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Boteco do JB

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Author: jb (page 2 of 17)

café no grito

ainda sobre o mst, estive bastante envolvido num braço desse movimento durante o ano passado. mais especificamente na unidade paulistana do armazém do campo, rede de lojas que vende no varejo alguns produtos vindos da reforma agrária.

promovi cerca de dez eventos, chamei chefs e músicos progressistas, foi uma boa farra.

anexo ao armazém tem uma pequena cafeteria, para a qual ensinei a fazer algumas comidas, trouxe um excelente confeiteiro para aulas, mais bom trabalho. no geral, tentei convencê-los de que não basta ter uma bandeira, mas também fazer boa comida com esses ingredientes vindos de origem tão digna. fechar com coerência a cadeia alimentar, era essa a minha missão. se não consegui cumpri-la por completo, espero ter plantado boas sementes e sempre estarei à disposição para eventuais melhoras no trabalho dessa, de outras lojas e também de todo o movimento, que tem cumprido papel tão fundamental no meio dessa pandemia. se o campo não planta, a cidade não janta.

uma vez dentro do movimento, me chamou a atenção o orgulho deles pelo café orgânico servido na cafeteria do armazém. coloquei na mesa que produto orgânico não é sinônimo de boa bebida e que não só poderíamos, mas deveríamos elevar a qualidade da bebida em questão. nascia aí o projeto do café da reforma agrária.

montamos belo time e fizemos uma expedição à região de campo do meio, sul de minas gerais. lá, junto a famílias humildes e trabalhadoras, constatei que o problema exposto na xícara vai muito além de uma torrefação que de fato deveria ser melhor.

duras condições de trabalho, ameaças de despejo, entre outras coisas. pro café da reforma agrária acontecer da maneira como quero, são uns 10 anos de trabalho, com sério risco do governo jogar todo esforço no lixo do dia para a noite. questões complexas que envolvem fatores políticos. o que só me motiva mais. não sei como andam as coisas agora, mas se solicitarem minha ajuda, ressalto que estou à disposição.

nossa expedição teve a honra de dormir na casa do paulo, assentado e produtor de café muito culto e gente fina. pra reverter os valores desse projeto chamado brasil, é preciso fazer o caminho reverso do café, que deixe de ser símbolo de atraso e colonialismo.

fiz um torresminho e cozinhei porco caipira com vários legumes e ervas lindas da vizinhança, bebemos cachaça, numa noite linda de morrer.

mas, antes da morte, o sono. colchão posto num pequeno quarto só pra mim, pensei que livraria o time do meu potente ronco e que conseguiria manter o segredo de que grito de 3 em 3 horas no meio da madrugada. mas esqueci de fechar a porta. e também não lembrei que o combo de ronco + gritos eventualmente pode ser acompanhado de performances de sonambulismo, independente do desejo da platéia.

– AAAAAH! EU NÃO QUEEEROO! AAAHH! EU NÃO QUEEEROOO! – assim berrei andando na pequena sala na frente dos 2 quartos da casa, segundo a amiga barista que tinha levantado pra ir no banheiro e se assustou comigo, que acordei assustado também e berrei novamente bem na cara dela, que com calma budista me levou de volta ao leito e só faltou cantarolar uma canção de ninar, o que creio que não ocorreu pelo nítido pânico exposto em seus olhos claros. compreensível.

silêncio sepulcral nos brindou na manhã seguinte e ninguém mencionou o escândalo que tenho certeza de ter sido escutado.

até hoje não sei o que quis dizer naquela noite, mas sei que depois dessa o mst não me chamou mais pra ir pra essas bandas. com a mais absoluta razão, diga-se. espero não ter atrapalhado projeto tão lindo.

o que quero mesmo é que bons cafés de fato estejam disponíveis na mesa do trabalhador. enquanto a gastronomia for tratada como item de luxo, estamos condenados a seguir no terceiro mundo.

noites gonzales

há pouco mais de uma ano estava com alguns amigos cozinheiros na região metropolitana de porto alegre para a festa da colheita do arroz do mst. pra quem não sabe, o mst é responsável pela maior produção de arroz orgânico da america latina.

