafio especial, já que até o boi na brasa tem fila na porta, com casais acadêmicos do chuletão.

geralmente a noitada não dá certo, mas faz parte do jogo. entre tantas derrotas, trago comigo o troféu imaginário de uma vitória, em especial.

quando morei em pinheiros, na era précoxipsterização, ia quase toda noite no meu balcão caído de coração e passei momentos memoráveis no bar com nome de personagem do mestre das crônicas.

12 de junho, os dois donos com a barriga atrás do balcão e um único cliente, esse que vos escreve. na época tinham apenas um funcionário, que estava de merecida folga.

lembro de ter enchido bem a lata, pois morria de medo de que o bar fechasse as portas e consumia tudo que podia com sede desesperadora.

felizmente o bar caiu no gosto de muitos pouco tempo depois. a luz nunca mais foi a mesma e não dá mais pra escutar o ótimo som ambiente. mas o mais importante é que se manteve aberto e ainda criou novo clássico na coquetelaria brasileira, um drinque com base de cachaça e fernet branca.

sempre busquei ter cuidado e delicadeza pra não divulgar lugares pequenos, a ponto deles bombarem e se descaracterizarem por completo, especialmente os singelos restaurantes étnicos e familiares. mas tem o outro lado também. de que adianta o bar estar agradavelmente vazio se o movimento ínfimo causará sua falência? é preciso equilíbrio e paz de espírito pra achar o movimento de escrita sobre os lugares favoritos.

esse dia dos namorados será diferente, com casais enclausurados em suas casas face a face, sem distrações, nem filas. se houver algum sentimento nobre envolvido, pode até ser deveras agradável. minha sugestão é que se cozinhe, mas o que não falta são pacotes com opções possíveis em bares e restaurantes pra noite não ser muito bosta. escolha a sua e, na medida do possível, seja feliz ao lado da pessoa que tem a santa paciência de te suportar nessa quarentena.

eu passarei no balcão particular que fiz para chamar de meu. tô com umas garrafas boas aqui, talvez até cozinhe. sozinho, porque o sujeito que pode respeitar a quarentena e não o faz não passa de cabra safado, coisa que não sou.

além do mais, como já disse, não ligo muito pra essas datas.

a moça da 23

o crítico saul galvão diz que o cardápio é o contrato entre freguês e restaurante. a ele dou razão e acrescento que tenho certo fetiche pelos tais escritos.

sentar no salão do restaurante e abrir o cardápio é ato ritualístico pra mim. reparo em tudo: cocktails, vinhos, cervejas, couvert, entrada, principal, sobremesa, café.

se estou num lugar que aprecio, consumo o máximo que puder e passo bom tempo no local. gosto de acreditar que a experiência adquirida durante os anos de estrada faz com que eu passe pela maior parte de cursos possível sem me empanturrar, nem gastar um rim.

mas a real é que o fato de ter me tornado conhecido no segmento por falar mal quando a experiência não é boa fez com que me tornasse aquela velha figurinha carimbada com comandas marcadas durante o trajeto entre salão e cozinha. comigo só dá ruim quando o chef é desatento ou bem ruim mesmo. até porque geralmente 90% da comida é preparada antes do restaurante abrir. mas é inegável que um cuidado especial na hora da finalização faça senhora diferença.

daí que, como as coisas vão dar certo pra mim mesmo, passei a não sacar o celular do bolso e reparar com atenção ao ocorrido em minha volta. mais interessante que a pífia atualização do scarfacebook é ver que enquanto estou com a melhor parte do peixe, a moça da mesa 23 que pagou o mesmo que eu recebeu uma pontinha minguada do mesmo bichinho.

a regularidade total não passa de uma utopia e é fisicamente impossível que a comida venha igual pra todo mundo. mas há de se ter um piso de excelência em todo serviço, esse é meu principal critério de avaliação. pode me tratar bem, que eu gosto e agradeço, mas não se esqueça da moça da 23.

