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Boteco do JB

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maionese à parte

burger pra mim é brincadeira de fim de semana que fazia com meu velho. tanto que demorei pra conhecer o mc donald’s e quando finalmente fui à loja da doze de outubro a decepção foi inevitável, a ponto de emendar o programa com um sanduíche que gostava na lanchonete localizada no primeiro andar das lojas americanas, logo ao lado.

a partir da pré-adolescência a conexão paterna ocorria mais no trabalho que em qualquer outro lugar e as velhas tardes dos burger de domingo já tinham se transformado em meras lembranças. os amigos também mudaram um pouco, passaram do mc para burgers fininhos de chapa e aí o bairrismo predominava, cada um com seu cada qual. pessoalmente fui adicto do saudoso toninho & freitas até o começo dos anos 80. jamais esquecerei o gosto do queijo vagabundo queimado proporcionado pela chapa imunda. mas comecei a desistir do pequeno balcão quando o chapeiro mayonese faleceu. embora alguns ainda hoje garantam que o burger foi feito a partir de seus restos mortais por anos a fio, pra mim não era a mesma coisa, especialmente quando se transferiram pra limpinha esquina da frente.

algum tempo se passou e o cenário burgeiro se transformou um bocado, com discos altos que lembram, olha só, os que eu fazia com meu pai na infância, só que com bom queijo, etc.

mesmo assim amigos próximos ainda tem como seu burger preferido certa lanchonete com matriz na faria lima e filial em vinhedo, além de uma rede homônima que nem é tão boa, mas tá limpo. os sanduíches até que são bem montadinhos, especialmente se você desconsiderar que deveria se tratar de um burger.

um homem não deve esquecer de suas derrotas e não escondo de ninguém que morei por cinco tristes anos próximo à rua dos pinheiros, pré coxipsterização do pedaço.

os domingos à noite eram um tanto caídos e eu ia na unidade burgeira próxima à pedroso de moraes. ficava ali no canto do balcão entre a chapa e o banheiro, vendo os gols da rodada na tv 20 polegadas, enquanto mandava cheese salada com uma longui néti qualquer. pra derrota ser completa, só faltava a batatinha industrial que nunca pedia, porque pra tudo nessa vida tem um limite. e um dos caprichos do fracasso é te deixar com gostinho de quero mais no canto da boca suja com maionese cor de ranho.

a atual modinha de smash burgers mostra o homem como vítima de sua própria trajetória, que por sua vez pode passar a anos luz de algo parecido com evolução.

a coisa chegou ao cúmulo de termos lugares claramente inspirados no mc donalds. posso inclusive abusar de eufemismos pra falar mal de maneira peculiar: muito bom dentro do que se propõe é o meu preferido.

o milênio virou, muita coisa se passou e hoje moro em santa cecília, onde abriu um burguinho aqui na rua de cima, parecido com aquele pinheirense lá.

ainda não entrei, mas passo na frente com o cachorro pelo menos uma vez por dia. olho bem no fundo dos olhos do chapeiro, do único atendente e dos poucos clientes presentes. claro que também filmo o sanduíche, aparentemente a maionese está ok e precisam trocar o fornecedor de alface. a derrota burgeira cecilier em 2020 é contemplativa.

mas vai chegar o dia em que sentarei num dos 3 bancos em frente a chapa e encararei um cheese champignon direto do balde, vocês vão ver.

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