entre os amigos presentes, o ilustríssimo checho gonzales, com quem tive a honra de dividir o quarto num simpático hotel à beira da estrada.

pequena confusão no check in. cheguei antes, mas sabia que a reserva estava em seu nome. tentei todas combinações possíveis, mas não consegui identificar o enigma. me restou passar a manhã esperando o amigo numa espécie de jardim de inverno, com gostoso sol contra a face. junho é mês assaz aprazível nessa região.

eis que chega o andino, sob a névoa daquela tranquilidade invejável que nunca terei, e resolve o mistério rapidamente, esclarecendo que seu primeiro nome é churchill, em homenagem ao velho primeiro ministro. ainda na infância, os amiguinhos bolivianos arredondaram pra checho, já gonzales acho que foi batismo de brasileiro mesmo. rimos muito.

a viagem em si foi uma das mais legais que já fiz. conheci assentamentos, acampamentos e a rica rotina das pessoas envolvidas, sua culinária e uma atenção pela educação que deveria ser exemplo a ser seguido pelo país todo.

em tempo. numa outra viagem, dessa vez a minas gerais, tive a honra de conhecer outros assentados e acampados, de perfil um pouco diferente, mas igualmente digno. se tivesse condições passaria o restante dos meus dias documentando essa gente sofrida e trabalhadora. inclusive ainda não desisti do projeto, já que não sei bem o que fazer da vida, agora que todos meus trabalhos acabaram.

voltando ao sul, a viagem durou uns 3 ou 4 dias e, após bater muita perna durante o dia inteiro, chegava a inevitável hora de nos recolhermos. antes de subir pro quarto, vinho no tal jardim, que nessa hora nos presenteava com personalíssimo vento sul contra o banco no qual sentávamos eu, checho e mais dois camaradas.

não me lembro da última vez em que havia dividido um quarto com outro homem. nesse tinha duas camas de solteiro, com abajures e criados-mudos as separando. sir winston gonzales dobrou cuidadosamente sua camisa de flanela vermelha e se deitou com respeito, organização e agradável silêncio.

eu assaltei uma longui néti de saideira no frigobar e me deitei de qualquer jeito. adormeci sem contar pra ele que roncava mais que uma brasília 77 com o motor batendo, que não dormia mais de 3 horas seguidas e que tenho o péssimo hábito de acordar berrando durante a madrugada.

pois todas a noites da viagem, de 3 em 3 horas, nos comunicávamos da seguinte maneira:

– AAAAAAAAH! AAAAAAAAAAAAH! – isso sou eu gritando.

– MATIRDA! MATIIIIIIRDA! – esse era o amigo acordando assustado, sem entender muito bem onde estava, pedindo socorro da esposa que, pro seu mais completo azar, estava tão longe.

eu não sei como o checho ainda olha pra minha cara, tem que ser muito gente fina mesmo e ter a educação típica de um sir.

dsclp, checho.

jesus collor numa moto

nos anos 70 o fabuloso zé rodrix deu a letra da romantização do isolamento social, nos belos versos de mestre jonas, que escancarou a porteira do mundo com seu rock rural sem freio, nem documento.

nunca houve um compositor como ele, que faz uma falta danada. decerto, se vivo, nos presentearia com fórmulas infalíveis de entretenimento nesses dias tão difíceis.

ou morreria de desgosto, já que a época não está muito propícia para os artistas.

eu acho que a chave de virada para o abismo cultural em que estamos jogados hoje se deu no governo de fernando collor de melo. desde que ele recebeu cantores de estética duvidosa no palácio do planalto o mundo nunca mais foi o mesmo. a partir daí foi ladeira abaixo.

daqui do meu canto imagino só o sorriso escancarado no meio dos tortos dentes do advogado cuidador de divórcios, ao saber da live de dia dos namorados de juan santanna. se o casamento resistir a isso, pode ser sinal de amor mesmo.

toda geração tende a achar que as anteriores foram mais legais, mas essa em específico tá bem no capricho. e a quarentena também funciona no modo lupa, o que já estava perto não passa mais despercebido, te engole.