uma vez ela sentou bem ao meu lado e fez os mesmos pedidos. enquanto era atendido pelo elegante maître, um esforçado cumim anotava de maneira atrapalhada seu pedido. com pouco dinheiro, pedi um jovem vinho argentino, enquanto ela foi de francês classicão que, pela aparência da garrafa, me pareceu servido em temperatura inadequada. pra mim, o sommelier da casa se desculpou por não ter o rótulo menor que eu pedi (descrito por ele como um jovem com potencial sedutor) e me ofereceu como cortesia um italiano maravilhoso, ainda melhor que o francês do lado. e ainda me serviu um negroni sbagliato, pra beber enquanto o vinho decantava e eu comia o couvert com pães quentinhos e bom azeite, acrescido de simpático embutido artesanal como agrado.

ambos pedimos a mesma entrada, foie gras. pra manter o nível do vinho que beberia a seguir, pedi pro garçom uma taça de sauternes pra acompanhar. o sommellier veio à mesa com uma garrafa de safra melhor que a solicitada e encheu a taça até quase transbordar, chegando a ser deselegante. ela foi de água mesmo. mas o que mais chamou a atenção foi a diferença de tamanho entre os escalopes. enquanto o meu dispensaria até o pedido de um principal – dependendo do tamanho do apetite – o dela mais parecia um petit four.

pra segurar a potência dos vinhos, carne cozida lentamente pra mim e algo que parecia um coq a vin pra ela. meu prato delicioso, já ela parece não ter dado muita sorte, dado o aparente exercício mandibular observado. sobre a nobre garrafa, tive que insistir pro time de 3 profissionais de salão à minha disposição que eu era capaz de me servir sozinho. já a moça não precisou convencer ninguém de sua destreza em encher a própria taça, já que até o cumim havia sumido. mas infelizmente ela não conseguia pedir outra água, toda paz tem seu preço.

minha sobremesa foi uma decepcionante e pouco aerada mousse de chocolate. como disse, a maior parte da comida já está pronta e tem coisa que não há boa finalização que resolva. e o espresso estava intragável, porque não se aprende a lidar com café da noite pro dia e esse é um detalhe que poucos restauradores dão atenção.

a moça simplesmente pulou a última etapa do jantar e pediu logo a conta. quando o jantar dá muito errado é natural que se desista no meio. antes de ir embora, olhou pra mim com muito ódio, pra eu me colocar no meu lugar e ver de quem era de fato o maior derrotado da noite.

nunca mais a vi, mas a partir desse jantar sempre que resenho um local é nela que penso, é pra ela que escrevo e sempre buscarei sua aprovação. espero que esteja bem e que suas experiências gastronômicas sempre sejam melhores que a da noite em que nos conhecemos.

13 anos

ontem fez exatos 5 anos que lancei meu primeiro livro, publicado por uma editora fodona que não se interessou em publicar o segundo.

nele conto um pouco da história da minha família com o cenário da feira livre dos anos 80 de fundo.

dráuzio varella deu uma olhada no escrito durante o processo e chegou a ter a generosidade de dar preciosa dica pro seu início, sugerindo que eu apresentasse a feira antes de jogar o leitor no duro mundo das personagens. segui a risca e deu muito certo, era o que faltava pra fechar o livro.

infelizmente a publicação não atingiu a expectativa de vendas da editora, o que me fez trilhar por outros caminhos onde escrevi mais 3 livros, um deles em coautoria com um grande amigo tijucano, aquele que pratica a boêmia diurna.

não satisfeito com a sequência de publicações que não interessam a muitos, nesse ano pretendo lançar o quinto livro, com receitas, crônicas e ilustrações, em homenagem à saudosa amiga nina horta, cronista gastronômica preferida e cozinheira formidável.

as ilustrações serão de outro grande amigo, que me ajuda numa par de coisas, inclusive no design desse sítio e também do anterior. o incrível rótulo da minha cerveja? ele que fez.

fato é que sempre andei bem acompanhado. quem conhece os prefácios dos meus livros bem sabe disso, assim como as fotos do livro de receitas de drinques.

