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Boteco do JB

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run chicken run

cozinhar é mais um ato de obsessão que de amor. claro que falo só por mim, inclusive pago um pau pra quem consegue ser diferente. mas soltar pratos com o mesmo padrão diariamente não é coisa de gente muito equilibrada. uma das broncas mais frequentes dadas por um chefe de cozinha convencional é quando seu cozinheiro solta sua verve criativa e muda alguma característica de um prato. provavelmente quem o pediu quer ter a mesma experiência da visita anterior e está pagando por isso. fazer uma comida média e igual todo dia é mais difícil que ser genial por um breve momento. e mais chato também.

já cozinhar em casa pode trazer outro tipo de obsessão, a de melhorar cada vez mais sua própria receita. no momento finalizo um livro com receitas crônicas, em homenagem à musa nina horta, com ilustrações do amigo e grande profissional binho miranda. a ideia é que o leitor tenha de onde partir, pra chegar à sua própria fórmula. porque tem coisa que não dá pra passar. ponto de sal, por exemplo.

um dos capítulos é dedicado a uma obsessão ainda mais antiga que o carbonara, algo que vem da infância: frango frito.

explico porque vem de tão longe. como muitos sabem, sou de uma família de feirantes que vendia frango e miúdos de boi em feiras livres de osasco, itapevi e cotia. o açougue a céu aberto não oferecia assim o ambiente mais apropriado possível e alguns itens passavam do ponto. como não podíamos vender produto que não tivesse fresco, eu mesmo lavava os frangos que passavam com vinagre e depois os temperava pra dividirmos entre os nossos. no fim do dia, em casa, empanava e fritava. era divertido e gostoso.

de maneira que se aprendi a lidar com frango ruim quando pequeno, é moleza lidar com os caipiras e orgânicos que hoje temos à disposição. aliás, frango bom é aquele que é criado solto, saiba.

já na meia-idade descobri que outros compartilham da mesma obsessão aviária e cada um desses tem a mais absoluta certeza de que sua versão de frango frito é a melhor da galáxia. umas são ótimas, outras nem tanto. no livro reproduzo a minha, que já foi testada em casa centenas de vezes e considero bem boa.

tudo isso pra dizer que ontem um desses amigos, danilo nakamura, teve a imensa gentileza de me mandar a sua versão, que se enquadra entre as ótimas citadas no parágrafo anterior. não satisfeito, enviou também um maravilhoso dirty martini, com manzanilla e bitter de umami, dose quádrupla.

encher a lata de bom goró e me empanturrar de frango frito é um dos tipos de diversão que mais aprecio. danilo ainda teve o cuidado de entregar a iguaria no jeito para eu mesmo finalizar, com as devidas instruções, para a experiência ser bem daora.

é aconselhável ter válvulas de escape dentro da situação tristíssima em que vivemos. torço para que ache a sua e que o sofrimento seja o menor possível.

sobrevivamos.

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