não que tivesse muita coisa boa antes, que satã me livre de velhos figurões que sempre estiveram longe do povo, com atenção voltada apenas para cirandas de dces. porém a conta da mediocrização da classe não é deles, não.

de maneira que proponho o seguinte. já que collor passou a fazer a lok do dia para a noite nas redes sociais, que pague essa dívida que tem com a sociedade.

senador, o look do dia de hoje é o seguinte:

mete o jesus numa moto nas ideia e faz umas live com uns artista que prestaê.

pula fogueira iá iá

não sei se ainda existe aquela igreja mais apostólica que romana na esquina da paulo franco com a brentano, vila hamburguesa, subdistrito lapeano. bem na frente do bar do pinho, onde trabalhou por anos o wadinho, bicheiro mais firmeza do pedaço, que era meu vizinho na lauro müller. eu morava na 192, ele na 196, sobradinhos lindos que foram horrorosamente reformados.

foi nessa igreja que teve a missa de sétimo dia do meu pai, realizada pra agradar alguns poucos amigos. embora eu já fosse ateu nos anos 90, nunca fui de confrontar religiões. se te traz conforto de alguma forma, pra mim já tá de bom tamanho.

curiosamente o prédio no qual ele morreu de tanto trabalhar também ficava na paulo franco, assim como o cemitério. se pudesse escolher, decerto gostaria de ter trabalho, missa e enterro tudo na mesma rua, sob seu aparente controle. não deixou de ser uma penúltima homenagem. a última foi meu primeiro livro, dias de feira.

mas estamos em junho e hoje me lembrei que nessa igreja rolavam as festas juninas do bairro, em que sempre dava jeito de faturar algum vendendo rifas pra molecada que, verdade seja dita, não ia muito com minha cara, não. bem, pelo menos garantia o faturamento da noite.

abanado, gastava parte da bufunfa nas banquinhas de quitutes doces e salgados típicos desse tipo de celebração. embora a tolerância pra comidas bosta fosse bem maior naqueles dias – agora estamos falando de uma pré-adolescência passada nos anos 80 – eu não gostava muito de nada, não. os doces insuportavelmente açucarados eram um capítulo à parte. que bosta. que bosta. eu era o garoto que bebericava do copo de campari do meu pai, pô! me dê um troço mais amarguinho, senhora! não, ninguém nem entendia o que queria e voltava pra casa sem gastar o dinheiro ganho na noite.

provinciano, achava que o problema tava no bairro, que a comida das festas juninas dos outros era mais gostosa, que só podia ser uma questão lapeana. quando virou a década eu já era di maior e tinha carro, o que permitiu que fizesse uma busca de boa festa junina pela cidade inteira. descobri que além de comida ruim, o álcool também era intragável. vinho quente mais doce que maçã do amor, quentão mais alcoólico que maria louca e assim seguia o jogo.

quando virou o milênio, já tinha desistido dessa busca inglória, derrota devidamente assimilada há bom tempo. e hoje vejo muita gente se manifestando nas mídias sociais, com saudades de algo que só pode ter valor afetivo.

minha dica? acho que se é disso que você gosta, é isso que se deve fazer. improvise a sua própria festa junina, compre vinho chapinha, 7 quilos de açúcar, cachaça bosta, amendoim murchiba, a porra toda. tire o chapéu de palha do armário, vista aquela camisa de flanela modelo eddie vedder 92 e divirta-se sem medo de cair no ridículo, ninguém não tem a ver com isso.

e eu que não vou zoar sua religião. ok, talvez só um tiquinho.

manhãs de domingo

eu tenho um cachorro cujo apelido é demonho e sua voracidade por cabos aperitivo me deixou sem internet por 2 dias, daí o breve sumiço. zuêra acima de tudo, parece ser seu tema.

mas isso não é uma reclamação, não. cuidar dele me faz um bem danado, além da ótima companhia. especialmente nesses dias tão difíceis pra todos.

durante a quarentena perdi contratos de assessoria e é provável que faça alguns jantares pra me sustentar, quando esse período passar.

só não sei onde, já que o aluguel do tristezão tá caro pacas e não sei se a imobiliária aceitará minha proposta de renegociação.