o livro de receitas crônicas em princípio era pra ser lançado no mês que se inicia no dia de hoje, mas a quarentena adiou os planos. adiou e mudou, já que estou vivendo com a reserva que seria destinada para a tour de divulgação, que passaria por pelo menos 8 cidades.

mas quem é que vai querer ficar na fila de autógrafos de um autor médio durante uma pandemia?

tudo bem que nunca houve assim grande aglomeração nesses eventos que promovo, mas é preciso se prevenir.

não ser um enorme sucesso de público significa que estou num nicho e não tem o menor problema em ser segmentado, pelo contrário. grande audiência não é sinônimo de qualidade. paulo coelho, paris 6 e claudia leite estão aí pra provar isso.

o site também segue no ar, atualizado diariamente, apesar da ameaça de processo de gente ruim. enquanto tiver forças e a justiça permitir, continuarei produzindo o que faço desde 2007, doa a quem doer.

e fica aqui meu muito obrigado a todas pessoas que me prestigiam há 13 anos. já ganhei – e perdi – muito dinheiro em outras atividade mais rentáveis, mas hoje faço o que gosto. e sem vocês isso não seria possível.

a derrota é certa, mas pelo menos a gente se diverte. parafraseando darcy ribeiro, eu detestaria estar ao lado de alguns vencedores.

the winter is coming

enquanto o genocida que ocupa o palácio do planalto mostra a que veio, suas besta-fera colocam as patas pra fora em manifestações adolescentes que deveriam provocar voz de prisão, mas nada ocore feijoada.

vivemos a pior crise sanitária dos últimos 100 anos e nosso governo, tal como pôncio pilatos, lava as mãos encharcadas de sangue do povo que o elegeu.

cerca de 1000 mortes diárias numa escalada que não atingiu o pico não impedem governadores e prefeitos de abrirem portas comerciais de maneira irresponsável.

e achamos natural a parada toda, acostumamos com a ideia de que o horror seja encarado como cotidiano. perdemos a capacidade de nos chocar, nos tornamos cínicos.

e eles bebem leite, jogam nas redes toscas referências nazistas e fascistas, mesmo que não façam a mínima ideia do significado. o que importa é o efeito causado nos exércitos de meia dúzia de besta-fera, que fazem mais barulho que 300 soldados.

o último governo não foi derrubado porque era incompetente e corrupto, mas sim porque o brasileiro médio não gosta de pobre. deu no que deu.

o genocídio como meta de governo tem dado certo, desde a invasão portuguesa que exterminou os índios não se viu nada parecido por essas bandas.

e não há o muito o que fazer. a pandemia não nos transformou em pessoas melhores, apenas nos deu real dimensão de insignificância.

mas, se houver próximas eleições, poderia me fazer um favor? vota melhor.

quem está no poder é a maior prova de que político NÃO é farinha do mesmo saco. e a democracia, embora esteja longe de ser justa, ainda é o sistema menos péssimo que conhecemos.

não se comporte como gado.

entre goiabas e salames

meu nome é júlio bernardo, tenho 46 anos e nunca conheci alguém que tenha visto o pé de goiabeira que batiza o nome de guerra no cemitério onde meus pais estão enterrados.

por coincidência estamos na época de goiaba, que surge de tudo quanto é lado. fruta boa pra compota, suco e também pra mandar pura, ela.

mas a terminologia da palavra pode ser usada de diversas maneiras. durante minha adolescência não existia ofensa maior que xingar alguém de goiaba.

joão antônio diz que o jogo é jogado e quando se joga alguém pra escanteio, o chamando de goiaba, você simplesmente tira o cabra do jogo. uma vez fora do tabuleiro, o sujeito deixa de existir, não tem nível pra ser o inimigo, está destinado ao esquecimento.

e o que é a morte, além do esquecimento? quem lembrará de ti, após 30 anos que seus restos foram jogados num pé de goiabeira abstrato?

pois saibamos escolher nossos inimigos, antes da ocorrência da única certeza da vida. deixemos os goiabas – também conhecidos nesse tempo contemporâneo como salames – viver e morrer no breu de onde não tem a menor intenção de sair.