amigos, não tenho muitos. sou o cara que muitos adoram concordar nos bastidores, mas têm pavor em se posicionar ao meu lado em público. o que só aumenta meu apreço a quem é mais próximo.

e tem a saúde também. escrevo sob o efeito de um surto de esclerose múltipla que no momento adormece boa parte do meu corpo, como se ele quisesse se desfazer da velha alma. será que nem minha carcaça me agüenta mais?

acontece que ainda não desisti da porra toda e se os adversários acham que as dificuldades me tirarão da parada, estão muito enganados.

sim, adversários. porque pra se tornar inimigo tem que entrar na fila. e, sinceramente, esse não é o foco agora.

na medida em que a pilha fraqueja é natural que se aprenda a usar com mais sabedoria o restante da energia e espero estar no nível de tal desafio.

os planos pra 2022 incluem publicações de mais livros e talvez uma porta aberta, mesmo que seja a da minha residência, independente de onde estiver morando.

já pra esse ano resta seguir lutando pela sobrevivência, o que vier a mais é lucro.

cuide-se você também.

até amanhã e, se puder, tenha um bom domingo. me desculpem pelo tom que por vezes pode soar inadequado, é que essas manhãs nubladas me comovem como um diabo.

HAJA!

nessa semana batemos trágicos recordes de casos de covid-19 em são paulo, e ainda não chegamos ao pico.

autoridades responsáveis tomariam as providências necessárias pra segurar a onda de fogo no cu consumista provocada pela breguíssima data (des)festiva criada pelo pai do atual governador.

e o que acontece? justamente o contrário. reabrirão o comércio pra tentar reaquecer pateticamente a economia. veja o histórico profissional tanto do prefeito quanto do governador e chegue à conclusão de que o cenário é triste, porém previsível.

a desculpinha oficial é a de que as utis estão menos lotadas. uti de hospital pra rico, diga-se. daí o pobre que se exploda, como diria justo veríssimo. ou e daí? não sou coveiro! como disse o atual presidente genocida. no brasil a realidade é mais dramática que a ficção.

as estúpidas rosas vendidas nessa época não terão dupla utilidade, já que em 15 dias elas estarão tão mortas quanto as vítimas dessa irresponsável reabertura comercial.

e mesmo a ação genocida de extermínio do elo mais frágil da comunidade que pega condução lotada pra servir na casa grande terá efeito bumerangue, já que é questão de – pouco – tempo pra doença voltar pro outro lado.

se você pode ficar em casa, não abra mão desse privilégio, não seja um pau no cu. tem gente nas ruas morrendo por você.

e ninguém está interessado na sua blusinha nova comprada na josé paulino, nem no que você comeu na praça de alimentação do shopping.

boas compras a todos.

sdds

a improvável quarentena faz com que muitos de nós nos comportemos de maneira um tanto saudosista, entre pilhas e pilhas de dezenas de milhares de cadáveres que poderiam representar número consideravelmente menor, se não fosse o empenho do genocida que ocupa o palácio do planalto em efetuar o oposto.

sim, empenho. porque a quem não governa, só interessa morte e destruição. inocente é quem acha que não passa de apenas mais um louco. joga uma nota de 100 no chão na frente dele pra ver se o meliante rasga, come ou coloca no bolso. evidente que a terceira opção é a mais provável.

isso posto, do que você mais sente falta do mundo que havia antes dessa merda toda acontecer? um beijo materno? mesa de bar com os mais chegados? shows de rock? talvez aquele abraço em torno de uma lagoa que não quer ser salva?

cada um sabe a maneira em que a saudade bate pra si. dores e lembranças sempre serão pessoais, intransponíveis.

o intervalo da escrita entre esse e o parágrafo anterior foi de mais ou menos uma hora, por bom motivo que conto a seguir.

recebi agora de um amigo 2 deliciosos sandos, 1 de berinjela e outro de frango, acompanhados de boa cerveja pilsen levinha como os japoneses gostam. natural que tenha trocado a mesa de trabalho pelo balcão de almoço, mas aqui estou de volta.

se quiser entender a relação afetiva que tenho por esse estilo de sanduíche, googe por déja vù sando e encontrará texto publicado em 25 de abril nesse mesmo blog, no qual conto a história de maneira meio torta, porém válida.

de maneira que nem me lembro se cheguei a pensar como terminaria essa postagem, mas que ganhei o dia, ganhei.

e finalizo dizendo que o que mais sinto falta do velho mundo é o hábito de sentar num balcão de izakaya com 1 ou 2 amigos, bebendo shochu, falando bobagens e comendo um monte de troço gostoso.

valeu, toshi san!

dois anos sem tony

no começo desse século trabalhava cerca de 16 horas por dia em duas cozinhas profissionais, de maneira que minha primeira reação não foi assim a mais entusiasta na primeira vez em que li a obra pela qual anthony bourdain é mais conhecido até hoje.

explico.

cozinha pra mim é ato sagrado e exige disciplina militar que passa a milhas e milhas de distância do estilo de vida regado a sexo, drogas e rock n’roll.

acontece que desde então vieram outros livros – bem melhores que cozinha confidencial, inclusive – e programas televisivos espetaculares, aos quais assisto até hoje. tony bourdain jogava em outra divisão, sua vida foi literária.

depressão é um problema sério e por mais romântica que sua morte pareça ter sido a real é que 2 anos depois ele faz uma falta danada e o ideal seria que as coisas tivessem se resolvido de maneira diferente. quer dizer, pelo menos para seu público, do qual faço parte.

até que ponto o homem está são pra decidir que tá na hora de cair fora? albert camus diz que todos devem pensar em suicídio pelo menos uma vez na vida. eu deixo a resposta ao pensamento para os filósofos e clínicos, me resumo à minha ignorância.

talvez seja egoísmo de minha parte, mas é duro pensar quanto conteúdo bom ele tinha pra produzir nesse mundinho medíocre do cacete.

por 2 vezes bateu na trave de conhece-lo, inclusive em uma delas cheguei a ajudar na produção de um vídeo gravado num izakaya na liberdade. sua equipe era ótima, a turma do audiovisual nunca desaponta. mas o brinde ficou pra próxima temporada no inferno.

anthony bourdain foi o lou reed da gastronomia e se sua vida se foi a obra é imortal. que a geração nutella millenial aprenda pelo menos um pouco com seus livros e séries. se bem que quanto a isso não sou tão otimista.

valeu, tony! foi lindo de morrer! até breve!

brazil

ontem pela primeira vez não atualizei esse sítio, o que venho fazendo desde janeiro. ninguém reparou. é preciso sempre ter consciência de sua própria insignificância. do contrário a própria vida dá um jeito de te lembrar.

chega a ser romântico o inocente ato da tentativa de distanciamento social nas aglomerações ocorridas no largo da batata.

mas infelizmente tais atos irresponsáveis só servirão para aumentar ainda mais o pico de uma pandemia que ainda está em curva ascendente. além de ser um prato cheio para a política repressiva do governo genocida usar e abusar de repressão.

mas, o que fazer, diante do horror que nos assola? como protestar? o silêncio pode ser ouvido de maneira mais eficaz?

sinceramente, não sei. não tenho capacidade e nem forças pra diagnosticar receitas contra a doença mortal que habita o palácio do governo federal.

mas sei que o país se tornou vergonha de ordem mundial. a ponto do pateta donald trump subverter, mesmo que involuntariamente, a lógica do saudoso aldir blanc.

hoje é o brasil que não merece o brazil.

uma boa arma da famigerada democracia é o voto inteligente, hábito esse que por sua vez é tão ignorado pela maioria dos brasileiros.

se não fosse pela pandemia, o mais lógico seria agüentar o paquiderme até 2022 e torcer por resultados menos nocivos nas próximas eleições.

mas o catastrófico quadro que levou o presidente a cometer crimes contra a humanidade faz com que se torne necessária cassação da chapa eleita e que seus responsáveis sejam julgados na corte internacional de justiça.

quanto antes isso acontecer, menor é a possibilidade de perdermos mais centenas de milhares de vidas com nomes e sobrenomes.

se a voz desse cronista que vos escreve não é uma voz a ser ouvida, ouça a voz que vem do interior de sua consciência.

e faça o que estiver ao seu alcance pra tirar esse genocida do poder. até porque quem se cala diante das atuais ocorrências é um goiaba ou tem algo a ganhar com a desgraça alheia.

que o legado artístico de aldir seja justificado e que o brazil volte a não merecer o brasil.

frango com catupiry

a crise sem precedentes fez com que vários chefs de cozinha repensassem a comida delivery, já que agora pouco importa essa tal de experiência, ou rolê, enfim, o programa gastronômico. apenas a comida à frente do comensal expõe o cozinheiro. mais que isso, o desnuda.