o inimigo de hoje não é inominável, tem nome e sobrenome, que infelizmente começa com minhas iniciais: jair bolsonaro.

seus crimes contra a humanidade devem ser escritos, falados e repetidos à exaustão até o fim dos tempos, para que esse genocídio em curso não ocorra novamente.

a hora agora é a de cassação da chapa e manda-lo pra a corte internacional de justiça.

combata o inimigo real, não seja um goiaba.

tudo é reza!

uma coisa que não disse ontem é que meus pais e avós maternos estão enterrados na goiabeira e que esse cemitério tem valor afetivo para muitos lapeanos.

é bonito ver o romântico apego que alguns de nós temos por quem já foi nessa e também por troços exutéricos tão longe do alcance da razão.

o tempo fez com que eu reduzisse um bocado a zoação com quem tem alguma espécie de credo. e não é por respeito, mas sim por solidariedade. se a fé ajuda a pessoa de alguma forma, pra mim já basta.

desde que o mundo é mundo, o que não falta é religião com gente muito ruim capitalizando em cima de guerras e desgraças. o mal maior que é a igreja católica taí pra comprovar isso, entre outros horrores.

mas não é confrontando o crente que se enfraquece esse tipo de instituição. aliás, muito pelo contrário. tentar se impor só fará com que o religioso se afaste de ti e se aproxime ainda mais daquilo que acredita. além do mais, é preciso certo cuidado pra colocar no mesmo balaio razão com abstrato. eu mesmo não tenho a manha, todas as vezes em que tentei algo parecido foi como dar um tiro no pé. mas claro que sempre terá alguém com raciocínio mais ágil que o teu, geralmente de pensamento muito diferente.

TUDO É REZA! TUDO É REZA! – tal como um xamã apocalíptico, vociferou xico sá no tijuca connection, encontro de todas noites com amigos queridos e notáveis, que mantemos na vã esperança de preserva o que sobrou de nossa sanidade mental.

pode parecer simplista, mas misturar sagrado com profano é um dos maiores desafios desde que nos conhecemos por gente e tentar vencê-lo pode justificar a existência.

já fausto fawcett – aquele que considero como um dos maiores cronistas vivos – diz em recente entrevista que a tecnologia é a religião mais atuante, ao apontar fanáticos segurando seus celulares como se fossem terços, pra atualizar mídias como o scarfacebook.

pra não parecer um et, também arrumei um credo para chamar de meu. é no bar que tento praticar o profano de maneira sagrada, inclusive mantenho no próprio quarto um balcão que pode ser visto como altar, dependendo da ébria perspectiva. tudo é reza.

de qualquer forma, quando morrer, pode enfiar meus restos lá na goiabeira, junto com a parentada. questão meramente estética, o túmulo pode ficar bonito, em forma de um balcãozão vermelho campari. pode chegar junto e beber uma por mim, mas me faça o favor de não desperdiçar goró, dando pro santo ou qualquer ato do gênero.

afinal, quem é que vai querer um drinque depois de morto?

mar de goiabeiras

o governador de são paulo promete reabertura gradual do comércio a partir da próxima semana, com direito a funcionamento de shoppings, por mais ridículo que pareça a ação. será que a hora é a mais adequada pra isso?

afinal, quem é que vai querer comprar sapatos agora?

mas o problema vai além. vivemos num país de imensa desigualdade social, onde a tão necessária quarentena tornou-se um fenômeno burguês, já que o mais humilde não tem lá muita escolha, não.

acontece que obrigar a camada mais frágil da população a sair pra pegar uma condução lotada pra servir a casa grande não resolve o problema, muito pelo contrário.

quer dizer, a não ser que você seja um genocida, como demonstra o atual ocupante do palácio do planalto. o prefeito de são paulo infelizmente também parece mostrar disposição pra honrar seu infame sobrenome. hoje ele fará uma declaração, duvido que saia algo bom da sua boca.

estamos na contramão da humanidade e a história será implacável com os atuais governantes. mas quantos mais precisarão morrer pra isso?