é preciso escolher com carinho e inteligência que tipo de comida viaja melhor e pensar nos possíveis contratempos dessa nova demanda, tais como eventuais atrasos e indisposições com o serviço de entrega.

até a famigerada pizza já mudou o sistema de entrega em alguns lugares, sugerindo que o comilão a finalize no seu forno desfibrilador, numa desesperada tentativa de ressuscitar a redonda.

situação essa que me faz lembrar de certa ocasião em que estava numa famosa pizzaria e o produto chegou na mesa bem murchiba. por coincidência o dono, que é meu amigo até hoje, passou pela minha mesa e comeu meu rabo da seguinte maneira:

porra, júlio! mas que caralho! um século de estrada e você num sabe que tem que sentar perto do forno pra comer bem?! que a pizza vai pegar corrente de vento e esfriar até chegar aí nessa mesa bosta que você está? ficou burro ou o que?! daqui a pouco vai ta pedinu pra viaji! é só o que falta!

eu já sabia dessa manha, estava sentado com minha companhia no fundo do salão porque a pizza não era o item mais importante no encontro daquela noite. encontro esse que tinha a intenção de ser um pouco mais discreto. mas errei, tudo bem. também sei que se não respeitar a comida, a comida não irá te respeitar e pode te expor a uma ocorrência dessas. aliás, até que ficou barato, sempre pode ser pior. essa noite mesmo teve final feliz, na mesa mais próxima do forno, com vinho e pizza, comigo e agora mais duas pessoas, já que o dono da pizzaria se juntou a nós. a única coisa que paguei foi a pizza pedida errada, pra largar a mão de ser jumento, segundo meu simpático amigo.

mas nem sempre as noites tem final feliz. parafraseando o genial fausto fawcett…

e o brasil o que é? é o abismo que nunca chega. o abismo que nunca chega.

voltando aos dias de hoje, sobre comida delivery em tempos de quarentena, é natural que tanta procura provoque problemas de tudo quanto é tipo. muita demanda pra pouca oferta.

daí que essa chef famosa pediu uma pizza nesse mesmo local. após considerável atraso, o motoboy entrega o produto rapidamente a ela e logo se arranca.

eis que ao abrir a caixa os olhos da moça saltam com espanto em direção ao seu interior, ao avistar que chegaram ao destino final apenas as bordas da pizza.

após boa crise de rizus, ligou para um dos sócios que resolveu seu problema rapidamente, levando ele mesmo não só uma, mas duas pizzas pra moça, junto com garrafa de bom vinho e um imenso pedido de desculpas. outra noite com razoável desfecho para todos lados, inclusive para o lado mais vulnerável da cadeia, coisa rara.

enquanto isso, os aplicativos de comida ficam cada vez mais miliardários. é preciso repensar em todo sistema, porque a parte mais frágil começa a se revoltar. e com a mais absoluta razão.

se não dermos uma fatia do bolo – ou, no caso, da pizza – maior pra eles, é questão de tempo pra ela ser tomada.

não é coerente dar palestrinha sobre sustentabilidade e ao mesmo tempo colocar sua equipe em ônibus lotados e não dar condições decentes de trabalho aos tão importantes entregadores, o último elo até a comida chegar ao freguês.

o mundo colapsou e essa ficha há de cair em todos. se não é possível mudar a lógica do dia para a noite, tratar o próximo como seu igual já é bom começo.

e, se puder ficar em casa, não abra mão disso. se não por ti, sim pelos outros, especialmente por quem trabalha pra sobreviver e também pra você manter esse privilégio.

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