há pouco mais de 100 anos foi construído às pressas o cemitério da goiabeira, na lapa, com o propósito de enterrar mais de 14000 vítimas da crise espanhola.

os tempos são outros e não deveríamos passar por isso de novo. até porque a pandemia surgiu num continente distante e passou por vários lugares antes de aportar aqui. um governo com o mínimo de competência tomaria as devidas providências de defesa para o estrago ser menor.

já morreram dezenas de milhares de pessoas e ainda estamos longe do pico da pandemia.

quantos cemitérios mais teremos que construir para enterrarmos nossos mortos, vítimas de uma política genocida?

agora parece comum morrer por conta do vírus mais de 1000 pessoas por dia, fora os óbitos não registrados. perdemos a capacidade de nos chocar. o horror se tornou cotidiano.

mas, tudo bem. a partir da próxima semana teremos à disposição shopping centers para empilharmos cadáveres nas praças de alimentação.

os fantasmas se divertem

acho que foi por volta do começo da última década do século final do milênio passado que passei a pegar mais pesado no álcool. disputava com respeitáveis senhores barrigudos por um lugar em pé encostado no balcão do bar localizado na esquina das andradas com a aurora. a bebida oficial era um bem tirado chopp de marca que hoje não aprecio mais.

o foco ali nem era a bebida, mas sim o papo entre velhos boêmios. novo e sabendo do meu lugar, mais escutava que falava. aprendi muito com as histórias sobre o quadrilátero do pecado, também conhecido como boca do lixo, com o espírito de joão antônio abençoando a todos nós.

pra acompanhar o chopp, imbatíveis canapés preparados com esmero pelo seo luiz, que trabalhou no bar por muito tempo. ali deu expediente até depois de completar 90 anos. exemplo de quem trabalha por vocação, tão diferente de parte dessa molecada de hoje que permanece apenas por poucos meses num emprego e tem mais compromisso com a caixinha do que com o sagrado ofício.

após o pontual fechamento às 20h, caminhava em direção ao número 677 da avenida são joão, esquina com a ipiranga. embora a qualidade dos produtos servidos fosse mais fraca que as últimas duplas de zaga da associação portuguesa de desportos, o longo balcão era um dos mais bonitos que essa cidade já teve. já um tanto ébrio, passava horas sentado num dos bancos, contemplando a vista de frente pro bar.

quando chegava aquela hora mais adultona subia até o elegante anexo, que também tinha discreta entrada pela ipiranga. uma taça de dry martini na mão, bom som ambiente do piano de cauda no ouvido e nítida embriaguez nos olhos confortavam a alma noturna.

muito tempo se passou e atualmente os bares pertencem a um grupo que se dedica a destruir com uma força júniorbaiânística a memória boêmia paulistana, acabando assim com lugares que deveriam ser tratados como patrimônio imaterial da cidade. não sobra copo sobre copo.

o bar da aurora ampliou e abriu filiais (!) e o da são joão aposentou o balcão, que deve estar apodrecendo no andar superior junto com a alma do sócio principal, que claramente foi vendida a satã. eu sei que o príncipe das trevas já fez negócios melhores – como na ocasião em que prometeu uma sobrevida ao meia paulo henrique ganso no fluminense – mas considere que nossa época tá um tanto difícil, dê um desconto pro seo coiso.

a quarentena causada pela catastrófica pandemia que nos assola provocou uma crise que vem decretando inúmeras falências e nessa semana chegou a ser divulgada a notícia de fechamento definitivo do bar brahma. mas era fake news, é preciso tomar cada vez mais cuidado pra se informar direito. de qualquer forma, seguirei não frequentando a espelunca que faz tempo que se tornou verdadeiro símbolo de macumba pra turista.

prefiro beber ao lado dos fantasmas que frequentaram os balcões de um passado nem tão distante. aliás, o bartender poderia me servir mais um whisky, por favor? não precisa trocar o copo, não. só me traz mais uma pedra de gelo, se puder.

que plínio marcos tenha piedade dessa nação.

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